novembro 20, 2015

Parceiro de Poker x parceiro de dança

Recentemente, uma das minhas amigas mais evoluídas emocional e espiritualmente (na minha opinião, ela iria discordar) me apresentou uma analogia fantástica sobre a qual tinha pensado enquanto tentava decifrar os códigos e mensagens de um peguete.

Ao começar a ouvir, já pensei: é isso. Total, é isso.

Ela, que é uma excelente dançarina, e pratica de fato a dança de salão, estava ficando com um jogador profissional de poker. E, pensando a respeito da ética existente nesses dois universos, chegou a conclusões que, eu acredito, são de absurda valia.

Contou ela que, na dança, há uma ética de parceria muito intensa, pois, a ideia é que os dois envolvidos consigam fazer os passos juntos, desenvolver a coreografia juntos e se divertirem juntos. Há uma busca pelo equilíbrio no estilo e no ritmo dos envolvidos. Isso, é claro, não quer dizer que tudo saia sempre certo. A verdade é que, assim como na vida, ninguém é obrigado a permanecer dançando com a mesma pessoas por várias e várias músicas. Porém, quando um convite é feito por um e aceito pelo outro, se estabelece ali um compromisso tácito pelo período de uma dança, ou uma música. Enquanto esse momento estiver acontecendo, a dupla deve permanecer em colaboração e atenção até que a música termine. 

Comparativamente, a ética do jogo e, particularmente a do poker, envolvia preceitos e conceitos opostos. Não se joga em parceria, se joga em combate. Blefe, manipulação, acaso e sorte são mais do que bem vindos, encorajados e elogiados. Quanto mais dissimulado o jogador, mais valorizado ele é. A ideia é fazer com que os outros se sintam inseguros, que percam a confiança em suas cartas. E o pior, a covardia é de fato bem aceita, pois, se você não está mais a fim de jogar ou acha que suas cartas não são boas, basta 'passar', 'fold', abandonar o jogo no meio, sem nenhuma preocupação com o envolvimento dos outros. E não é sequer necessário explicar o porquê. É um belo e mimado "não tô mais a fim, e não digo porquê".

Depois de 11 anos casada e recém separada, sinto que, em vários momentos da minha relação,  tive um parceiro de poker. E dos poucos homens com quem tenho conversado, sinto uma vibe de jogo também.

Como tenho uma rotina muito puxada, que deixa pouquíssimo espaço para uma vida social, confesso que não tenho mais paciência para o poker. Na verdade, nunca fui de jogar baralho, justamente por nunca ter sido boa em manipular os outros.

Ainda nem sonho com uma nova relação, mas uma coisa eu já sei: Quero um parceiro de dança.