dezembro 16, 2006

POR QUE NÃO QUEREMOS OS BONZINHOS?

Preocupação com a performance sexual, frustração amorosa, chifre, pé-na-bunda, bolo e insegurança sempre foram neuroses mais comuns ao universo feminino, tanto na busca por um quanto já dentro de um relacionamento. Mas agora, parece que a coisa mudou. Sim, senhoras juradas, é verdade: os aspectos mais negativos e mais clássicos, que nos assombram há tempos, estão fazendo parte ativa da vida de nossos amiguinhos: os heteros bonzinhos.

Eu não sei o que é que acontece realmente. Só sei que tenho visto um bonzinho atrás do outro sofrer com a frieza feminina como se fosse uma inversão de papéis. Não estou dizendo que sempre fomos submissas e que isso é o normal. Já somos parte de uma geração muito mais avançada, mas sempre achei que ficávamos mais vulneráveis do que eles na guerra da sedução e do namoro. Pelo visto, eu me enganei.

Ficar e não ligar no dia seguinte, chifrar sem culpa, terminar de uma hora pra outra, humilhar, estes são alguns exemplos do que las chicas andam fazendo por aí. E não estou falando de peranhas assumidas, estou falando de meninas fofinhas, lindinhas e, pelo menos superficialmente, românticas!!! E os bonzinhos, coitados, andam em fila como aqueles patos de mentira em tiro ao alvo de parque de diversão, caindo, um atrás do outro, sem entender o que diabos há de errado com eles.

As mulheres vão me odiar agora, mas eu acho que o problema não é com eles, é com a gente. Convenhamos, meninas, o bonzinho disponível nunca foi de nos empolgar muito, não é verdade? Vivemos em uma época em que não temos obrigação de gostar para beijar, de namorar para trepar, nem de casar para ser feliz. Como já disse em outras colunas, queremos um relacionamento, mas não precisamos de um. E por que os bonzinhos se ferram nessa história? Porque nessa transição, nessa aquisição de liberdade e, principalmente, nessa aquisição de poder, nós deixamos de nos apaixonar por qualquer um e, pior, estamos queremos desafios. Afinal, mulheres a.do.ram a idéia de transformar um fodão galinha em um apaixonado incorrigível, muito mais do que a idéia de ter um cara imediatamente ao seu lado, para o que der e vier. Parece que ficamos viciadas no joguinho da conquista.

Confesso que estou chocada. Não se tratam de bonzinhos feios, nerds ou losers. São marmanjos, jovens, bonitos, “de família”, bem de vida, formados, empregados, fiéis e disponíveis, sendo descartados como aquele tamanco com salto de acrílico ho.rro.ro.so que você não sabe porque comprou há cinco anos atrás!

Dito isto, devo fazer duas ressalvas importantes: a primeira é que não há regras que definam, de verdade, as dinâmicas entre casais ou pretendentes. Sei que há muita mulher por aí que discorda veementemente com o que estou escrevendo e está esperando um desses bonzinhos bater à sua porta. E a segunda é que química é algo não planejado, não escolhido e im.pres.cin.dí.vel num relacionamento.

Bonzinho ou não, o cara tem que atingir um ponto inexplicável na gente (soou meio sexual, mas só tô falando em metáforas!). Aquele encantamento, aquela paixonite imediata não dependem do tanto que o cara é legal, só do quanto você gosta dele.

Fazer o quê? Agora é rezar para que a atração seja pelo cara que vale a pena, ou seja, juntar a fome com a vontade de comer.

novembro 23, 2006

AS MULHERES E AS OUTRAS MULHERES

Não é um texto sobre amantes, não. É que comecei a reparar de uns tempos pra cá que, toda vez que estou me arrumando pra sair, não estou pensando, necessariamente, em quantos caras vão me olhar ou me paquerar – até porque tenho um namorido bem briguento – mas penso muito mais em quantas mulheres ao longo da noite vão me julgar.

E, pensando nisso, comecei a reparar na quantidade de amigas e conhecidas que apresentam este padrão de comportamento, não apenas com relação ao vestuário, mas com relação a quase todas as dinâmicas da vida.

É sério! Pare e reflita: quantas mulheres já não deram em cima do seu namorado, não porque estavam realmente apaixonadas por ele, mas só pra te espezinhar? Quantas vezes cada uma de nós já escolheu uma roupa pensando no que as amigas achariam dela? Que mulher nunca chorou sangue ao conhecer uma alta, loira, do olho azul, gente boa, inteligente, com bons modos, profissional de sucesso e dinheiro no banco, só porque ela era tudo o que você não é (é o tipo de “mulher completa” que parece existir SÓ para o resto da humanidade feminina se sentir um lixinho)? Quem nunca ficou pensando se outras mulheres achariam seu namorado feio ou chato?

Assim, eu dei de cara com a pergunta que não quer calar, senhores jurados: AS MULHERES VIVEM EM FUNÇÃO DE OUTRAS MULHERES?

Por favor, não interpretem este texto de forma radical. Não estou fazendo nem apologia à homossexualidade feminina (apesar de ter queridíssimas amigas que mereciam uma apologia), nem dizendo que toda mulher deve ou, de fato, vive competindo com todas as outras. Nem sei se isso é, de fato, uma competição! Estou apenas destacando esse aspecto sutil e complexo da nossa “criação feminina”, e que, confesso, me pegou de total surpresa.

De onde vem isso?! Eu me lembro de no prézinho ficar comparando minha letra com a de outras meninas! Aliás, acho que tooodas faziam isso. Todo grupinho escolar tinha uma nerdizinha, uma feia, uma bonita, uma rica, e todos esses critérios eram definidos, simplesmente, através da comparação de uma com a outra. Acho que um dos maiores motivos pelo qual eu estudava para as provas na escola era para não passar vergonha frente às amigas! Tô horrorizada! Tenho lembranças claras, desde a infância, de me preocupar com que outras meninas, e posteriormente outras mulheres, pensam de mim!!!

Sei que posso ser a única louca a sentir (ou admitir?) isso. Mas consigo pensar em duas justificativas: a primeira, mais pessimista, é que julgamento feminino é uma estratégia de guerra e tortura à qual nenhum homem sobreviveria. Só uma mulher sabe o que é capaz de dizer a respeito de outra e por isso fica em pânico de que possa ser o alvo um dia. E eu garanto: todas serão alvo, cedo ou tarde, pra bem ou pra mal.

A outra justificativa, um pouco mais romântica, é que, apesar de todo o machismo e de muitas vezes nossas vidas serem guiadas – em muitos aspectos – pelos nossos ditos cujos e objetos de desejo, no fundo, as mulheres se respeitam. E, sabendo da força que cada uma é capaz de ter, jogam duro, se analisam, se julgam, por saber que seremos sempre parâmetros de nós mesmas, como um grupo.

Espero, de verdade, que a realidade seja o último caso...

outubro 31, 2006

AQUILO QUE NÃO DIZEMOS

Quando somos crianças somos ensinados que mentir é sempre ruim e dizer a verdade é sempre bom. Ponto final. Em inúmeros casos, isso está absolutamente certo. Princípios de honestidade e sinceridade, por exemplo, têm como base essa exata idéia.

O problema é que nem todas as situações pelas quais passamos na vida são tão “preto-e-branco”. Relacionamentos são complicados, sejam com nossos pais, amigos ou ditos cujos, pois cada um tem uma personalidade e cada pessoa age e absorve uma verdade de forma diferente.

Para complicar um pouco mais, à medida que ficamos mais velhos, e, principalmente, à medida que vamos adquirindo uma bagagem de relacionamentos, vamos percebendo que, nem sempre, falar a verdade é apropriado ou gentil.

Quem é que nunca soltou, por exemplo, um “você tá ótima” pra uma amiga que estava um bagaço, mas estava se achando linda? Soltar um “caraleo, o que você estava pensando quando vestiu essa roupa de vocalista do Calypso?” só faria a pessoa se sentir insegura e, pior, confrontada. Nem todo mundo, especialmente as mulheres, consegue ouvir um comentário sincero desses.

Quem nunca entrou numa briga monstra por comentar com o namorado que, o “amigo” que vocês acabaram de cumprimentar é um ex-ficante? Não é necessário ter feito nada de errado, mas é um tipo de verdade que só deixa o cara, de novo, inseguro e confrontado. Omitir para os pais duas horas do horário real em que se chegou em casa, omitir 10 kilos a uma colega que te perguntou se ela está gorda, não falar o que se realmente pensa a alguém que tomou uma decisão estúpida, falar que a comida de um anfitrião estava maravilhosa quando você, na verdade, mal conseguiu mastigar a maldita, são coisas que acabamos aprendendo a fazer para lidarmos de forma mais diplomática com as pessoas do nosso convívio.

É claro que, nos relacionamentos nos quais temos bastante intimidade, fica um pouquinho mais fácil ser sincero, sem levar uma porrada de volta. Mas, ainda assim, vamos omitindo cada vez mais, para cada vez mais pessoas.

O motivo pelo qual estou falando sobre isso é porque recentemente percebi a dificuldade de duas pessoas – queridíssimas minhas – em falarem para os seus ditos cujos aquilo que, de fato, estavam sentindo. Duas pessoas maduras e equilibradas, que estavam no seu direito de falar que não estavam se sentindo bem na relação, vivendo em martírio porque, simplesmente, temiam falar a verdade.

