abril 02, 2013

AGORA A CULPA É NOSSA??


Hoje vi mais uma notícia a respeito do estrangulamento de uma professora de 37 anos, mãe de dois filhos, ocorrido há alguns dias. Ela foi, supostamente, coagida dentro do estacionamento privado de um shopping super movimentado, de onde foi levada até o Parque da Cidade e encontrada morta dentro do veículo.

Depois da reportagem filmaram um monte de gente que, em plena luz do dia, estava dentro do carro ouvindo música, retirando a bolsa (em velocidade ‘normal’, que não é lenta, mas não é na rapidez da luz), falando ao celular próximo ao veículo e até lendo jornal sentado fora do carro. O tom da reportagem, entretanto, era jocoso e depreciativo, como se aquelas pessoas fossem loucas de ousar – às onze da manhã, meio-dia ou às duas da tarde – não se verem, naquele momento, como vítimas potenciais de um sequestro relâmpago e posterior assassinato.

Eu confesso que fiquei meio embasbacada. O Estado não pode assumir responsabilidade pela violência urbana, mas, agora, o cidadão é que tem viver na paranoia de que é um alvo vivo, constante e ambulante, aonde quer que esteja, aonde quer que vá e em qualquer horário?

Tudo bem que há pessoas sem nenhum tipo de consciência, aquelas que vão namorar dentro do carro no escuro e em locais desertos, gente que sai contando o dinheiro fora do banco, mulheres que estacionam e passam batom antes de saírem do carro. Mas as pessoas filmadas não eram desse tipo. Eram, basicamente, proprietários de veículos automotivos não sendo tomadas pelo medo absurdo de serem abordadas em plena luz do dia, no meio da cidade.

Se basta ser dono de um carro para ser culpado dos crimes ocorridos com a própria pessoa, o governo federal poderia, pelo menos, parar de empurrar esses pátios entupidos de veículos, através de redução tributária e propaganda subliminar, que visam assegurar o ‘crescimento econômico’ à custa de uma ferramenta cada vez menos útil ao cidadão.

Os carros de preço acessível não são confortáveis, e sequer são ‘acessíveis’ assim quando comparados aos preços praticados em outros países. Os engarrafamentos são resultado direto do excesso de carros; a falta de cortesia, a poluição, os acidentes e as violações de trânsito, também – agravados ainda mais pela população muito mal instruída e mal educada do Brasil. E, agora, se você tem carro, está imediatamente sujeito a ser sequestrado, pois a Secretaria de Segurança Pública e o governo de uma maneira geral não têm nada a ver com isso, aparentemente.

Acrescente-se a isso as situações em que é inviável agir com a rapidez e a atenção necessárias, como, por exemplo, quando coloco minhas duas filhas, cada uma em sua respectiva cadeirinha – exigidas pelo Detran sob pena de multa – e afivelo os cintos de segurança de cada uma delas, momentos em que estou 100% sujeita a ser uma vítima de sequestro. Como também não posso portar armas de fogo – só os sequestradores estão autorizados a isso – devo escolher entre jogar minhas filhas no banco de trás e rezar para elas não baterem a cabeça numa freada e para não pegar uma blitz que resultará, certamente, numa multa que não posso pagar; ou ousar parar para acomodá-las no carro assumindo a responsabilidade de ser, eu mesma, nosso próprio algoz ao me tornar um alvo de sequestro relâmpago.

Enquanto isso, bicicleta não é tratada como meio de transporte, o metrô tem apenas um trecho de ida e volta, ônibus é menos constante e menos seguro que uma carroça, e dá-lhe incentivo para se comprar um carro.

Ao que me parece, todos os bandidos trabalham com o mesmo cúmplice: a negligência do Estado.