novembro 18, 2005

ESPERANÇA: FALTA DE REALISMO OU PURA INGENUIDADE?

Num mundo onde é melhor ser drogado, alcoólatra, prostituído e anoréxico do que aparentar carência e fraqueza – no sentido mais amplo e deturpado da palavra –, a esperança terminou por ser considerada uma das características mais inúteis.

Já vimos de tudo: ditaduras, mortes, lutas vãs, mentiras, mudanças de costumes, depredação de princípios e do meio-ambiente, queda de instituições e sabe-se lá o que mais. Talvez por isso mesmo, ter esperança em mudanças ou melhoras passou a ser visto como pura ingenuidade. Um sinal típico de fraqueza. “Para quê ajudar esta pessoa, se são tantas as outras com a mesma necessidade?” , “você acha mesmo que você vai fazer alguma diferença?”.

Acredito que realmente exista algo de ingênuo na esperança exacerbada. Talvez um grande sinal de maturidade e inteligência seja saber reconhecer a hora de “puxar o carro”, “dar o vazari”, “abandonar o ringue” e “zunir a bola”. Mas talvez, apenas talvez, tenhamos levado este conceito longe demais. Se você parar para analisar, você já viu namoros que deixaram de começar por conta de problemas óbvios e de ordem prática. “Ah, ele mora longe!”, “ah, ela tem uma religião e eu não!”, “ah, ele é muito mais novo”. Tudo bem. Temos que admitir que praticidade salva muito do nosso tempo. Mas o que quero saber é que salvamos esse tempo para gastá-lo mais tarde com o quê?

Será que essa falta de esperança e excesso de praticidade não está fazendo com que nos tornemos...covardes? É. Covardes mesmo. “Não vou namorar porque vai acabar mesmo”, “não vou estudar isso porque não vai dar dinheiro no futuro mesmo”, “não vou concorrer porque fulana vai ganhar mesmo”, “não vou tentar parar de fumar, porque não vou conseguir mesmo”. Todo mundo já falou algo do gênero. Putz! Quando foi que abandonamos tão definitivamente o “ah, vamos tentar, às vezes pode dar certo”? Quando foi que decidimos virar senhores do tempo e passamos a adivinhar os resultados ao invés de apostarmos neles??

E afinal, será que resultados negativos são tão inúteis assim? Dolorosos, sim, são. Mas, e aí? Desde quando essa dor que o ser humano sente desde que começou a sentir qualquer coisa, passou a ser pesada demais para nós? Por que ficamos tão frágeis, fracotes?

Por isso, começo a achar que a esperança não é para os fracos e inocentes, como prega a cultura atual do blasé e do cool, mas, sim, para os fortes que, independentemente das dores pelas quais já passaram e dos resultados negativos que já presenciaram, continuam apostando suas fichas na vida. Pois, afinal, o que é a vida além dessa aposta? Desde quando um momento só vale se tiver um final perfeito? Um casamento que termina deixa de existir na história pessoal dos envolvidos? Um filho que morre deixa de fazer parte da mãe? Uma amizade que esfria leva junto suas lembranças?

Acho que paramos de fazer nossas apostas só porque a idéia de que “a casa sempre ganha” se prevaleceu. Mas é nossa aposta, nossa esperança e nossa coragem que fazem com que a “casa”, de vez em quando, perca. E é desse espacinho de tempo, batalhado e sofrido, que levamos um pouco do que há de bom e também é dele que sai tudo o que realmente interessa na vida: lutar pela “fotografia” que jamais se quer jogar fora. Isto é esperança.

Um comentário:

jones disse...

"...And find the cure for pain." Mto bom. Bem a tempo.