Então, eu pergunto: por que diabos não conseguimos falar?

A que vos escreve é o primeiro exemplo: sou desbocada e faladeira, mas comecei um blog só pra poder “falar” aquilo que não tinha coragem, e, muitas vezes, oportunidade, sobre o que passava na minha cabeça a respeito do meu namoro.

E aí vem a última pegada: quem nunca sentiu que não falar doía mais do que as possíveis conseqüências daquilo que se queria dizer? Quem nunca botou tudo a perder porque teve medo de dizer “eu te amo” ou piorou a situação quando não disse “eu não te amo mais”? Quem nunca entrou numa fria e acabou atrapalhando a própria vida porque não teve a coragem de dizer “não estou segura com relação a isso”, “não quero fazer isso”, “estou me sentindo assim ou assado” ou “eu acho que mereço isso ou aquilo”? Muita gente já passou por isso.

Dessa forma, devemos resgatar um pouco dessa falta de diplomacia infantil e falar o que pensamos quando sentirmos que não falar vai nos atropelar, machucar, doer. Não precisa ser daquelas pessoas inconvenientes que fazem os comentários mais maldosos fingindo que é apenas sincero. Mas apenas se permitir dizer aquilo que se quer na hora em que acharmos ser certa. E, vai por mim, você poderá se surpreender.

outubro 24, 2006

FIM DE NAMORO


Em um texto dedicado a uma amiga muito querida, falei de como meu desejo de possuir uma frieza natural, um ar completamente blasé, refletia apenas um outro desejo: o de nunca sofrer.

Falei também de como, principalmente no que diz respeito a relacionamentos amorosos, a vontade de não se ter expectativas a respeito do outro é muito grande. Sem expectativas, não há decepção. Sem envolvimento, não há perda. Mas nós sabemos que isso é impossível. E todo mundo sabe que para se ter o bom da vida, é necessário aguentar também aquilo de ruim que vem dela, e blá, blá, blá.

O maior problema com relação ao fim de um namoro é que a gente pode até saber das coisas, mas a gente não consegue senti-las. Não conseguimos sentir que tudo passa. Não conseguimos enxergar a possibilidade de outro amor no futuro. A dor parece não ter fim. A vontade de chorar aparece em horas impróprias e inesperadas. Não há pote de sorvete no mundo que apazigúe essa dor tão intensa e subjetiva. Mas ajuda, né?

É engraçado ver como cada um procura estabelecer comportamentos-padrões para seguir após o término. Uma espécie de “regras da separação”. Já vi gente que queimou fotos, já vi gente que passou mais de um mês isolado em casa. Hoje em dia, no mundo muderno, já vi gente cometer orkuticídio, colocar letra de música depressiva no fotolog e apresentar comportamento sexual oposto do seu (se era hetero, ficou com pessoas do mesmo sexo e se era gay ficou com pessoas do sexo oposto).

É. Terminar é complicado mesmo. E para mulheres, então? Não conheço UMA que não passou o mês seguinte analisando cada detalhe da relação, se perguntando o tempo todo “será que eu tentei o suficiente?”, “será que eu exagerei?”, será que ele nunca me amou?”, “será que ele me quer de volta?”,“será que eu não devia ter terminado?”. A obsessão amorosa parece mesmo genética nas mulheres.

Eu nunca pensei em criar regrinhas para um término. Mas pensando a respeito, cheguei à seguinte conclusão:

AS REGRAS DO TÉRMINO

1. esconda as fotos dele e de vocês juntos e felizes, mas não as destrua. Depois que tudo passa e você desapaixona, é um arrependimento só. Afinal, as pessoas, quando entram na nossa vida, passam a fazer parte de toda a nossa história;

2. cerque-se de atividades e inove. Volte a ter contato com amigas que não vê há tempos e vá sempre pra lugares aonde nunca ou raramente foi. Explore sua própria cidade, como se fosse turista. Pode até paquerar na noite fingindo que é turista mesmo. Invente um sotaque, exorcize;

3. afaste-se de filmes românticos hollywoodianos. Ninguém vive feliz para sempre. Só vão te fazer mal. Aposte nos extremos: comédias hilárias para se distrair ou dramalhões absurdos, para chorar com outra justificativa que não seja o fim do namoro;

4. NADA DE BISBILHOTAR NO ORKUT FACEBOOK!

5. comece a namorar com você mesma. Se dê os presentes que você queria que ele soubesse que você queria, mas não tinha sensibilidade pra adivinhar que você queria (mulheres são complicadas mesmo, hein?). Vá ao salão, compre um vestido, passe batom carregado de gloss. Você não tem que ficar beijando ninguém mesmo. Mas nada de cortar o cabelo curtíssimo num impulso. Se ficar ruim, você vai se sentir pior;

6. se você é daquelas que realmente não consegue tirar a cabeça do término, apele: faça serviço voluntário numa creche, visite um parente falecido no cemitério, faça qualquer coisa que te mostre como um fim de namoro é, na verdade, algo pequeninho na dinâmica da vida e do mundo;
7. tente se convencer, todo dia, um pouquinho, que o fim de um namoro nada mais é do que a oportunidade de se começar outro. Se um amor foi embora, é porque há um outro ansioso para te conhecer. Olhos abertos. E se precisar, pode ficar lembrando de todos os defeitos dele. É um ótimo jeito de ver que não estamos perdendo grande coisa;

8. permita-se desabar, e, para isso, tenha sempre números emergenciais das amigas mais íntimas e disponíveis. Às vezes chorar num ombro tem mesmo efeito mais benéfico do que chorar só no próprio travesseiro. Permita-se sofrer. Quando você finge que está bem, acaba passando um ano muito mal;

9. exercite sua gratidão. Lembre-se que se apaixonar não é fácil e nem tão comum quanto pensamos. Quem amou de verdade, deve ficar muito feliz de não se descobrir incapaz de se entregar para alguém de corpo e alma. Isso é raro, é um presente;

10. espere. Se dê tempo. Ele age de forma surpreendente. Por isso, leve o tempo que precisar, contanto que não esteja se acomodando na depressão. É o clichê do século, mas é verdade: o tempo cura todas as feridas. E lembre-se sempre “tudo passa, até uva passa”.

Nota adicional do blog: Pessoal, como se vê por aqui, a dor do término é avassaladora para todos. Sabemos que vamos sobreviver, mas, ainda assim, esperar o tempo de curar é difícil. Mas queria registrar aqui uma observação. Um relacionamento de merda, que nos transforma em capachos, lixo emocional do(a) outro(a), é pior. Vamos buscar consolo no fato de que, no término, ainda temos, sim, dignidade. Isso faz muita diferença. Permanecer num relacionamento que nos priva de amor, consideração, fidelidade e lealdade é o que verdadeiramente acaba com nosso espírito. Ser o 'nada' pra alguém é muito pior do que o processo de nos descobrirmos 'tudo' novamente. Quem já comentou aqui, tendo superado ou não, pode perguntar pra qualquer um que esteja preso emocionalmente numa relação recebendo muito menos do que dá ou do que merece, eles preferiam ter a força de terminar. Certeza.

outubro 17, 2006

Amigas, amigas, namorados à parte

Relacionamentos amorosos só podem ter sido criados por alguém da Microsoft ou por um mecânico de automóveis. Não existe uma etapa em todo o processo de formação do namoro que seja verdadeiramente descomplicada e fácil. Primeiro, é necessário paquerar, ou seja, bater o olho e analisar se vale a pena. Isso sem contar que, muitas e muitas vezes, precisamos da atitude positiva deles para botar a paquera pra frente. Depois, conhecer aos poucos. Aí, gostar do que conheceu. Então, só depois disso, ficamos esperando para ver se ele está disposto a namorar. E mesmo que consigamos passar por tudo isso com certa tranqüilidade, chega aquele momento. Pior do que apresentar para os pais, pior do que apresentar para os irmãos, é – tchan, tchan, tchan, tchaaaaaan – apresentar. para. as. amigas.

Toda mulher sabe, ou deveria saber, que um grupo feminino de apoio é absolutamente essencial na vida. Elas são as únicas mulheres que vão ser totalmente sinceras com você e falar que você deveria trocar de vestido. Elas é que falam as melhores coisas a seu respeito para o resto do mundo; elas entendem quando brigamos com a mãe, quando temos TPM, quando falamos que estamos gordas. São elas que atendem o telefone quando você acabou de brigar com o dito cujo de madrugada e, principalmente, são elas que levam o pote de sorvete e o chocolate – ou, no meu caso, o vinho – quando você avisa que o namoro foi por água abaixo.

Nossas amigas são as irmãs que ganhamos da vida. E irmãs são parte da família. E toda família adora dizer o que é melhor pra você.

Até aí, tudo bem, porque julgar, todo mundo julga. O tempo todo, aliás, por mais que não admita. Julgamos roupas, gosto musical, senso de humor, caráter, tudo. Quando esse julgamento é favorável para o seu dito cujo, não há nada melhor. Sair com o namorado e as amigas e ver que todos conversaram e, principalmente, riram à beça, é como receber o carimbo de aprovação no boletim. Mas o que acontece quando o boletim vem abaixo da média? O que fazer quando uma amiga sua não vai com a cara dele?

