outubro 19, 2016

A DIFÍCIL ARTE DE CRESCER: se defendendo das pessoas amadas



Nenhum esporte radical jamais será tão difícil quanto amadurecer. Não estou falando de envelhecer. Isso é fácil, pois não se tem escolha, não importa a quantidade de botox e plástica. Envelhecer não é um processo voluntário. Amadurecer é.

Exatamente por ser um ato que requer dedicação, esforço pessoal e voluntariedade, quase ninguém, ultimamente, parece querer amadurecer de verdade. E, eu juro, eu totalmente entendo.
Por que alguém se prestaria a fazer anos de análise, questionaria suas próprias escolhas de vida e ponderaria suas decisões se, na nossa sociedade, o que mais se admira é gente com síndrome de Gabriela Cravo-e-Canela (Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo sim; vou ser sempre assim, Gabrieeeeela)?


Todo mundo ama gente que não muda de opinião política, que não muda o jeito de trabalhar. Gente que demonstra qual é a sua personalidade de maneiras visíveis, para que, assim, ninguém precise perder tempo conhecendo um ao outro diariamente, durante toda a vida.
Pra quê? Se eu tiver tatuagens, coleção de bonecos de Star Wars, carros vintage e uma gama de outras idiossincrasias, pronto. Já é suficiente para saber do que se trata a minha personalidade, certo? Se eu colocar tudo no instagram, então, melhor ainda.




Amadurecer demanda que você investigue porque insiste em fazer algumas coisas de alguns modos que nem sempre lhe parecem saudáveis ou positivos. E quando você sai da casa da sua mãe ou de um casamento, decide que o melhor é investigar até onde foi sua responsabilidade nessas ‘quebras’ e nas coisas que, aparentemente, ‘deram errado’, para que você não viva apenas culpando o outro e assuma responsabilidade pelas suas escolhas de vida.

E você ainda questiona se as coisas que ‘deram errado’ realmente deram errado, porque se abre para a ideia de que aquilo que dói não é, necessariamente, ruim. 

Pelo contrário, no processo de amadurecimento, você percebe que pelo menos aquilo que ruiu ou quebrou ou descaradamente lhe fez mal, é mais fácil de superar do que certos atos de pessoas ‘boas’, que te amam, e que, mesmo assim, te fazem um mal do caralho. Pessoas que acostumaram tanto com sua falta de autoestima que se sentem no direito de não te deixarem se amar porque, assim, você vai deixar ‘de ser quem você era’ e eles não têm obrigação nenhuma de lidar com isso.

Que história é essa de não querer mais pessoas tóxicas ao seu redor? Quem sempre usou seu ouvido de pinico vai fazer o quê? Pagar terapeuta por conta própria?? E que papo é esse de não deixar mais jogarem na sua cara informações obtidas através de confissões íntimas que você pensou estar fazendo com um amigo, com alguém que sentia lealdade por você? Na-na-ni-na-nãããão. Vai mudar sua personalidade para deixar de ser capacho, para não ser mais subserviente, para não ser mais a boazinha?? Que insolência.

Amadurecer significa enxergar que a vida adulta é repleta de gente que não quer ver sua felicidade. De gente que vai espernear e choramingar a cada vez que você disser ‘não’, mesmo que você diga, não para magoar o outro, mas para não SE magoar. Porque a cada vez que a gente faz uma concessão, não porque está a fim, mas para ser amado e reconhecido, um pedacinho nosso deixa de amar a si próprio. E aí, já viu. Quando você vira um adulto, foram tantos pedacinhos seus que você machucou para proteger um pedacinho do outro, que você se encontra dilacerado, quebradinho num mosaico nada bonito da falta de amor próprio.


