outubro 06, 2005

A CRISE DOS VINTE E TANTOS (Quando os trinta te esperam na esquina)

Acho que nunca pensei tanto e com tanta naturalidade a respeito do envelhecimento. Talvez seja porque utilizemos a questão da idade de forma deveras leviana. Eu, por exemplo, dramatizei tudo o que pude quando fiz 18 e me chamei de velha coroca quando fiz 20. Tenho uma tia que passou seus 43 anos rezando desesperadamente porque havia afirmado, aos vinte e poucos, que preferia morrer naquela idade a ficar dando trabalho aos outros. Agora que tenho 26 e falta menos uma mão inteira de anos para os 30, prefiro ficar de boca calada.

Dirigindo para o trabalho, numa hora de almoço nublada como há muito não se via, pela primeira vez na vida, SENTI – o que é muito diferente de SABER – que a vida é realmente muito curta. Senti, de verdade, que não tenho mais 18, nem 20, nem 22, nem mesmo 24. Eu tenho 26 anos. E isso faz toda a diferença.

Nunca fui de achar que a idade deve, necessariamente, implicar em abdicações. E sempre desconfiei das noções de amadurecimento que se confundiam demais com o empobrecimento de espírito e a falta de diversão. Mas agora entendo que o amadurecimento implica, sim, em concessões. Concessões que se faz, não para os outros, mas para si mesmo. Essa é a grande diferença. Você não quer parar de comer porcaria só porque sua mãe mandou. Você percebe que seu corpo, a cada exame de sangue, se enfraquece mais com a falta de alimentação regrada. Você não quer começar a malhar porque tem espírito de marombeira e quer usar um biquíni micro na praia. É que você percebe que até aquela gordurinha da qual você reclamava, faz falta, pois fica-se flácida, fraca. Você não quer passar num ótimo concurso para impressionar os pais e amigos, mas porque você sabe que este tipo de estabilidade financeira viabiliza vários outros prazeres na vida.

A diferença é tão nítida que percebi que quando se é bem novo, na adolescência e depois até o início dos vinte, tem-se uma tendência para o drama. Tudo é difícil, gritado, arduamente conquistado e anunciado na mesma proporção. Namoro fácil não é namoro válido, discussão sem grito não é discussão, fim de ano sem recuperação nem choro não é ano letivo que se valha, aniversário sem anúncio para todos de que você está ficando “velhééérrima” não é aniversário de uma velha que se preze.

Quando ficamos mais velhos percebemos que de dureza e drama, a vida já nos basta. As coisas deixam de ser tão leves, tão singelas. Não botamos nossos pescoços na guilhotina por nada que não valha muuuuito a pena. E aí, percebemos que relacionamentos são difíceis por si sós; que ter um emprego não é o mesmo de ter satisfação profissional; que um amasso muito bom não é o mesmo que um orgasmo; que uma briga com os pais pode não terminar bem; que morar sozinho não o mesmo que ter independência financeira e emocional; e, principalmente, que seus aniversários passam muito, muito rápido mesmo.

Assim, começamos a nos proteger, a procurar estabilidade e segurança, mais do que qualquer outra coisa. Sei que 26 anos não é idade para se falar em abdicação de paixão em troca de conforto, mas já é idade suficiente para sentir que este dia pode chegar. Um dia em que o cansaço de uma vida vivida, sem parar, vai bater, e você vai procurar conforto e constância.

É dificílimo aceitar isso. Aceitar que se fica, sim, velho demais para ter o cabelo azul, piercing na língua, para se passar a noite inteirinha bebendo cerveja, fumando cigarros e conversando a respeito de nada além de suas bandas preferidas e de quem são os artistas bonitos e quem são os charmosos.

É dificílimo aceitar que não se consegue enxergar a graça que se enxergava em tantas coisas aos vinte. Deixa-se o príncipe encantado e começa-se a procurar aquele companheiro. Deixa-se o sonho de viver de ideologias, só viajando pelo mundo e começa-se a aceitar que um emprego fixo seria maravilhoso. Muitos consideram isso pura acomodação. O que, até certo ponto, é verdade. Mas eu agora sinto que, mais do que acomodação, o que se faz é concessão. Aquela concessão da qual eu falei acima. Concessão que se faz para viver bem, tranqüilo, seguro e, espera-se, feliz.

Infelizmente, eu me encontro bem no limbo. Naquele meio termo infernal entre a loucura e a falsa liberdade dos vinte e poucos, e a sanidade e a contenção consciente e libertária dos trinta. Assim, continuo tentando proteger a criança, a adolescente e a mulher de vinte e poucos que já fui, e, ao mesmo tempo, abrindo caminho para a trintona que serei.



Um comentário:

ogritocalado disse...

Nossa, você tirou palavras da minha boca! Há muito tempo que quero escrever algo sobre essa tal crise dos 20 quase trinta, mesmo porque estou com 26 hoje, e vejo que o fuuturo não é aquele lugar longinquo e nebulosos dos meus 13 anos, embora muito da garota de 13 ainda teime em viver na mulher de 26, que, para meu desespero viveu pouco, se arriscou pouco e tá cheia de lacunas. bjos. E atualize por favor! Você escreve bem.