Acho que poucas situações são tão chatas e trabalhosas quanto esta. Fica aquele clima ruim de uma amiga não querer mais sair com você quando ele vai e, se ele descobre, fica magoado e acaba falando mal dela, enfim, sua vida vira um dramalhão.

Se o motivo da discórdia tem a ver com o fato dele te tratar mal ou, sei lá, fazer muito joguinho e te deixar sempre desesperada, vale a pena ouvir a bronquinha “você merece alguém melhor”. Mas e se a discórdia é simplesmente de personalidade? A amiga gosta disso, ele odeia. Ele adora tal banda, ela despreza. Ela é Lula, ele é Alckmin. Ele faz piada suja, ela é conservadora. Ela tem opiniões fortes, ele também. Aí, minha filha, é sentar no meio-fio e chorar. Brincadeira. Claro que ninguém vai ser derrotista assim.

Bom, na minha humilíssima opinião, sempre vale a pena ouvir o que as amigas têm pra dizer. Querendo ou não, elas te conhecem e quem está de fora, muitas vezes, tem uma perspectiva um pouquinho mais realista. Assim, se a crítica for lógica, não muito emotiva e naquele tom de ajuda, de “queria-muito-gostar-dele-e-não-rola-mas-vamos-dar-um-jeito”, beleza. Ela estará respeitando o seu namoro e ainda vai te dar abertura para poder se organizar e encontrar com ela quando ele não estiver por perto.

Se a amiga parte para um ataque descontrolado e pessoal, aí, é foda, porque ela está te forçando a escolher entre duas pessoas importantes. E fazer alguém escolher entre um namoro e uma amizade é simplesmente cruel. Nesse caso, é bom conversar com ela e explicar que, por mais que ele não tenha uma personalidade do estilo dela, ainda é o seu namorado, que você ama e, principalmente, que te faz feliz. Sim, muitas vezes, a gente sabe de coisas boas dentro do namoro, que os outros nem sempre vêem de fora.

A chave é ser flexível. Se todos envolvidos na história forem também, melhor ainda. Agora, se todas as suas amigas odiarem o seu namorado – e, é claro, você não tiver um problema mental de estar com o Fernandinho Beira-Mar e não perceber – aí, querida, pode começar a organizar muito bem sua agenda, porque o jeito vai ser ele na segunda, elas na terça, ele na quarta, elas na quinta...


outubro 11, 2006

COMEÇO DE NAMORO

Nada barra um começo de namoro. Por todo esse processo, desde aquela paquera inicial, passando pelo encantamento da primeira convivência, até o primeiro mês de namoro, é que vale a pena quebrar a cara e até sofrer com os finais tristes dos relacionamentos.

Pra mim, sinceramente, poucas coisas na vida são tão boas e valem tanto a pena quanto aquela acelerada no coração, quando se bate o olho em alguém e, mesmo sem nem conhecer a pessoa direito, sente-se algo de diferente.

Aquelas olhadas prolongadas, aquelas esbarradas de mão, falar no ouvido em um lugar que nem é barulhento, falar do próprio gosto, se animar com as afinidades, tudo isso é gostoso de.mais.

E as mentiras??? Ai, que delícia! Todo mundo é a melhor versão de si mesmo. Ninguém é ciumento, todo mundo gosta das mesmas coisas, mesmo que não gostem. Todo mundo é tolerante, paciente, atencioso e educado. Os homens só usam cuecas limpas e adoram as sogras, as mulheres tem cabelo naturalmente liso e adoram as sogras, e todo o visual de cada encontro é casualmente sincronizado. É como se ninguém passasse horas se produzindo para ver o outro. E o melhor de tudo é que isso nem interessa, porque quando bate a paixão, a gente só vê beleza no outro, e o tesão é incontrolável. Cada beijo é interminavelmente bom, cada toque é mais poderoso do que o outro, qualquer pegada de mão, agarrada na cintura, enfim, qualquer toque de paixão é bom de.mais.

Quem não sentiu saudade de alguém depois de 5 minutos separados, quem nunca teve aquele descontrole de tesão e paixão até mesmo em lugares públicos (não tô dizendo que é necessário botar o tesão em prática em lugares públicos), quem nunca categorizou os beijos (beijo gelado, beijo de chocolate, beijo disso e daquilo), quem nunca ficou feliz por simplesmente dormir abraçado a primeira vez, não sabe o que está perdendo. Isso é o melhor da vida.

É uma pena que não há paixão que segure a força do convívio e do excesso de intimidade. É até possível fazer durar mais a paixão num namoro, porque esse convívio pode ser mais controlado. Quando se mora junto, normalmente, não tem jeito. Mas aí, o legal é olhar para a pessoa e lembrar que ela, querendo ou não, é a mesma pessoa que te encantou, que te deu bilhetinhos, que fingiu que gostava da mesma banda. É a mesma pessoa pra quem você disse que não era ciumenta, pra quem você queria estar sempre linda. Você vê que, mesmo depois das brigas, da falta de grana, do excesso de convívio, das dores de barriga, da sogra, dos choros, das intimidades forçadas e até do desencanto que rola depois de certo tempo, aquela ainda é a pessoa que te faz rir, que faz um jantar de surpresa, que sabe que você ama Sex and the city, que sabe que você ama escrever, e você sabe que aquela é a pessoa que ama cozinhar e é a pessoa que ainda está disposta a acordar todos os dias do seu lado, infinitamente, enquanto durar, mesmo não gostando de Beatles e mesmo sabendo que sou ciumenta, sim.

outubro 09, 2006

AS AMIGUINHAS DELE

Que diabos acontece com nós mulheres quando entramos numa relação? Parece que não importa o quão equilibradas, centradas, seguras e inteligentes sejamos, acabamos adquirindo hábitos intolerantes e um territorialismo excessivo. O pior é que, às vezes, com razão.

Por exemplo, talvez, muito talvez, se eu fosse solteira, poderia até participar da comunidade “sou gente boa, não estou te dando mole” no Orkut. MAS, como já vi várias amiguinhas do meu dito cujo, que são pra lá de gente boa, abraçando ele, deixando recadinhos ambíguos, monopolizando a atenção, etc, preferi entrar na comunidade “simpática é o caralho, você é uma vadia”.

E me pergunto: por quê? Se eu não tenho uma real certeza de que uma guriazinha qualquer, de fato, gostaria de ficar com meu dito cujo, por que tenho que odiá-la simplesmente por ser solteira e conhecida dele? Simples: porque ela pode tentar ficar com ele.

É triste, na verdade. É insegurança, na verdade. É possessividade, na verdade. Mas é o que acontece, na verdade. E não vou mudar, na verdade. Foda-se, na verdade, porque já vi mulheres que, por tanto confiarem nas amiguinhas solteiras do namorado, tomaram um par de chifres daqueles. E nessa hora, o que mais dói, é ver que não ser ciumenta, nem possessiva, nem intolerante, não valeu nem um pingo de gratidão por parte dele! E a segunda coisa que mais dói, é ver que as mulheres gostam mesmo é de homem comprometido. Acho que funciona como um selo do Inmetro, sabe? “Se ela está com ele, algo de bom ele deve ter”.

Não estou querendo defender uma guerra contras as amigas dele, pois isso é ridículo. E também não acho que uma mulher seja biscate por ser solteira e, muito menos, que por namorar, uma mulher seja fiel. Sei que não dá pra generalizar. Mas é uma sensação física, sabe? Não com todas as amigas. Não somente com as solteiras. Mas dá pra ver uma nuance diferente em certas mulheres. Uma nuance que faz meu sangue ferver e me dá vontade de gritar: “morde o meio-fio, mother-fucker!!”. É um “ooooii, como você tááááá, gatinho (ou qualquer outra variação de um apelido íntimo demaaais da conta)?”. Esse "oi" desmilingüido e dissimulado, que eu simplesmente não engulo.

Eu já fui solteira durante milhões de anos, e mesmo namorando, ainda tenho amigos homens, e eu tenho plena certeza de que é possível ser simpática e até carinhosa sem me esfregar em ninguém. E mais: acho essencial, quando na presença da namorada do cara, incluí-la completamente na conversa, mesmo que seja difícil, por não se conhecerem muito bem. É só isso que eu, como namorada, espero de amigas dele! E, afinal, o que é que custa olhar na minha cara e me falar um “oi” também?

Assim, fico no eterno conflito entre querer ser mais segura e paciente, e achar que tenho mesmo que defender meu território, porque tem muita vadia por aí e acabou. Sei que, mesmo morando juntos, não posso ter certeza do que ele faz durante 24 horas por dia, e nem quero! Na maior parte do tempo, deve-se confiar mesmo, fazer o quê? Mas, se um dia, uma dessas amiguinhas cair, de fato, pra cima dele, eu, pelo menos, vou poder dizer que não foi por falta de aviso...e que mordam o meio-fio, os dois!!

setembro 30, 2006

AS COISAS QUE APRENDEMOS

Há um bom tempo, uma das minhas grandes-recentes amigas – dessas pessoas que você conhece há relativamente pouco tempo, mas tem a impressão que conviveram juntas e se gostaram a vida inteira – me mostrou uma apresentação maravilhosa, que consistia na narração de um texto em inglês, combinada com uma música de fundo e imagens marcantes. Cada item da combinação foi impecável. Esses dias, não me lembro bem aonde, vi uma versão i-dên-ti-ca feita pelo Pedro Bial, que eu odiei. Mas o original, mostrado pela minha amiga, me tocou profundamente. Todo mundo já recebeu o tal texto por e-mail. É aquele, agora famoso, texto do protetor solar. O texto – pelo que consta da minha pesquisa – foi lido por um orador em uma formatura nos Estados Unidos, em 1997 e, no mesmo ano, a jornalista Mary Schmich, do Chicago Tribune, publicou em sua coluna a mesma lista de “ensinamentos” adquiridos na vida. Ensinamentos, acredito eu, dos mais verdadeiros e despretensiosos. O texto é tão delicioso que vale a pena colar na parede ou na geladeira para se ler, pelo menos, uma linhazinha todo dia.