Amadurecer é aceitar se perdoar por ter feito isso e tentar juntar os pedacinhos todos de novo. Mas quando a gente faz isso, a galera do status quo mencionada lá em cima, fica chateada com você. Se você enchia a cara e não quer mais, você virou careta. Se você fazia de tudo e um pouco mais pelo marido, até pelo ex, e não quer mais fazer, você virou uma escrota. Quando a gente não entrega nossos pedacinhos machucados para os outros, eles estranham e reclamam muito.
Eu já tive muito medo disso. Mas o bom de amadurecer é que você vê que o choro do outro é mais fácil de suportar quando todos os seus pedacinhos estão inteiros, em você, se amando e entendendo que não é possível ser feliz estando preocupado em ser amado por todo mundo. Amém.

julho 25, 2016

Relações Tóxicas

Quando a gente diz "relação tóxica" hoje em dia, imediatamente pensa na Jout Jout e no vídeo do batom vermelho. De fato, diante de tantos abusos maritais e de namorados, acabamos pensando que só um cônjuge ou parceiro abusivo é que contribui para a toxicidade nas nossas vidas.





Mas, infelizmente, o buraco é bem mais embaixo. Afinal, nós nos relacionamos com um monte de gente: família, amigos, colegas de trabalho, chefias, filhos e seres humanos em geral (ainda não conheci ninguém com uma relação abusiva com seu bicho de estimação, mas certeza que deve rolar).

Perceber-se numa relação tóxica não é nada fácil. Para quem, como eu, lutou a vida inteira com inseguranças e problemas de autoestima, o processo é ainda mais árduo, porque levamos muito tempo para sequer entender o que é que, naquela relação, pode se constituir um abuso.


Pode-se passar anos achando que as brigas familiares são motivadas apenas pelo temperamento "esquentado" dos parentes; ou que ser o saco de pancadas emocional da sua mãe é o que toda boa filha faz.

Pode-se ficar décadas em uma amizade com pessoas que só te ligam quando precisam de algo ou que te fazem sentir constantemente interpretando um "papel",  porque sua personalidade verdadeira talvez não caiba na vida do outro tão perfeitamente bem.

Quem nunca sentiu que, a qualquer palavra mal escolhida, um chefe, um vizinho, um amigo ou um parente teriam um ataque de fúria? enfim.

Em qualquer contexto, sair do ciclo tóxico não é simples, mas a falta de autoestima traz algo ainda pior para esse cenário: culpa. 

Para quem não se ama, querer dar um 'chega pra lá' nos abusos da mãe pode significar que você é ingrata e fria. Para quem não se respeita, chamar a atenção do amigo para seus abusos pode significar que você "está pedindo para não ter amigo nenhum". Para quem não se valoriza, terminar com um marido que te faz infeliz pode parecer uma decisão definitiva rumo à solidão eterna.

Mas viva a busca pelo autoconhecimento e pela evolução emocional. Seja pela terapia (que funciona melhor para mim), seja pelo coaching, pela religião (desde que realmente voltada para o desenvolvimento pessoal e não só o cumprimento de dogmas) ou mesmo pela autoanálise e observação de si próprio.

Ao buscarmos a maturidade emocional e o amor próprio, a gente percebe que a solidão mais cruel e verdadeira ocorre justamente quando nos cercamos de pessoas que não nos fazem bem. Quando aceitamos calados os abusos do outro. Quando não nos tratamos como seres únicos e maravilhosos que merecem ser bem tratados. Viver na relação tóxica é que é realmente solitário, dolorido, penoso.

É para sair xingando o amigo que te pediu carona? Nããão. É para cortar relações com a família por causa de uma discussão política? Nãããão. Como tudo o que diz respeito a relações humanas, nenhuma análise se torna uma regra, uma fórmula absoluta e definitiva de vida.


Mas se você se sente muito para baixo nas suas relações ou constantemente ansioso ou constantemente sem liberdade para falar o que pensa, bom, pare e pense um pouquinho. Quem sabe os outros à sua volta não estão copiando o jeito como você mesmo se trata: sem amor próprio, sem perdão e sem autoestima?

Porque, no final das contas, é só isso que acontece: os outros nos tratam como nós nos tratamos. Essa é a lição. Nos respeitar para termos respeito, nos amarmos para saber quando alguém nos ama, nos levarmos a sério para sermos levados a sério, e brincarmos sobre nossas falhas para que não pensemos também que qualquer brincadeira é um ataque. 

Então, vamos lá. Rumo à evolução emocional. :-)