julho 29, 2006

O COMPORTAMENTO SECRETO DOS SOLTEIROS

Um dos ajustes mais difíceis e inesperados que tive que fazer quando saí da casa da minha mãe e fui morar junto com meu namorido, foi me acostumar a não fazer certas coisas que, antes, pelo menos na privacidade do meu quarto, fazia com naturalidade.
Não estou falando apenas de reprimir necessidades fisiológicas, como, por exemplo, os gases, o que, diga-se de passagem, é uma das tarefas mais árduas, trágicas e infelizes de se realizar. Não deixar escapar um “pum” na frente do outro durante o dia já é difícil, imagine dormindo, à noite. Por isso passei quase o primeiro mês inteiro de casada sem dormir direito. Estou falando daqueles rituais bizarrinhos, que o resto do mundo não precisa saber que você tem, mas você os tem.

O grande lance é que quando apenas se namora, ou pelo menos, se namora há pouco tempo, é possível manter um certo mistério. Os namorados, por exemplo, podem ser mais facilmente poupados de verem aquela calcinha furada do piu-piu que você comprou nos anos 90 e, sabe-se lá porquê, até hoje não jogou fora. Eles não precisam saber que seu cabelo não é tão naturalmente liso, nem das posições humilhantes e da dor de uma depilação. Eles não precisam saber que você ouve música brega quando está limpando o quarto, que você arrota quando está só, nem que você, sei lá, rói unha do pé.

As namoradas, por sua vez, não precisam saber o que é uma cueca masculina suja (não queiram ver, por favor!), não ficam ouvindo arrotos à mesa, nem coçadas de saco muito explícitas. E além de toda essa “poupança” de intimidades, ainda é possível ir cada um para sua casa fazer tudo o que não se faz na frente do outro.
Assim, independentemente dos aspectos escatológicos, existem sempre manias, comportamentos diferentes, pautados de subjetividade e individualidade, que os solteiros cultivam e que nem sempre se sentem à vontade para levar para a vida de casal, por vergonha, ou até porque, sem o isolamento e a privacidade, a mania perde sua graça.
Eu, por exemplo, que agora tenho que dividir a televisão com meu dito cujo, não posso mais passar três horas seguidas assistindo programas de moda, gravados desde 1995, fumando cigarros. Para ele não tem sentido ficar vendo desfiles antigos. Pra mim, o sentido é todo e o prazer, então, é indescritível. E tem que ser fumando, senão, não é a mesma coisa.
Outra mania que eu tinha era de espalhar listinhas de afazeres pelo quarto. Não apenas afazeres práticos, como “pagar tal conta” ou “marcar dentista”, mas afazeres emocionais e futuros. Resoluções mesmo, do tipo “não ser emocionalmente dependente dos homens”, “não compensar o vazio da solidão com comida”, “encontrar uma paixão profissional e ficar rica”. Coisas essenciais, pra mim, mas ridículas aos olhos alheios. Também já deixei rabiscado um quadro de avisos (daqueles de cortiça), quase inteiro, porque, pra mim, falar ao telefone sem ficar desenhando estrelinhas, cubos e escrevendo meu nome, não vale a pena.

A tristeza que é dividir o banheiro com um parceiro ou marido deve ser citada também. Não era à toa que eu dizia que só me casaria quando fosse rica o suficiente para ter dois banheiros (HÁ-HÁ-HÁ). Apesar de ter que dividir o banheiro com meus irmãos durante toda a vida, a convivência fraternal é diferente. Primeiro porque, depois de tantos anos dividindo tudo, todo mundo acaba se acostumando com algumas manias e relevando as bizarrices do outro. Segundo porque a rotina de cada irmão consegue ser tão diferente que, às vezes, nem parece que moram na mesma casa.

Enfim, banho ritualístico era uma mania que eu adorava. Sentava na banheira, mesmo que fosse só com o chuveiro ligado, acendia um monte de velas e ficava ouvindo músicas absolutamente depressivas. Era de Radiohead pra baixo e era ótimo. Depressão no chuveiro, com a trilha sonora correta, é tão bom!