Apesar de viver em crise com minha “velhice” de vinte e tantos, vamos admitir que não tenho tanta estrada assim. Mas parei para pensar, e para me dar um pouco de crédito pelas coisas que adquiri na vida, e tive uma vontade louca de botar no papel o pouco que tinha aprendido a custo de muitos erros e batidas de cabeça. Não tenho imóveis, nem dinheiro e nenhuma outra aquisição material real. Mas espero, sinceramente, que tudo pelo que passei me valha de algo. Então, sem pretensões, aqui vai a lista das coisas que aprendi:

1- Nenhum lugar chique e maravilhoso que possamos visitar sozinhos vai se comparar ao boteco da esquina com pessoas divertidas e amigas;

2- Por mais que tenhamos uma descrição do nosso tipo ideal, não podemos amar alguém, de verdade, só porque fizemos uma escolha fria e criteriosa;

3- E, por mais que nos apaixonemos pelo nosso tipo ideal, no final das contas, a pessoa ideal vai ser aquela de te dá tesão e te faz rir;

4- Saiba que, apesar de aos vinte e poucos anos poder beber e fumar sem grandes efeitos colaterais, não vai demorar muito até esses maus hábitos cobrarem seu preço;

5- Podemos aprender a não ser ingênuos, mas não é possível ter uma vida plena sem confiarmos e nos entregarmos às pessoas, pelo menos, de vez em quando;

6- Assumir riscos é necessário e bom, mas ser inconseqüente cansa, e irrita os outros;

7- Por mais que sejamos competentes e capazes de cuidar de tudo, é necessário “tocar o foda-se” de vez em quando, senão o desabamento emocional que nos espera é muito maior e mais perigoso. Por isso, lembre-se: não é possível controlar tudo;

8- As afinidades acabam à medida que as pessoas crescem e mudam, mas é importante preservar as antigas amizades, pois conhecer, confiar e criar intimidade com alguém novo vai ficando cada vez mais difícil quando ficamos mais velhos;

9- Vale a pena se dar um tempo para escolher uma faculdade. Há, assim, mais possibilidade de se escolher uma área que se gosta. E gostar do que se faz é absurdamente valioso;

10- Também vale a pena não demorar demais nas escolhas, pois a tentativa prática sempre vai ensinar muito mais do que a análise teórica, além do quê, as decisões “instintivas” podem ser mais acertadas do que decisões “coerentes e revisadas”;

11- Ler e estudar tornam as pessoas mais conscientes, mas não necessariamente melhores, mais leais, mais interessantes ou menos preconceituosas;

12- O ditado mais coerente e verdadeiro que eu já ouvi foi “melhor que dinheiro no bolso, é amigo na praça”, por isso seja bom e ajude os outros. Nunca se sabe quando você vai precisar de um favor em retribuição;

13- Ganhar dinheiro é bom e necessário, mas acumular riquezas infinitas é inútil. Não é possível usar tudo beneficamente, e ainda pode tornar seus herdeiros gananciosos e mimados;

14- Não é necessário ser trágico, mas saiba que todo mundo vai morrer, sem exceção. Tente se lembrar disso quando perder a noção de equilíbrio na vida, trabalhando demais, brigando demais com os pais, estudando demais, chorando demais, reclamando demais;

15- Por mais que façamos uma lista de nossos aprendizados, uma reação inesperada pode estar nos esperando a cada esquina!

*os links para o vídeo mencionado e para o texto, respectivamente:
http://www.youtube.com/watch?v=ol2fN0bZCso
http://www.generationterrorists.com/quotes/sunscreen.html (em inglês)
http://www.portalcab.com/videos/sunscreen.php (infos e tradução para português)

setembro 20, 2006

OS JOGOS QUE NÃO SABEMOS JOGAR

Toda mulher apaixonada já quis, uma vez ou outra, dominar a arte de fazer joguinhos mentais num relacionamento. Quem foi que nunca se esforçou ao máximo pra dar uma de “não estou nem aí para o que você fez comigo, apesar de ter sido uma sacanagem” e, na verdade, terminou a noite aos prantos esperando um pedido de desculpas e se perguntando “por que ele fez isso?”. Apesar de que quando chegamos à fase do choro o que sai é um “PORRR QUEEEEEEE, MEU DEUS? POR QUEEEEE ELE FAZ ISSO COMIIIIIIIGO? E POR QUE É QUE EU AGÜENTOOOOO?”.

Eu não consigo contar quantas vezes eu joguei limpo num relacionamento e depois me arrependi amargamente. Muito menos quantas vezes quis ser indiferente e acabei me expondo ainda mais. Mas enquanto isso acontece com a categoria das “eu preciso colocar tudo pra fora na hora em que sinto”, eu vejo outras mulheres que conseguem, numa boa, manipular sua própria raiva e desespero, para, conseqüentemente, manipularem sua cara metade. Já vi casais em que o cara nem tava fazendo nada de errado, mas a mulher conseguiu inserir uma sementinha de culpa na cabeça dele, só pra ter uma arma emocional no futuro. São mulheres que, quando contrariadas, conseguem esperar, friamente, para se vingarem de forma mais fria ainda.

Eu lembro de uma amiga me contar que o namorado dela desmarcou um programa com ela, em cima da hora, para sair com os amigos. Iam, inclusive, para uma boite. Eu, no exato segundo que ele me falasse isso, estaria gritando e chorando e perguntando “por quê?”. Mas ela, não. Aceitou “numa boa”. Soltou uma frase que só ela sabia que era cínica, do tipo, “claro, amor, é muito importante sairmos com os amigos”. E esperou até a semana seguinte, quando ele marcou um programa para os dois, e ela desmarcou em cima da hora porque ia – adivinha – sair só com a mulherada, pois “isso é importante num relacionamento”. Que inveja!

Outra amiga, certa vez, descobriu, através de suas espiãs – que, saibam, toda mulher tem espalhadas na cidade – que seu dito cujo estava numa farra louca, ao invés de dormindo em casa como havia afirmado. Ela fez o quê? Ligou para suas amigas, se arrumou com aquela roupa que grita “sou um sexo ambulante”, e foi para o mesmíssimo lugar onde o namorado estava. Chegando lá, o moleque sem fôlego, branco, quase tendo um acidente cárdio-vascular, ao ser pego no flagra, pergunta se ela está brava. Aliás, isso é bem típico de homem. Sabe que fez aquela merda, mas ainda sente necessidade de perguntar se você também considera aquilo uma merda. Minha resposta seria: “é claro, seu filho da piiiiiiiii, como você teve coragem de fazer isso comigo, seu mentiroso do ca-piiiiiiiii!”. A resposta dela: “imagina! Só estou me divertindo com as meninas!” e ignorou o cara para o resto da noite. Me pergunta quantas vezes o cara fez isso de novo?

Claro, pode ser apenas o medo de um derrame ou de um chifre vingativo, mas a verdade é que, quanto mais indiferentes conseguimos ser, parece que mais eles ficam intrigados e fiéis. Sei lá. Mas o lance é: até as mulheres que sabem jogar, sentem o desespero. Elas apenas conseguem segurá-lo para usar de outra forma mais tarde.

O problema é simples: só conseguimos ser frias, calculistas e indiferentes de verdade quando não gostamos tanto do cara. Nas vezes em que me apaixonei e me apeguei pra valer, não consegui fazer um joguinho sequer. Não sei se isso é bom ou ruim. Mas queria que os homens entendessem também que, às vezes, exageramos na reação, simplesmente porque nos importamos. E quanto menos nos importarmos, quanto menos reagirmos....bom, quanto menos amor existe.

julho 29, 2006

O COMPORTAMENTO SECRETO DOS SOLTEIROS

Um dos ajustes mais difíceis e inesperados que tive que fazer quando saí da casa da minha mãe e fui morar junto com meu namorido, foi me acostumar a não fazer certas coisas que, antes, pelo menos na privacidade do meu quarto, fazia com naturalidade.
Não estou falando apenas de reprimir necessidades fisiológicas, como, por exemplo, os gases, o que, diga-se de passagem, é uma das tarefas mais árduas, trágicas e infelizes de se realizar. Não deixar escapar um “pum” na frente do outro durante o dia já é difícil, imagine dormindo, à noite. Por isso passei quase o primeiro mês inteiro de casada sem dormir direito. Estou falando daqueles rituais bizarrinhos, que o resto do mundo não precisa saber que você tem, mas você os tem.

