junho 21, 2012

DOS ZUMBIS E OUTROS APOCALIPSES

Desafiada a escrever uma 'coluna' semanal - para o caso de, um dia, algum jornal receber currículos para isso. rá - decidi começar escrevendo sobre uma ideia bizarra que já ocupou boas horas da minha vida mais recente e vários pesadelos aos longo dos anos. 

Falar sobre apocalipses e, particularmente, sobre a possibilidade de um apocalipse zumbi, hoje em dia, nem é assim tão incomum. De alguns meses para cá, temos sido bombardeados com uma série de filmes sobre o assunto, que exploram desde a veia dramática até a tragicômica; temos notícias de arquitetos que construíram casas à prova de zumbi; temos acesso a jogos sobre comunidades sobreviventes e até 'flores contra zumbis' (sem brincadeira); podemos participar das chamadas 'zombie walks' - quando várias pessoas simplesmente se vestem como corpos decrépitos e passeiam pelas ruas, ao que, neste momento, aproveito para agradecer o fato de nunca ter encontrado esse pessoal, sob risco de, das duas uma, ter um infarto ou acertar a cabeça de um deles com a primeira 'arma' que encontrasse -  além de outras várias manifestações, hoje consideradas 'culturais', sobre a temática dos mortos-vivos.

Ainda que o assunto esteja permeando cada vez mais as rede sociais, a internet de maneira geral e o cinema - especialmente com a proximidade da data supostamente profetizada como o fim do mundo, pelo calendário Maia, e agora que pessoas já começaram a comer a cara das outras, como ocorreu na Flórida recentemente - não vou dizer que as pessoas não estranham ouvir de uma trintona, mãe de duas, que ela tem uma estratégia de fuga da cidade para o dia que esse apocalipse acontecer. Acrescente-se que, modéstia totalmente à parte, também não sou uma pessoa de capacidades intelectuais tão questionáveis a ponto de receber dos outros uma reação do tipo 'acho que deve ser normal acreditar em zumbis quando se é, assim, meio lesinha'. 

Exatamente por isso, passei a ter que satisfazer a curiosidade alheia no que tange minha motivação racional - se é que é possível falar em medo de zumbis e racionalidade na mesma frase - para cultivar esse pensamento sobre uma possibilidade de que o mundo entre em um colapso tão intenso que aqueles que buscarem a sobrevivência estarão sujeitos a abandonar entes queridos para trás, talvez até 'matá-los',  viver sob o risco de um ataque fatal, manter-se em movimento pelas estradas e áreas isoladas, aprender a usar armas,  a conviver com a morte iminente, a buscar alimentos, água e combustível, além de várias outras medidas que, supostamente, passarão a fazer parte do cotidiano de um sobrevivente.

Para responder a esses questionamentos, fui obrigada a, de fato, avaliar o que alimenta tão fortemente esse medo quase desejo de que esse apocalipse se profetize. Comecei a pensar sobre o porquê desse cenário tão desolador - que colocaria em risco a vida das minhas filhas, do meu companheiro, da minha cachorrinha, que são os que moram comigo, pois, para uma estratégia realista, já aceitei que não terei condições de salvar irmãos e mãe - me trazia, paradoxalmente, certo conforto, certa calma?

E aí consegui, na medida do possível, atingir duas possíveis explicações vantajosas, sendo que, para o propósito desta coluna, só aprofundarei em uma. A primeira é a questão daquilo que passarei a denominar de 'imediato tangível'. Super chique. Tem total aura filosófica, não? O imediato tangível, para mim, representa justamente o oposto daquilo que grande parte da minha geração aprendeu a cultivar, sabe-se lá por que: o futuro incerto. Pensamos sempre à frente. O que faremos amanhã, o que seremos no futuro, o que teremos muito em breve. Tudo é baseado em uma corrida de longuíssimo prazo, apesar da consciência a respeito da fragilidade e efemeridade da vida. Isso cansa. Pensar sempre só em parâmetros futuros, desde a hora que conseguiremos chegar ao trabalho até o dia em que seremos felizes, cansa mesmo.

Porém, face à perspectiva do colapso mundial, tudo se torna imediato. Não há como pensar em carreira, resultado e futuro quando se está tentando sobreviver agora, a cada parada, a cada ataque. Há conforto no agora. Há conforto na ideia de que frente ao fim, tudo o que é relevante será, de fato, relevante. O por do Sol que pode ser o último, o contato com a família, a comida rara, as lembranças de infância. Tudo passa a ter importância agora e tudo que tem importância no futuro, deixa de ser prioridade. Tá aí, minha primeira racionalização.

A segunda é justamente a sensação do controle. Mas, esperem aí! Acabei de falar sobres vantagens é o abandono da ideia de controle do futuro, não é mesmo? Sim, mas esse mundo de hoje, em que pese ser livre de zumbis, é repleto de inconstâncias, inseguranças e violência cada vez mais gratuita. As pessoas já se matam de maneiras crueis e, pior, sem a 'justificativa' de que não têm compreensão do que estão fazendo. As pessoas roubam, batem, machucam. Os governos roubam, matam e machucam. Com uma prestação estatal falha como a nossa, que não consegue nos garantir punibilidade e justiça, a impotência passa a ser um sentimento constante e particularmente negativo. Para aqueles que têm filhos, então, a possibilidade da violência iminente chega a ser dolorida, massacrante. O outro tem sempre uma arma, eu, não. Mas no apocalipse zumbi o Estado deixa de fingir que existe, e a anarquia faz com que cada um responda por suas ações e reações. Se alguém me ameaça, minha reação de matá-lo é justificada pelo impulso da sobrevivência.

Claro que quando penso no que seria essa realidade, entro em pânico. Já pensou, tomar um tiro à toa? Aí, lembro, pessoas tomam tiros à toa. Então, é 'melhor' que haja mesmo uma situação em que você possa se defender dessa construção abstrata de um humano que não é mais humano e não tem sentimentos, nem família, nem projetos, que é o zumbi.

Então, acho que é isso. Nos vemos no fim do mundo...






Um comentário:

Raissa disse...

Me identifiquei muito com os posts! Parabéns pelo blog! :)