junho 27, 2006

TUDO O QUE EU QUERIA SER

É uma pena que nem todo mundo possa ser obsessivo o suficiente para se tornar a pessoa que gostaria de ser. Na verdade, tenho minhas dúvidas se mesmo aqueles abençoados por absurda determinação conseguem, de fato, alterar aspectos da própria personalidade.
Sempre achei que eu tivesse algum problema por sempre sonhar com uma personalidade escolhida a dedo por mim mesma, mas acabei descobrindo que são muitas as pessoas – principalmente mulheres – que gostariam de alterar aspectos emocionais em si próprias. Além do cabelo, do corpo, da pele e do nariz, muitas mulheres gostariam de ser, por exemplo, mais disciplinadas, mais organizadas, menos estabanadas.
Eu, pelo menos, sempre quis ser mais blasé do que sou. Aliás, de blasé não tenho nada. Simplesmente não consigo dar de ombros em situações que, de alguma forma, me afetam. E quase todas as situações me afetam. Também nunca consegui ter a coordenação motora que gostaria. Derrubar copos, topar o dedo mindinho do pé na quina da cama, tropeçar na rua são aspectos inatos da minha personalidade. Parece mesmo que nasci com eles impressos no meu código genético.
Também nunca consegui ser “magra de ruim”. Mas aí também fica difícil competir com o mesmíssimo pedido de 1 bilhão de mulheres ao redor do mundo. Mas se pelo menos eu não gostasse tanto de comer tudo, se eu não gostasse tanto de tomar uma cervejinha, de cair de boca num pote de brigadeiro, de ir à churrascaria....ai, ai. Seria legal não fazer questão de comer.
Se eu realmente pudesse escolher, desejaria, principalmente na adolescência, que eu me concentrasse mais. Adoraria prestar atenção numa aula de Química e nunca mais esquecer. Até hoje, depois de uma luta que parecia infindável com a Matemática, a única coisa que eu me lembro são as quatro operações (com exceção de divisão de números “quebrados”) e regra de três simples. Não faço mais idéia do que seja o delta numa equação de segundo grau. Isso é falta de concentração e de memória.
E, relatando tudo isso, me veio à mente, de repente, uma revolta. Uma revolta magoada por ter falado tão mal de mim mesma e ter querido tanto características que não sou obrigada a ter para ser feliz. Querer melhorar é uma coisa, mas por que é que a gente insiste em reclamar do que temos e invejar o que não temos?
Não posso ser feliz me importando com todo mundo, discutindo ardentemente, chorando pelas desgraças alheias? Se não sou blasé, não sou. Fazer o quê?
Será mesmo que deveria me sentir inferior ou sequer envergonhada de derrubar copos? Eu pago a porra do copo, oras pipocas!! E a topada do mindinho, bom, não é legal, mas o mindinho é meu e para aliviar posso soltar um bruto palavrão com o aval do resto do mundo. Afinal, topada do mindinho é sacanagem.
Será também que eu teria coragem de abdicar do prazer I-NE-NAR-RÁ-VEL de comer??? Abrir mão de sentir uma sensação quase orgástica comendo um pedaço de lombo de porco, sashimi, macarronada, arroz de carreteiro e fondue de chocolate? Que tipo de pessoa eu seria se olhasse para um prato cheio de cores e aromas e sabores e falasse “ecati!”? Acho que não conseguiria mais me olhar no espelho.
Da mesma forma que não agüentaria lembrar de todas as fórmulas de resolução de uma equação do segundo grau, e esquecer da minha infância, da qual, ainda bem, lembro-me perfeitamente. Detalhes, vergonhas, felicidades. ELES é que ocupam minha mente, me fazendo não conseguir concentrar tanto em outras coisas menos importantes, como, por exemplo, Direito Constitucional. E ainda assim, eu já reparei que, quando gosto de algo, como Inglês, Francês e moda, consigo me concentrar que é uma maravilha. Não posso fazer nada se meu cérebro é tão independente que possui um sistema de concentração seletivo.
Então, é isso. Vou para de reclamar dos meus defeitos. Eles podem ser defeitos por um ângulo e encantos ou charminhos por outro. Vou parar de ficar desejando alterar minha personalidade. Por isso, agora, quero me tornar uma pessoa mais aceitadora de si mesma, menos intolerante, mais zen, na verdade, alguém que sabe o valor que tem, naturalmente, uma pessoa centrada em si....

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