O grande lance é que quando apenas se namora, ou pelo menos, se namora há pouco tempo, é possível manter um certo mistério. Os namorados, por exemplo, podem ser mais facilmente poupados de verem aquela calcinha furada do piu-piu que você comprou nos anos 90 e, sabe-se lá porquê, até hoje não jogou fora. Eles não precisam saber que seu cabelo não é tão naturalmente liso, nem das posições humilhantes e da dor de uma depilação. Eles não precisam saber que você ouve música brega quando está limpando o quarto, que você arrota quando está só, nem que você, sei lá, rói unha do pé.

As namoradas, por sua vez, não precisam saber o que é uma cueca masculina suja (não queiram ver, por favor!), não ficam ouvindo arrotos à mesa, nem coçadas de saco muito explícitas. E além de toda essa “poupança” de intimidades, ainda é possível ir cada um para sua casa fazer tudo o que não se faz na frente do outro.
Assim, independentemente dos aspectos escatológicos, existem sempre manias, comportamentos diferentes, pautados de subjetividade e individualidade, que os solteiros cultivam e que nem sempre se sentem à vontade para levar para a vida de casal, por vergonha, ou até porque, sem o isolamento e a privacidade, a mania perde sua graça.
Eu, por exemplo, que agora tenho que dividir a televisão com meu dito cujo, não posso mais passar três horas seguidas assistindo programas de moda, gravados desde 1995, fumando cigarros. Para ele não tem sentido ficar vendo desfiles antigos. Pra mim, o sentido é todo e o prazer, então, é indescritível. E tem que ser fumando, senão, não é a mesma coisa.
Outra mania que eu tinha era de espalhar listinhas de afazeres pelo quarto. Não apenas afazeres práticos, como “pagar tal conta” ou “marcar dentista”, mas afazeres emocionais e futuros. Resoluções mesmo, do tipo “não ser emocionalmente dependente dos homens”, “não compensar o vazio da solidão com comida”, “encontrar uma paixão profissional e ficar rica”. Coisas essenciais, pra mim, mas ridículas aos olhos alheios. Também já deixei rabiscado um quadro de avisos (daqueles de cortiça), quase inteiro, porque, pra mim, falar ao telefone sem ficar desenhando estrelinhas, cubos e escrevendo meu nome, não vale a pena.

A tristeza que é dividir o banheiro com um parceiro ou marido deve ser citada também. Não era à toa que eu dizia que só me casaria quando fosse rica o suficiente para ter dois banheiros (HÁ-HÁ-HÁ). Apesar de ter que dividir o banheiro com meus irmãos durante toda a vida, a convivência fraternal é diferente. Primeiro porque, depois de tantos anos dividindo tudo, todo mundo acaba se acostumando com algumas manias e relevando as bizarrices do outro. Segundo porque a rotina de cada irmão consegue ser tão diferente que, às vezes, nem parece que moram na mesma casa.

Enfim, banho ritualístico era uma mania que eu adorava. Sentava na banheira, mesmo que fosse só com o chuveiro ligado, acendia um monte de velas e ficava ouvindo músicas absolutamente depressivas. Era de Radiohead pra baixo e era ótimo. Depressão no chuveiro, com a trilha sonora correta, é tão bom!

Mas agora, além de não ter banheira, se eu ficar uma hora no banheiro com a luz apagada, só ouvindo música triste, meu dito cujo vai achar que estou tendo um episódio depressivo de transtorno bipolar. Por isso eu tive que adaptar essa mania secreta (e que agora deixou de ser!). Agora me sento na privada (tampada mesmo) e boto apenas os pés embaixo do chuveiro quente e fico viajando, por alguns minutos apenas, é claro. Fico pensando em um monte de coisas. O tema para esse texto, por exemplo, saiu desse ritual. É bizarro? Sim, eu sei, mas é tão gostoso!

E eu sei que não sou a única que tem um comportamento secreto de solteira. Tenho uma amiga que confessou que adora fazer a escova dela, com a TV ligada no canal GNT e no “mudo”. Odeia quando o namorado chega nessa hora. Outra disse que, religiosamente, a primeira coisa que faz quando chega em casa é abrir o botão da calça. Ela não troca de roupa, ela não faz nada além de abrir o botão da calça e ficar andando pela casa. Outra, ainda, por causa da prisão de ventre se acostumou a fumar um cigarro pela manhã, tomando café preto (dois “relaxantes” intestinais), e lendo jornal, tudo isso, sentada na privada. Estava preocupadíssima na hora de morar junto com o namorado.

Dessa forma, eu cheguei à conclusão que ter alguém na vida é muito bom. Dormir abraçado, rir junto, dividir as coisas. Mas perder o comportamento secreto de solteiro é triste. Não quero dizer que, para morar com alguém, devemos necessariamente abdicar de todas as manias e hábitos naturais. Mas é que fazer certas coisas quando estamos sós é muito melhor. A privacidade é a garantia que temos de não sermos julgados por comer ovo mexido com geléia, cozinhar narrando como apresentadora de programa de culinária, falar sozinha em inglês, acariciar os próprios livros, fazer faxina de calcinha e sutiã ouvindo música brega, ler “Toda a Mafalda” comendo brigadeiro, usar os produtos de higiene no banho sempre na mesma ordem, ficar quarenta minutos espremendo cravos e espinhas, passar máscara verde no rosto, fazer maratona de Sex and the City, espirrar escandalosamente, marcar despertador no domingo só para ter o prazer de constatar que não é necessário acordar cedo, comer com a mão, tomar sorvete direto do pote, lamber o prato, juntar 1 bilhão de fotos de infância e rever uma a uma,...

julho 01, 2006

A COPA ME DESESPERA...

Todo ano de Copa do Mundo é mesma coisa... Eu juro a mim mesma que não vou me importar, que não vou ter expectativas, nem me desesperar.
Mas não tem jeito. Brasileiro é f****. Parece que a gente é contaminado de 4 em 4 anos pelo vírus do futebol.
Meus argumentos racionais são ótimos: o capitalismo acabou com o esporte, os resultados são comprados, os jogadores ganham milhões de euros, e eu não, então eu tenho coisas mais importantes com as quais me preocupar. Mas não tem jeito.
Toda vez eu me desespero, eu me importo, eu tenho expectativas. E começo a odiar outras nações. Abalou a seleção, eu odeio. Me dá vontade de chorar, de conversar com cada jogador e com o técnico e falar que eles fuderam minha vida (poupar o f**** e depois falar "fuderam" é f***!), que eles fizeram com que eu me importasse. Ai, que raiva. Não sei se tenho mais raiva dos perigos dos jogos ou de ficar tão abalada.
Toda vez eu penso "porquê?". Também não sei. Eles não estão nem aí pra mim, por que diabos vou me importar com a performance deles? Mas me importo. Odeio isso. De novo, não consigo ser blasé.
E agora eu espero. Durante o jogo contra a França - um país que eu costumava gostar - eu fico esperando a seleção mostrar que brasileiro não tem que "abrir as pernas" o tempo todo. O problema é que a gente sempre abre. Através do governo, através da seleção, através de nós mesmos a cada vacilo.
Que raiva de sentir tanta raiva por algo que eu não queria que me afetasse, mas me afeta. Odeio a Copa.

