dezembro 28, 2015

A cruel arte de pedir desculpas por existir

Alguns hábitos ou traços de personalidade são construídos e/ou cultivados durante tanto tempo, que ao constatarmos sua existência e quão negativa ela pode ser, fica difícil visualizar uma situação diferente daquela.

Me explico.
Por mais que eu deteste admitir e por mais que a maioria das pessoas ao meu redor jamais desconfie disso pelo meu jeito meio desaforado e superficialmente seguro, sou uma pessoa que vive pedindo desculpas por existir. Como se o fato de estar no mundo fosse algo tão errado, que nascer e viver seria uma sorte pela qual teria que me desculpar para todo o sempre.
Parece ridículo, eu sei. Mas é uma coisa muito forte e, ao mesmo tempo sutil. E já tão enraizada dentro de mim, que não consigo nem imaginar o que seria eu sem essa sensação. Eu com a noção de que "mereço tudo que há de bom na vida e não tenho que me martirizar por aquilo que não sei ou não fiz" é um quadro que minha mente já não consegue pintar.

Para se entender a gravidade desse tipo de auto percepção, pense nisso: Hitler provavelmente foi capaz de não se ver como um peso para o mundo. E eu, pamonha, sim.

É claro que isso não ocorre de maneira simples e óbvia. É uma construção paulatina que me levou a, sem querer, sentir que minhas fortunas não são legítimas ou merecidas, e que minhas qualidades não passam de características positivas que todo mundo possui. O que é meu, só meu, são os defeitos, as falhas, as limitações. 



Não raro, desse tipo de percepção vem outra condição péssima e cada vez mais comum: a síndrome do impostor. A pessoa tem tanta certeza que não vale nada que, se constrói algo de bom na vida, acha que ganhou pela sorte de ter convencido a todos de que valia algo. Mas a culpa vem junto. A culpa de saber que, no fundo, você não merece o que tem de bom. E um dia, verão isso tão claramente quanto eu.

Alguns resultados só foram percebidos por mim recentemente e para o meu completo e absoluto estarrecimento, como minha fobia descontrolada de viajar de avião. Amo viajar. Queria muito. Mas passei anos entrando em pânico e, consequentemente, boicotando sutilmente cada oportunidade e tentativa de viajar.

De repente, na terapia, é claro, tive um estalo. Meu medo (que existe, sim, num nível também inconsciente) extrapola os limites das expectativas reais de um acidente simplesmente porque eu acho que não mereço curtir a vida e viajar. E se eu não mereço, é claro que o avião vai cair. É a punição perfeita para alguém que ousou aproveitar a vida sem merecer.

Qualquer um tem direito de rolar os olhos pensando "de onde essa louca tirou isso?". Mas é assim. Triste, eu sei.

Eu não defendi a criança e a adolescente que eu era, por acreditar que, se eu fosse contra meus pais ou se eu os decepcionasse fazendo escolhas que desaprovariam, eu não poderia permanecer vivendo e muito menos sendo feliz. Fiz o curso que provava que eu era séria e não viciada em moda e televisão. Assumi uma personalidade que se encaixou direitinho na rotina familiar depois do divórcio dos meus pais, pois, para manter meu lugar no mundo eu tinha que ser prestativa, né?

Eu fui amiga de pessoas que não tinham nada a ver comigo, porque, afinal de contas, que honra era ter pessoas que cogitaram serem minhas amigas?  E é claro que eu gostei de todo cara que gostou de mim, porque como uma pessoa desprezível como eu não vai retribuir um sentimento desse? Que sorte! Tudo veio só com sorte! Não teve nada a ver com eu falar inglês fluentemente por pura dedicação, desde a adolescência. Nem com meu português bastante proficiente num mundo onde mataram as crases. Não tem a ver com o fato de ter começado a trabalhar cedo e ser uma pessoa que absorve informações como uma esponja através da prática. Nem nada a ver como o fato de ser uma pessoa que quer ver os amigos felizes, e que faz questão de estar disponível quando alguém precisa conversar. Não tem a ver com minha preocupação com o mundo e com as pessoas, o que me faz ponderar minhas ações e querer ser solícita e cordial com a maioria das pessoas.

Enfim. Isso tem acabado. Vai acabar ainda mais e isso traz consequências. Tem gente que ama a gente, mas que acostumou tanto com nossa prontidão e pedidos de desculpas que fica chateada quando a gente decide que não vai mais fazer isso. É duro. Se defender e se amar é uma arte difícil de aprender depois de velha. Mas tamos aí. Até porque quero que minhas filhas saibam que eu as amo profundamente, e que tenho, sim, mais maturidade e experiência para fazer certos julgamentos. Mas quando elas sentirem, em seu âmago, que estão certas e precisam fazer algo que vai contra minha determinação, prefiro que elas amorosamente me mandem tomar no cú.

dezembro 10, 2015

UM ADEUS POSITIVO A 2015



O ano de 2015 talvez tenha sido dos mais irônicos da minha vida.

Eu tomei a decisão de me separar depois de 11 anos de relacionamento, por sentir que estar sozinha junto era pior que estar sozinha de fato. Também quis me separar por ter a estranha noção de que, assim, salvaria a amizade, o respeito e até o amor que sentíamos um pelo outro. Até agora, parece ter sido tudo confirmado.