Mas agora, além de não ter banheira, se eu ficar uma hora no banheiro com a luz apagada, só ouvindo música triste, meu dito cujo vai achar que estou tendo um episódio depressivo de transtorno bipolar. Por isso eu tive que adaptar essa mania secreta (e que agora deixou de ser!). Agora me sento na privada (tampada mesmo) e boto apenas os pés embaixo do chuveiro quente e fico viajando, por alguns minutos apenas, é claro. Fico pensando em um monte de coisas. O tema para esse texto, por exemplo, saiu desse ritual. É bizarro? Sim, eu sei, mas é tão gostoso!

E eu sei que não sou a única que tem um comportamento secreto de solteira. Tenho uma amiga que confessou que adora fazer a escova dela, com a TV ligada no canal GNT e no “mudo”. Odeia quando o namorado chega nessa hora. Outra disse que, religiosamente, a primeira coisa que faz quando chega em casa é abrir o botão da calça. Ela não troca de roupa, ela não faz nada além de abrir o botão da calça e ficar andando pela casa. Outra, ainda, por causa da prisão de ventre se acostumou a fumar um cigarro pela manhã, tomando café preto (dois “relaxantes” intestinais), e lendo jornal, tudo isso, sentada na privada. Estava preocupadíssima na hora de morar junto com o namorado.

Dessa forma, eu cheguei à conclusão que ter alguém na vida é muito bom. Dormir abraçado, rir junto, dividir as coisas. Mas perder o comportamento secreto de solteiro é triste. Não quero dizer que, para morar com alguém, devemos necessariamente abdicar de todas as manias e hábitos naturais. Mas é que fazer certas coisas quando estamos sós é muito melhor. A privacidade é a garantia que temos de não sermos julgados por comer ovo mexido com geléia, cozinhar narrando como apresentadora de programa de culinária, falar sozinha em inglês, acariciar os próprios livros, fazer faxina de calcinha e sutiã ouvindo música brega, ler “Toda a Mafalda” comendo brigadeiro, usar os produtos de higiene no banho sempre na mesma ordem, ficar quarenta minutos espremendo cravos e espinhas, passar máscara verde no rosto, fazer maratona de Sex and the City, espirrar escandalosamente, marcar despertador no domingo só para ter o prazer de constatar que não é necessário acordar cedo, comer com a mão, tomar sorvete direto do pote, lamber o prato, juntar 1 bilhão de fotos de infância e rever uma a uma,...

julho 01, 2006

A COPA ME DESESPERA...

Todo ano de Copa do Mundo é mesma coisa... Eu juro a mim mesma que não vou me importar, que não vou ter expectativas, nem me desesperar.
Mas não tem jeito. Brasileiro é f****. Parece que a gente é contaminado de 4 em 4 anos pelo vírus do futebol.
Meus argumentos racionais são ótimos: o capitalismo acabou com o esporte, os resultados são comprados, os jogadores ganham milhões de euros, e eu não, então eu tenho coisas mais importantes com as quais me preocupar. Mas não tem jeito.
Toda vez eu me desespero, eu me importo, eu tenho expectativas. E começo a odiar outras nações. Abalou a seleção, eu odeio. Me dá vontade de chorar, de conversar com cada jogador e com o técnico e falar que eles fuderam minha vida (poupar o f**** e depois falar "fuderam" é f***!), que eles fizeram com que eu me importasse. Ai, que raiva. Não sei se tenho mais raiva dos perigos dos jogos ou de ficar tão abalada.
Toda vez eu penso "porquê?". Também não sei. Eles não estão nem aí pra mim, por que diabos vou me importar com a performance deles? Mas me importo. Odeio isso. De novo, não consigo ser blasé.
E agora eu espero. Durante o jogo contra a França - um país que eu costumava gostar - eu fico esperando a seleção mostrar que brasileiro não tem que "abrir as pernas" o tempo todo. O problema é que a gente sempre abre. Através do governo, através da seleção, através de nós mesmos a cada vacilo.
Que raiva de sentir tanta raiva por algo que eu não queria que me afetasse, mas me afeta. Odeio a Copa.