junho 27, 2006

TUDO O QUE EU QUERIA SER

É uma pena que nem todo mundo possa ser obsessivo o suficiente para se tornar a pessoa que gostaria de ser. Na verdade, tenho minhas dúvidas se mesmo aqueles abençoados por absurda determinação conseguem, de fato, alterar aspectos da própria personalidade.
Sempre achei que eu tivesse algum problema por sempre sonhar com uma personalidade escolhida a dedo por mim mesma, mas acabei descobrindo que são muitas as pessoas – principalmente mulheres – que gostariam de alterar aspectos emocionais em si próprias. Além do cabelo, do corpo, da pele e do nariz, muitas mulheres gostariam de ser, por exemplo, mais disciplinadas, mais organizadas, menos estabanadas.
Eu, pelo menos, sempre quis ser mais blasé do que sou. Aliás, de blasé não tenho nada. Simplesmente não consigo dar de ombros em situações que, de alguma forma, me afetam. E quase todas as situações me afetam. Também nunca consegui ter a coordenação motora que gostaria. Derrubar copos, topar o dedo mindinho do pé na quina da cama, tropeçar na rua são aspectos inatos da minha personalidade. Parece mesmo que nasci com eles impressos no meu código genético.
Também nunca consegui ser “magra de ruim”. Mas aí também fica difícil competir com o mesmíssimo pedido de 1 bilhão de mulheres ao redor do mundo. Mas se pelo menos eu não gostasse tanto de comer tudo, se eu não gostasse tanto de tomar uma cervejinha, de cair de boca num pote de brigadeiro, de ir à churrascaria....ai, ai. Seria legal não fazer questão de comer.
Se eu realmente pudesse escolher, desejaria, principalmente na adolescência, que eu me concentrasse mais. Adoraria prestar atenção numa aula de Química e nunca mais esquecer. Até hoje, depois de uma luta que parecia infindável com a Matemática, a única coisa que eu me lembro são as quatro operações (com exceção de divisão de números “quebrados”) e regra de três simples. Não faço mais idéia do que seja o delta numa equação de segundo grau. Isso é falta de concentração e de memória.
E, relatando tudo isso, me veio à mente, de repente, uma revolta. Uma revolta magoada por ter falado tão mal de mim mesma e ter querido tanto características que não sou obrigada a ter para ser feliz. Querer melhorar é uma coisa, mas por que é que a gente insiste em reclamar do que temos e invejar o que não temos?
Não posso ser feliz me importando com todo mundo, discutindo ardentemente, chorando pelas desgraças alheias? Se não sou blasé, não sou. Fazer o quê?
Será mesmo que deveria me sentir inferior ou sequer envergonhada de derrubar copos? Eu pago a porra do copo, oras pipocas!! E a topada do mindinho, bom, não é legal, mas o mindinho é meu e para aliviar posso soltar um bruto palavrão com o aval do resto do mundo. Afinal, topada do mindinho é sacanagem.
Será também que eu teria coragem de abdicar do prazer I-NE-NAR-RÁ-VEL de comer??? Abrir mão de sentir uma sensação quase orgástica comendo um pedaço de lombo de porco, sashimi, macarronada, arroz de carreteiro e fondue de chocolate? Que tipo de pessoa eu seria se olhasse para um prato cheio de cores e aromas e sabores e falasse “ecati!”? Acho que não conseguiria mais me olhar no espelho.
Da mesma forma que não agüentaria lembrar de todas as fórmulas de resolução de uma equação do segundo grau, e esquecer da minha infância, da qual, ainda bem, lembro-me perfeitamente. Detalhes, vergonhas, felicidades. ELES é que ocupam minha mente, me fazendo não conseguir concentrar tanto em outras coisas menos importantes, como, por exemplo, Direito Constitucional. E ainda assim, eu já reparei que, quando gosto de algo, como Inglês, Francês e moda, consigo me concentrar que é uma maravilha. Não posso fazer nada se meu cérebro é tão independente que possui um sistema de concentração seletivo.
Então, é isso. Vou para de reclamar dos meus defeitos. Eles podem ser defeitos por um ângulo e encantos ou charminhos por outro. Vou parar de ficar desejando alterar minha personalidade. Por isso, agora, quero me tornar uma pessoa mais aceitadora de si mesma, menos intolerante, mais zen, na verdade, alguém que sabe o valor que tem, naturalmente, uma pessoa centrada em si....

abril 30, 2006

CARMAS AMOROSOS


Em um dos meus tranqüilos e pacatos dias, uma idéia caiu como um raio na minha cabeça. Pensando em meus relacionamentos passados, nas vezes em que fui chutada, nas vezes em que chutei, nas vezes em que sofri e nas vezes em que fiz sofrer, me veio a repentina noção de que cada relacionamento poderia ter servido a um propósito, ou ainda melhor, a um carma específico.
Levando em conta que a frase de efeito da minha mãe que eu nunca esqueço é “aqui se faz, aqui se paga”, posso dizer que a maioria das mulheres que eu conheço já teve a oportunidade de humilhar e rejeitar um cara que, anos ou mesmo meses antes, havia feito exatamente o mesmo com elas. Depois de todo o sofrimento, depois de toda a espera, quando ele lhe quis, você já não queria mais e, assim, pôde juntar uma certa frieza, uma certa ironia e uma certa amargura que só uma mulher rejeitada consegue acumular, e jogar, com toda a classe, é claro, na cara daquele que percebeu, tarde demais, o tanto que você é maravilhosa.
Este é um exemplo perfeito do carma amoroso masculino. Ele foi frio, ausente e indisponível com você. Ele fez joguinhos, te manipulou, te seduziu e te largou. Aí, mais tarde, ele teve que experimentar do próprio veneno, da própria tática e assumir as conseqüências das suas ações anteriores. ISSO, MINHA FILHA, É QUE É CARMA. E quando o carma é pro lado deles, é uma maravilha! Você pode até ter chorado infinitas lágrimas por ele. Você pode até se lembrar de outros homens que dispensou porque só pensava nele. Mas na hora em que uma mulher resolve pisar, ela pisa de verdade. E a sensação de poder, de liberdade e de poder, de novo, porque poder é muito bom, é I-NE-NAR-RÁ-VEL! Praticamente qualquer mulher que consiga uma saída por cima dessas, se sente com a beleza de uma Angelina (pré-gravidez) combinada com a força neurótica e descontrolada de uma Margareth Thatcher.
Mas os homens não são os únicos que carregam carmas amorosos. Aliás, a maioria dos galinhas mais incorrigíveis culpa uma adolescente gostosinha por tê-los largado na rua da amargura, fazendo com que os mesmos nunca mais queiram se arriscar num relacionamento de novo. É. Algumas mulheres sofrem, porque já estão cumprindo seu carma.
Pode até fazer uma retrospectiva mental de todos os contatos com o sexo oposto ao longo de sua vida. Aí, me diz: qual foi a mulher que nunca rejeitou um nerd por vergonha de ser excluída; um pirralho por medo de se sentir velha; um feio por medo de gostar dele de verdade e um vaidoso porque ele se vestia melhor que você e, nesse caso, você provavelmente estava certa de fazê-lo, pois ele, hoje, deve ter descoberto que é gay? Pode-se afirmar, quase sem medo, que toda mulher já rejeitou um homem injustificadamente.
Mas, e aí? Se nossos relacionamentos são apenas a cobrança ou o pagamento de um relacionamento anterior, será possível escapar desse círculo vicioso? Ou será que estamos realmente condenados a pular, como hamsters, de uma rodinha para outra, tentando sempre definir quem errou mais, quem sofreu mais, quem é credor de quem e quem é devedor de quem?
Eu prefiro acreditar que não. Aí está: meu lado mais otimista! Acredito que, quando estimulamos nosso bom senso, nossa auto-análise, e, principalmente, quando estamos dispostos assumir nossos erros e quaisquer outras conseqüências de nossas ações, conseguimos quebrar esse padrão cármico e, simplesmente, nos relacionar. Não estou dizendo que não há bagagem emocional pra se carregar de um namoro pra outro. Otimista, sim, alienada, não. Mas a disposição para assumir nossas neuroses, inseguranças e traumas do passado, é o que pode nos salvar das neuroses, inseguranças e traumas do futuro.

abril 06, 2006

QUEM ANDA ERRANDO NOS RELACIONAMENTOS: NÓS OU ELES?

Mesmo com todo o drama provocado pelos dois lados, mesmo com as brigas e desentendimentos por parte dos dois lados, os desencontros, as dúvidas e mesmo com tooooodas aquelas diferenças, não tem jeito: homens e mulheres ainda se apaixonam e ainda tentam se relacionar.

Ah, o amor é realmente lindo. Quer dizer, a paixão inicial de cada relacionamento é que é realmente linda. Tudo que se fala é poesia, tudo o que se ouve é elogio, as diferenças são motivadoras, não há problemas, não há rancor, só paixonite, só “love”. Aaaaaah, que delícia!

Aí, em meio a essa cegueira da paixão, em meio a essa mistura de emoções e tesão que nos faz sentir tão vivos, o que fazemos? Nós levamos o relacionamento a “um outro nível”. É o nível do compromisso, do respeito, da admiração, da convivência, é o nível do “amor verdadeiro”. Agora, pára tudo, pára tudo e tenta visualizar esse ponto. Esse ponto quando as coisas vão ficando “mais sérias”. Conseguiu visualizar? Pois é aí, é bem aí, meu amigo e minha amiga, é bem aí que lascamos tudo!

Tanto o homem quanto a mulher começam, nesse ponto, a mostrar suas características cuuuulturais, “zenéticas”, fi-si-o-lógicas e fi-lo-sóficas mais profundas. E assim, as reclamações começam. É falta de compromisso de um lado e excesso de apego do outro. É futebol com os amigos de um lado e TPM do outro. É “eu não gosto da sua mãe” de um lado e “acho que papai não foi com sua cara” do outro. E assim vamos levando nossos relacionamentos à beira da neurose e da psicose por conta de um motivo aparentemente muito simples: homens e mulheres não conseguem se entender. E eu pergunto: quem é que está errado nessa história?

Se adentrarmos em alguma das várias espécies de universo feminino, seja um grupo de patricinhas lago sulistas ou um grupo de góticas radicais da UnB, vamos encontrar uma resposta a esse impasse rapidinho: A CULPA É DELES. “Eles não querem levar o namoro a sério”, “eles nos deixam inseguras”, “eles não sabem nos valorizar”, “eles nos largam para sair com amigos”, “eles isso”, “eles aquilo”, sem contar com a tortura constante da ameaça do possível chifre a cada esquina.

Por outro lado, se adentrarmos em alguma das raras variedades de universo masculino – sim, raras variedades, porque os estilos podem até mudar, mas a essência “sexo + futebol + cerveja = vida” permanece a mesma em todos os grupos – veremos que eles também têm uma resposta na ponta da língua: A CULPA É DELAS. “Elas querem levar o namoro muito a sério”, “elas ficam inseguras e descontam na gente”, “elas não valorizam as coisas que fazemos por elas”, “elas nos enlouquecem com a TPM todo mês”, “elas nos impedem de ter contato com amigos”, “elas isso”, “elas aquilo”, “sem contar que elas acham constantemente que vamos chifrá-las e isso dá mais vontade ainda de ficar com outras”.