Eu tive um surto depressivo, rápido, porém, intenso, que me fez aceitar o fato de que eu queria morrer. Por mais horrível que seja essa sensação, aceitá-la me forçou a parar, a rever prioridades, a entender o que era que meu âmago – que, em verdade, nem queria mesmo morrer – queria que eu visse. Meu desejo de morte foi o impulso de vida mais forte que já senti.
Eu me arrisquei a diminuir minha carga horária e minha dedicação na área pública para investir em uma nova carreira na área privada, no andar cavalar de uma crise econômica. Mas foi assim que descobri uma atividade que gosto, foi assim que melhorei meu padrão de vida e foi assim que ajudei alguns amigos, que já sentiam o gostinho da tal crise, e que vieram contribuir comigo.



Com o novo trabalho e uma rotina insana, eu me virei como pude para estar com minhas filhas, valorizando cada momento. E também, para não estar com elas, numa época em que faltaram babás e secretárias de confiança, o que me fez recorrer a parentes e amigos. 

Algumas vezes, não vi minhas filhas por conta do trabalho. Outras, por conta de acreditar que, como indivíduo, mereço, sim, “sacrificá-las” para fazer ‘besteiras’, como ver amigas, sair pra dançar e beber vinho ou para ficar em casa, sozinha, respirando a quase inexistente solidão produtiva que se perde ao ter filhos.

Eu me reaproximei de relações familiares que, apesar de intensas, já eram tratadas por mim como diplomáticas, e quando finalmente passei da diplomacia para a sinceridade do “ser eu mesma”, fui acusada de estar diferente. E a causa? Sempre, como sempre, por uma suposta influência que os outros exercem sobre mim. Me dá raiva só de ouvir isso. Sempre foi um dos jeitos mais fáceis de me ofender. Mas isso me fez pensar sobre como, de fato, dou importância às opiniões de pessoas que gosto. Às vezes, até das que não gosto. Eu gosto de saber o que os outros sabem de mim. Feio, eu sei. Mas o pior foi descobrir que elas ADORAM o fato de eu querer saber o que elas querem para mim.

Aí, depois que ouço suas opiniões, e as carrego para o fundo do meu coração e da minha cabeça, decido se vou ou não cumpri-las. E quando eu decido que não, rapaz, é um surto. Quem meteu o bedelho e não foi obedecido, fica com raiva de mim, me joga coisas na cara, pois, um dos jeitos mais fáceis de me quebrar, até então, era me fazer sentir culpada. Culpa é algo eu já sentia 95% do tempo, ao longo da minha vida. Agora, quero que todo mundo se foda antes de mim e das minhas filhas. Sinto muito se achei o seu conselho uma merda. Agradeço, mas declino.

O problema com as orientações e os conselhos dos outros é que, toda vez que os segui cegamente, me vi sozinha, de uma forma ou de outra. Desamparada, de um lado, por não ter feito que eu queria. Desamparada, por outro, porque quem me orientou ou nunca ficou satisfeito ou acabou assistindo tudo cair por terra, sem nem cogitar assumir uma corresponsabilidade. A vida é sua. O problema é seu.  E estão certos, mas agora, antes de enfrentar o problema, eu só sigo orientação que eu acreditar que vale. Foi mal aê.

Crescer é uma merda. Sentir que só se está crescendo aos 36, puta merda, mais doloroso ainda. Me ver absorvendo lições que minhas filhas também estão absorvendo aos 6 e 5 anos pode ser humilhante. Acabo passando pra elas uma opinião de criança, da criança que eu fui e que não respondeu aos baques. Se minha filha me diz que sofreu bullying na escola, meu primeiro impulso é falar para ela socar a cara da guria. Depois respiro, e digo que ela pode se sentir segura para dar uma resposta, porque ela tem pessoas que a amam e sabem o tanto que ela é especial e que, por isso, ela nunca precisa ter medo. Mas que, se ela não quiser responder, tudo bem também, desde que não carregue a mágoa dentro dela. E se tudo falhar, a gente soca a cara da guria.

Enfim, depois de anos alimentando o péssimo hábito de reclamar, este ano eu diminuí drasticamente meus lamentos, mas já era tarde demais. Vi gente querida tentando me ‘salvar’ justamente na fase que mais me senti fortalecida. O excesso de trabalho e o fato de viver num país que não facilita a maternidade em nada são difíceis? Sem dúvida. Mas é justamente ser feliz e guerreira nesse contexto que me faz sentir forte e capaz de superar tudo que jogarem pra cima de mim.

 

Assim, agradeço a todas as amizades, a todos os elogios e palavras de conforto, pois teve gente que fez toda a diferença na minha vida. Mas também agradeço a quem, mesmo sem querer, me fez sentir mal, me fez questionar minhas escolhas nem que fosse com o intuito de defendê-las. Pois eu as defendo. Não existiria caminho diverso sem tirar desse cenário as minhas filhas, por exemplo. Não existiria um sucesso profissional sem o sacrifício de amizades e de experiências de vida que me fizeram justamente essa guerreira que sinto ser hoje. E apesar de fraquejar e chorar de cansaço direto, eu vejo 2015 como um ano de pura vitória. Parabéns pra mim. Finalmente, eu sinto que mereço. Valeu, 2015.