julho 25, 2016

Relações Tóxicas

Quando a gente diz "relação tóxica" hoje em dia, imediatamente pensa na Jout Jout e no vídeo do batom vermelho. De fato, diante de tantos abusos maritais e de namorados, acabamos pensando que só um cônjuge ou parceiro abusivo é que contribui para a toxicidade nas nossas vidas.





Mas, infelizmente, o buraco é bem mais embaixo. Afinal, nós nos relacionamos com um monte de gente: família, amigos, colegas de trabalho, chefias, filhos e seres humanos em geral (ainda não conheci ninguém com uma relação abusiva com seu bicho de estimação, mas certeza que deve rolar).

Perceber-se numa relação tóxica não é nada fácil. Para quem, como eu, lutou a vida inteira com inseguranças e problemas de autoestima, o processo é ainda mais árduo, porque levamos muito tempo para sequer entender o que é que, naquela relação, pode se constituir um abuso.


Pode-se passar anos achando que as brigas familiares são motivadas apenas pelo temperamento "esquentado" dos parentes; ou que ser o saco de pancadas emocional da sua mãe é o que toda boa filha faz.

Pode-se ficar décadas em uma amizade com pessoas que só te ligam quando precisam de algo ou que te fazem sentir constantemente interpretando um "papel",  porque sua personalidade verdadeira talvez não caiba na vida do outro tão perfeitamente bem.

Quem nunca sentiu que, a qualquer palavra mal escolhida, um chefe, um vizinho, um amigo ou um parente teriam um ataque de fúria? enfim.

Em qualquer contexto, sair do ciclo tóxico não é simples, mas a falta de autoestima traz algo ainda pior para esse cenário: culpa. 

Para quem não se ama, querer dar um 'chega pra lá' nos abusos da mãe pode significar que você é ingrata e fria. Para quem não se respeita, chamar a atenção do amigo para seus abusos pode significar que você "está pedindo para não ter amigo nenhum". Para quem não se valoriza, terminar com um marido que te faz infeliz pode parecer uma decisão definitiva rumo à solidão eterna.

Mas viva a busca pelo autoconhecimento e pela evolução emocional. Seja pela terapia (que funciona melhor para mim), seja pelo coaching, pela religião (desde que realmente voltada para o desenvolvimento pessoal e não só o cumprimento de dogmas) ou mesmo pela autoanálise e observação de si próprio.

Ao buscarmos a maturidade emocional e o amor próprio, a gente percebe que a solidão mais cruel e verdadeira ocorre justamente quando nos cercamos de pessoas que não nos fazem bem. Quando aceitamos calados os abusos do outro. Quando não nos tratamos como seres únicos e maravilhosos que merecem ser bem tratados. Viver na relação tóxica é que é realmente solitário, dolorido, penoso.

É para sair xingando o amigo que te pediu carona? Nããão. É para cortar relações com a família por causa de uma discussão política? Nãããão. Como tudo o que diz respeito a relações humanas, nenhuma análise se torna uma regra, uma fórmula absoluta e definitiva de vida.


Mas se você se sente muito para baixo nas suas relações ou constantemente ansioso ou constantemente sem liberdade para falar o que pensa, bom, pare e pense um pouquinho. Quem sabe os outros à sua volta não estão copiando o jeito como você mesmo se trata: sem amor próprio, sem perdão e sem autoestima?

Porque, no final das contas, é só isso que acontece: os outros nos tratam como nós nos tratamos. Essa é a lição. Nos respeitar para termos respeito, nos amarmos para saber quando alguém nos ama, nos levarmos a sério para sermos levados a sério, e brincarmos sobre nossas falhas para que não pensemos também que qualquer brincadeira é um ataque. 

Então, vamos lá. Rumo à evolução emocional. :-)