E o que mais me impressiona nessa história toda é que ambos os lados agem de forma radical e se recusam ou não conseguem se colocar na posição do outro. E, assim, acaba não havendo um critério lógico que nos permita afirmar se o erro é de um ou do outro. Afinal, se ao passo que os homens, em sua maioria, não se apegam emocionalmente tanto quanto as mulheres - e, sim, isso é uma generalização necessária, porque senão vou ter que largar tudo e fazer uma dissertação de mestrado sobre “os homens sensíveis ainda existem” -, quem foi que disse que nós estamos certas em ter tantas expectativas, em desejar tanto um parceiro, em nos envolver tanto?

Da mesma forma que eles não podem afirmar que o ciúme feminino é pura insegurança, se eles não conseguem admitir que a “amiguinha de infância” deles agora tem peito, bunda, perdeu a virgindade e é capaz de te meter um par de chifres só para provar que ela é mais poderosa que você.

Portanto, da minha parte, infelizmente, não será apresentada uma resposta à pergunta do título. Afinal, se eu soubesse de verdade quem está errando, eu já teria ganhado muito dinheiro, pois, como eu disse, apesar de todo o drama e de tooooodas as diferenças, não tem jeito: homens e mulheres ainda se apaixonam e ainda tentam se relacionar.

fevereiro 09, 2006

A VELHICE E O ÁLCOOL


Esse texto vai parecer uma apologia ao alcoolismo, mas é que, a bem da verdade, as maiores características, ou pelo menos as mais visíveis, relativas ao cansaço do corpo – e não estou falando de um cansaço de alguém que tem 50, 60, nem 70 anos, e sim de um cansaço crescente que começa por volta dos vinte e tantos – são facilmente identificáveis através da reação corporal ao álcool.

Nunca vou esquecer quando comecei a beber “de verdade”: aos dezoito anos (idade considerada até mesmo tardia para se começar a beber). Não gostar de cerveja + não ter dinheiro para esbanjar = tequila. Bastava-me beber duas, no máximo, três doses para ficar “bem” a noite inteira. Chegava em casa às 5:00 e estava às 8:00 na faculdade. Mau-humorada e com sono, mas estava lá. Só sono. Pois aos dezoito, mesmo bebendo tequila, eu não sabia o que era ressaca.

Era capaz de ir a um churrasco na manhã seguinte a uma noite de farra. E ainda continuar bebendo. Além da tequila, valia vinho tinto ou branco, mas doce (arght) e pela bagatela de R$4,00 (!). Vodka, também barata, misturada com suco ou coca-cola, também tava valendo. Tudo para sentir o “barato” e sem nunca ter ressaca no dia seguinte.

Aos 21 anos de idade conheci a cerveja e, claramente forçando a barra – pois naquela época é que eu não tinha dinheiro para gastar meeeesmo – me acostumei com a bichinha até começar a gostar muito dela. É geladinha, acessível, simpática. Ainda acho que a mais simpática das bebidas alcoólicas é a cerveja. As outras, por algum motivo, parecem mais pedantes. Enfim, todo mundo bebia a tal da cerva e eu aprendi a beber também.

Um detalhe: se cerveja, sozinha, não me “satisfizesse”, passava para as outras opções!! Lembro de uma vez que fui à Pirinópolis com amigas e, numa única noite, bebemos vinho, cerveja, caipiróska, pinga com mel e....acho que era só. De novo, ressaca? Claro que não! Bastou beber uma certa quantidade de água que ficou tudo certo. Sem problemas.

Foi assim até os 24 anos, quando, numa festa, me ofereceram tequila e eu, que já não a bebia há um bom tempo, por ter me acostumado à cerveja, aceitei. Na época em que eu bebia a famosa mexicana, contentava-me com duas a três, estourando, quatro doses numa noite. Nessa fatídica noite, eu bebi sete, sim, sete doses de tequila dourada. 24 anos + excesso de tequila = desmaio num puff do bar/boite.

O dia seguinte, não foi tão tranqüilo como costumava ser. A certa quantidade de água passou a se chamar “um-litro-e-meio-de-H2O-para-sobreviver”. E a ressaquinha bateu, sim. Uma dorzinha de cabeça aqui, um enjôozinho ali, e nesse ritmo cheguei aos 25.
Vinte e cinco anos....hum....veja só: 25 anos de idade + continuar a beber muito = ressaca aumentada exponencialmente 25 vezes (tá, nem sei o que é aumentar exponencialmente e tenho quase certeza de que aquilo que aumenta exponencialmente não pode aumentar também 25 vezes, mas é só para efeito literário, falou?).

E de repente, não mais que de repente, me chegam os 26. E foi aí, foi aí que eu percebi que não conseguia mais beber o que eu bebia, sem sofrer gravíssimos efeitos colaterais. 26 anos + vodka com suco de manga = vomitar da tocha da liberdade, lá na esplanada; “cair” de dentro do carro para o asfalto, de quatro, para vomitar mais; entrar no chuveiro completamente vestida e pedindo pra morrer; acordar pedindo, de novo, para Deus te levar embora; implorar para sua colega te cobrir no trabalho porque você está com “intoxicação alimentar”; passar o dia tremendo como se sofresse de mal de Parkinson; não conseguir andar direito; sentir muito enjôo; ter necessidade de dois analgésicos para se livrar da dor de cabeça; e, por fim, sentir muito, mas muuuuito, arrependimento por ter exagerado e muita, mas muuuuita, tristeza por perceber que, sim, a idade chega também aos 26 e não só aos 62.

fevereiro 01, 2006

REVELAÇÕES E PADRÕES


Não adianta. O processo de autoconhecimento é constante e interminável (a não ser no caso do término da vida, mas, ainda assim, ninguém saberia me informar com precisão). As chamadas revelações, epifanias, além de toda e qualquer visão esclarecedora a respeito de si próprio, podem vir tanto na forma de um “pedala robinho” quanto na forma de um taco de beisebol no estômago.

E apesar das variações com relação à dor e à intensidade de cada revelação ou constatação, os sentimentos primordiais são quase que comuns a todos: choque, susto, surpresa e, muitas vezes, indignação. Sim, indignação. Pois quando passamos tantos anos acostumados a nos enxergarmos como sendo “assim” e, de repente, descobrimos um “assado”, que conseguiu se esconder tão bem e por tanto tempo, ficamos indignados. Tão indignados, de fato, que saltamos rapidinho da fase da revelação para a da negação.

Esse processo é mais visível em casos mais graves, normalmente relacionados ao vício. Quando não é conosco, conseguimos enxergar direitinho a passagem do “ah, eu não bebo tanto assim”, para o “ah, tá, eu bebo muito mesmo, mas é que eu agüento mais que todo mundo”, até o “não vou para clínica porra nenhuma, eu não tenho um problema, eu tô tremendo, eu sei, mas basta uma dose pra isso passar!”. Chocante, né?

Só que os “defeitos” ou, simplesmente, as características consideradas “menores” ou menos impactantes que um alcoolismo, uma anorexia, uma pedofilia ou uma psicopatia, acabam ficando em segundo plano, nos impossibilitando até de, por vezes, enxergar esse aspecto da nossa personalidade. Pensamos que “se eu não bebo demais, nem como demais, nem durmo demais, trabalho, estudo, meus pais gostam de mim, então, pronto, tá tudo certo”.

Bom, errado não está. E se você realmente consegue ser tão equilibrado assim, por favor, depois me mande a receita. Mas a verdade é que até as pessoas mais equilibradas têm algum hábito ou aspecto de personalidade que as atrapalham. Quem nunca conheceu alguém que não sabia ouvir “não”? Ou quem nunca conheceu alguém que não pára de fazer compras, nunca? Ou alguém que grita por qualquer coisa? Alguém que não pode falhar nunca? Alguém que sempre tenta agradar os pais? Alguém que odeia mortalmente o próprio trabalho e não faz nada pra mudar? Alguém que se submete a todos seus namorados?

Acho que todo mundo conhece alguém com algum “defeitinho”. O lance é que, quando o defeito dos outros não vai de encontro com nossos defeitos, há possibilidade de empatia, há possibilidade de convivência. Todavia, entretanto, contudo, quando o defeito do outro provoca colisão frontal e demoníaca, com nossos um de nossos defeitos, aí, “mermão”, já era. É aquela velha história do “não fui com a cara desse(a) sujeito(a)? Não sei porquê, mas não fui!”.

Ahá! Aposto que todo mundo já sentiu essa espécie de alarme instintivo com relação a outras pessoas. Todo mundo já até admitiu, pelo menos uma vez, que a pessoa em questão realmente não fez nada para você, mas não existe maneira de você ter uma convivência com ela. São as frases mais divertidas – e sinceras, se pararmos pra pensar! – que podemos ouvir: “não é que ela seja uma má pessoa, só não gosto muito dela, sei lá, acho que é a voz”, “não, ele até que é de boa, mas não quero que ele sente aqui, cara, não quero, não quero mesmo, tá ligado?”. Sacaram?
É por isso que autoconhecimento é importante não só para você lidar com você mesmo, com sua própria vida, com suas próprias questões, mas, também, para você lidar melhor com as outras pessoas. Autoconhecimento melhora, sim, namoro, amizade, relações hierárquicas ou até convivências casuais, ou como prefiro chamar, amizades de boteco.

