janeiro 22, 2011

SÍNDROME DE ARIEL

Depois de passar a infância ouvindo contos de fada, não é de surpreender que as mulheres vivam à base de expectativas românticas irreais. Mas esse mundinho do faz-de-conta esconde duas histórias preciosas. Uma é a história da Bela e a Fera. Se ninguém reparou nas nuances vanguardistas, lembro-lhes que Bela adorava ler, era inteligente, generosa. E não puxava saco da Fera só porque ele era rico. Não, ela deixou-se conhecê-lo de verdade, para encontrar seu lado bom, e vê-lo com outros olhos. Enfim, ela tem mais mérito que a Cinderela que simplesmente deixou a madastra e as meia-irmãs acabarem com sua dignidade, até que um príncipe meio viadinho saísse em seu resgate, após conhecê-la numa festinha para onde ela foi escondida.

A outra preciosidade do mundo infantil e cujos ensinamentos femininos foram massacrados pela Disney, é a história original da pequena sereia. Uma verdadeira lição para as mulheres. 

Para quem não sabe, a história da Pequena Sereia descreve a vidinha burguesa oceânica de Ariel, uma sereia, que depois de resgatar um príncipe de um navio naufragado, por ele se apaixona. Como não pode viver em terra, Ariel pensa em maneiras de sair do mar para encontrar o tal do príncipe, até que esbarra numa bruxa. A bruxa tem poderes para transformá-la em humana. Se depois de três dias, o príncipe não a beijar apaixonadamente, Ariel, na versão Disney, será uma erva daninha de propriedade da bruxa. Na versão do livro, mais direta e hard core, a sereia morre, e se torna espuma do mar.

Em ambos os casos, o preço pela transformação é perder sua invejável, afinada e entoante voz, abdicando não só de um precioso dom que recebeu, mas de toda sua capacidade de comunicação. Se contabilizarmos, a ideia é que, para correr atrás de um carinha que ela mal conheceu, mas cuja vida já salvou, Ariel precisa deixar para trás seus amigos, sua família, perder uma de suas mais estimadas qualidades e capacidade de expressar-se verbalmente.

Para a Disney, a transformação é algo super simples. O fato da mina ter tido uma cauda de peixe a vida inteira não fez diferença nenhuma na hora de andar sobre duas pernas. No livro, Ariel sofre horrores de dores no joelho, destacando-se assim mais um sacrifício que faz pelo príncipe. 

Na Disney, mesmo sem falar pourra nenhuma, apenas com a ajuda de uns amiguinhos marinhos, a sereia consegue fazer o príncipe se apaixonar por ela. Na versão original - muuuuuuuuito mais realista - o cara até fica intrigado com a garota que aparece do nada no castelo e é incapaz de pronunciar uma palavra. Mas, apesar de achá-la bonita, o príncipe não consegue se interessar nesse sentido, até porque um cara rico, bonito e com idade estimada entre vinte e tantos e trinta e poucos, obviamente, já estaria noivo de outra - o que a versão da Disney resolveu modificar.

No final das contas, a Ariel do desenho consegue o amor do príncipe a muito custo, e de maneira completamente irreal, já que para conquistá-lo ela largou tudo que fazia dela ela. No livro, a sereia MORRE, sim, MORRE. Sabem porque? Porque se você tem que abandonar tudo o que você é, tudo o que você ama e tudo o que você tem para ganhar a atenção de um cara, você deixa de ser você. Inclusive, deixa de ser interessante, pois toda a sua história vai embora com seu passado, com seus amados, com sua voz. E se você é só uma gatinha - só lamento - vai ter muita concorrência. ESSA era a lição que deveríamos ter ouvido e que pretendo contar para minhas filhas. Você pode se apaixonar, só não pode deixar que isso a faça espuma do mar.


Um comentário:

mayara disse...

Amei seu blog, sequindo aqui!
me faz um favor ? seque o meu também?
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Obrigada! s2'