O fato de você saber e admitir que tem defeitos, melhora a sua capacidade de tolerar, ou de pelo menos respeitar, o defeito dos outros. Saber as próprias falhas traz confiança e poder.

É claro que para isso é preciso passar, antes, pelo processo da DESCOBERTA.

É assim: suponhamos que depois de fazer uma terapia ou de passar meses se auto-analisando, você está num ônibus ou em casa olhando para o teto (nessa hora tente se imaginar num barquinho, sentido aquela balançadinha gostosa, que sentimos quando estamos realmente só pensando, “viajando”) e aquela vaga noção vem chegando........., vem tomando forma....... e você continua........., vai se analisando......., pensando em várias circunstâncias diferentes pelas quais você já passou na vida......., e vai vendo que a sua reação na maioria dessas circunstâncias foi a mesma. Opa! Como assim? Minhas reações foram quase iguais em diferentes circunstâncias? Mas, calma. Continua com a análise.........será que minhas reações se repetiram tanto assim?.........dá pra enxergar um padrão aí?.........iiiihhhh, tô achando que sim.......E aí, aquela vaga noção começa a tomar uma forma concretíssima. Senhoras e senhores, é com muita honra e prazer, que lhes apresento o único, o fenomenal, o glorioso: PA-DRÃO COM-POR-TA-MEN-TAAAAAAAL!!! E como toda grande atração merece um coadjuvante, apresento-lhes o: “PUTZ GRILA, EU SOU ASSIM?!!?!?”.

Chocante de novo, né? A vida é um barato mesmo! Deus é um sádico, tenho certeza!

Você pode passar anos, eu digo aaaaaaaaanos, sem saber que é de um certo jeito, e de repente, eu digo deeeeeeeee repente, você descobre que é obsessivo, inseguro, tímido, egoísta, bobo, ou então descobre que terminou seus namoros porque é orgulhoso demais, que pediu demissão porque é impulsivo demais, que não entendeu o filme porque é burro demais (tá, essa é foda de admitir!).

A primeira sensação é horrível, pensa-se no que perdeu por ter uma característica da qual nunca se deu conta. Mas se continuarmos pensando a respeito, e nos dando apoio, vemos que melhor saber tarde do que saber nunca, né? E, pelo menos, temos a chance de tentarmos mudar nossos padrões comportamentais negativos. Podemos melhorar, podemos crescer.

Sim, é claro que isso requer uma trabalheira sem tamanho, além de olhos de lince para se atentar aos nossos padrões, aos nossos defeitos. Requer também muita inteligência emocional, pois não é nada fácil constatar algo de concreto em meio à complexidade descontrolada que é a mente humana. Não há nada de óbvio em nossas cabeças. Mas, tudo bem, o óbvio nem sempre é o melhor, é apenas mais fácil.

janeiro 12, 2006

QUANDO NÓS DECEPCIONAMOS NÓS MESMOS


Decepcionar os pais: normal. Decepcionar os amigos: acontece. Decepcionar o chefe: sempre pode acontecer. Mas a decepção que dói mais é quando nós ferimos princípios próprios, principalmente os princípios antigos. Quando fazemos algo que dissemos que nunca faríamos. Algo que tínhamos “certeza” que nunca faríamos. Isso é o pior. É triste. É um desapontamento sem cura nem conforto.

Já me decepcionei comigo mesma. Várias vezes. E não sabia o que fazer quando minha cabeça entrava num conflito louco por sentir que queria fazer algo, e saber que não deveria fazê-lo. E vice e versa.

Já falei sobre essa diferença essencial na vida: saber e sentir. Saber, conscientemente, racionalmente que não se deve ou que se deve fazer algo, é muito, infinitamente, diferente de sentir vontade, ou medo ou desejo, de fazer algo.
Eu não sei como outros se sentem com relação a isso, mas, para mim, a pior crítica, a pior ofensa, o pior ataque, vêm de nós mesmos. Sempre fui minha maior inimiga e minha maior crítica. Sempre fui meu maior boicote, minha maior sabotadora.

É duro. Muito difícil se aceitar, reestruturar-se. Aquilo que se conhece como base, como fundamento de quase todo o seu pensamento, de sua personalidade, pode vir à ruína em um segundo ou menos.

Não estou falando que é bom ser inflexível, de forma alguma. Acho fantástica a capacidade de mudar de opinião sem achar que se está necessariamente dando o braço a torcer ou perdendo uma competição. Mas existem idéias e opiniões às quais se apega tanto e há tanto tempo, que dá vontade de fazer um funeral quando um dia – ups! - sente-se inclinado a ir contra tudo aquilo que se prezava.

Então, é assim. Até me acostumar à nova opinião, tenho que viver um certo luto de idéias.

janeiro 10, 2006

O AMOR NÃO EXISTE


Se ninguém até hoje consegue descrever apropriadamente, se até hoje ninguém sabe dizer o que é, nem quem sentiu ou deixou de sentir, é porque o amor provavelmente não existe.
Não, este não é um texto depressivo. Daqueles de dor de cotovelo, nem nada. Na verdade é um texto otimista e muito enaltecedor do sentimento alheio.

Se você me perguntar se eu já amei, vou dizer que sim. Sim, porque eu já senti alguma coisa qualquer, e sim porque fica muito feio afirmar que nunca se amou. É a era da impessoalidade, da frieza, das relações casuais, mas se você perguntar, todo mundo já amou, e, pior, todo mundo já sofreu por amor. E por mais que se negue até a morte, é o que se procura o tempo todo, todo o tempo.

Talvez, essa procura seja pelos motivos mais banais: auto-afirmação, curiosidade, ego. Mas a verdade é que muita gente está tão dormente, tão inapta para sentir qualquer coisa, que, por isso, sai à caça daquele descrito como o maior dos sentimentos: o amor.

Do divino ao mundano, da admiração ao sexo, do ideal à prática, é possível encontrar amor em tudo. Mas, afinal, a pergunta permanece: se ninguém sabe o que é amor, ele continua a existir?

E é aí que entra a minha teoria. O amor não existe mesmo. Aliás, a palavra, amor, é uma grande charlatanice gramatical, muito da preguiçosa. É o símbolo na generalização sintática.

Ninguém sabe o que é amor, porque o amor não existe. O que existe sou eu e aquilo que só eu consigo sentir só por você. E aquilo que só você consegue sentir apenas por mim, já é outra coisa. Só eu vou sentir o que eu sentir por quem eu sentir. E “amor” é uma palavra muito pequena para acobertar este mundo de sentimentos sentidos, só por mim, por aqueles por quem eu sinto. Deu nó? É assim mesmo. Até nisso a palavra amor é falha. Ela muito simples para expressar toda a complexidade do sentir.

Por isso que se diz “eu te amo” e depois muda-se de idéia. É claro que aquele sentimento, durante o tempo que existiu, pode ter sido tudo na vida da pessoa. E o fato de acabar não quer dizer que não tenha sido algo digno de ser chamado de amor. E a gente diz “eu te amo” porque fica difícil dizer “eu-te-alguma-coisa-muito-louca-inexplicável-incontida-de-admiração-paixão-atração-desespero-dor-desejo-carinho-por-você”. Apesar de que isso seria bem legal, né?

Mas o lance, o grande lance é enxergar a beleza desses sentimentos todos ao invés de enxergar apenas a restrita “clichêsice” que acabou circundando a palavra amor.

E se você parar, de verdade, para pensar que cada ser no mundo é capaz de sentir algo que só ele/ela sente, você vai ver que amor não existe. Mas o que existe é muito maior,melhor, poderoso, único, especial, acolhedor, complexo, belo, impactante, marcante, dolorido, doce, espetacular, estranho, desconhecido... melhor, poderoso, único, especial, acolhedor, complexo, belo, impactante, marcante, dolorido, doce, espetacular, estranho, desconhecido...

janeiro 08, 2006

amizades imaginárias


Sinto falta das amizades. De certas amizades. Amizades que nem sei mais se existiram realmente. Não sei mais se essa lembrança é verdadeira ou se não passa de uma perspectiva subjetiva completamente deturpada. Vai ver que sequer conheci grande parte de meus melhores amigos. Sinto saudades de algo que não sei se existiu. Bizarro, né?

Sinto falta da intimidade, conexão e pessoalidade extrema que sentia com certas pessoas. E na época tinha certeza da reciprocidade. Mas agora não. Agora não sei mais se essas certas pessoas sentiam a mesma intimidade, conexão e pessoalidade extrema por mim. Não sei mais se certas pessoas realmente descobriam o que eu estava sentindo através de um único olhar. Não sei se estas pessoas lembravam de mim em horas randômicas do dia, como eu lembrava delas e era capaz de gargalhar, na rua, sozinha, lembrando de um evento cômico passado.

Não sei mais se meus melhores amigos não passaram de amigos imaginários. Não sei quem deixou quem primeiro. Quem esfriou, quem sumiu, quem parou de adivinhar os sentimentos, quem parou de visitar, de chorar junto, de ligar, de falar. Também não sei em que momento minhas lembranças passaram a ser distantes da realidade e se tornaram apenas minha perspectiva das coisas.

Sei lá, talvez EU tenha sido a amiga imaginária deles...