outubro 27, 2005

ÀS VEZES

Às vezes só se quer deitar um pouco
E fechar os olhos um pouco
E dormir por um tempo, mas sem sonhar
Sonhos cansam, e seu fim, mais ainda
Às vezes só se quer morrer um pouco
E sumir um pouco
E flutuar um pouco sem sentir nada de ruim
Nem de bom, pois um não existe sem o outro
Às vezes só se quer um pouco de frio
E um pouco de folga
Às vezes só se quer silêncio
Apesar do amor pela música
Às vezes só se quer um consolo
Ou um colo
Às vezes só se quer não ser tão forte
Para poder ser fraco, às vezes
E para, às vezes, poder chorar
Poder doer, sem ninguém pertubar
Às vezes só se quer manter
Sem saber se deve ser mantido
Às vezes só se quer o direito de, às vezes, mudar
E pedir para que, às vezes, tudo de mal possa passar

outubro 06, 2005

A CRISE DOS VINTE E TANTOS (Quando os trinta te esperam na esquina)

Acho que nunca pensei tanto e com tanta naturalidade a respeito do envelhecimento. Talvez seja porque utilizemos a questão da idade de forma deveras leviana. Eu, por exemplo, dramatizei tudo o que pude quando fiz 18 e me chamei de velha coroca quando fiz 20. Tenho uma tia que passou seus 43 anos rezando desesperadamente porque havia afirmado, aos vinte e poucos, que preferia morrer naquela idade a ficar dando trabalho aos outros. Agora que tenho 26 e falta menos uma mão inteira de anos para os 30, prefiro ficar de boca calada.

Dirigindo para o trabalho, numa hora de almoço nublada como há muito não se via, pela primeira vez na vida, SENTI – o que é muito diferente de SABER – que a vida é realmente muito curta. Senti, de verdade, que não tenho mais 18, nem 20, nem 22, nem mesmo 24. Eu tenho 26 anos. E isso faz toda a diferença.

Nunca fui de achar que a idade deve, necessariamente, implicar em abdicações. E sempre desconfiei das noções de amadurecimento que se confundiam demais com o empobrecimento de espírito e a falta de diversão. Mas agora entendo que o amadurecimento implica, sim, em concessões. Concessões que se faz, não para os outros, mas para si mesmo. Essa é a grande diferença. Você não quer parar de comer porcaria só porque sua mãe mandou. Você percebe que seu corpo, a cada exame de sangue, se enfraquece mais com a falta de alimentação regrada. Você não quer começar a malhar porque tem espírito de marombeira e quer usar um biquíni micro na praia. É que você percebe que até aquela gordurinha da qual você reclamava, faz falta, pois fica-se flácida, fraca. Você não quer passar num ótimo concurso para impressionar os pais e amigos, mas porque você sabe que este tipo de estabilidade financeira viabiliza vários outros prazeres na vida.

A diferença é tão nítida que percebi que quando se é bem novo, na adolescência e depois até o início dos vinte, tem-se uma tendência para o drama. Tudo é difícil, gritado, arduamente conquistado e anunciado na mesma proporção. Namoro fácil não é namoro válido, discussão sem grito não é discussão, fim de ano sem recuperação nem choro não é ano letivo que se valha, aniversário sem anúncio para todos de que você está ficando “velhééérrima” não é aniversário de uma velha que se preze.

Quando ficamos mais velhos percebemos que de dureza e drama, a vida já nos basta. As coisas deixam de ser tão leves, tão singelas. Não botamos nossos pescoços na guilhotina por nada que não valha muuuuito a pena. E aí, percebemos que relacionamentos são difíceis por si sós; que ter um emprego não é o mesmo de ter satisfação profissional; que um amasso muito bom não é o mesmo que um orgasmo; que uma briga com os pais pode não terminar bem; que morar sozinho não o mesmo que ter independência financeira e emocional; e, principalmente, que seus aniversários passam muito, muito rápido mesmo.

Assim, começamos a nos proteger, a procurar estabilidade e segurança, mais do que qualquer outra coisa. Sei que 26 anos não é idade para se falar em abdicação de paixão em troca de conforto, mas já é idade suficiente para sentir que este dia pode chegar. Um dia em que o cansaço de uma vida vivida, sem parar, vai bater, e você vai procurar conforto e constância.

É dificílimo aceitar isso. Aceitar que se fica, sim, velho demais para ter o cabelo azul, piercing na língua, para se passar a noite inteirinha bebendo cerveja, fumando cigarros e conversando a respeito de nada além de suas bandas preferidas e de quem são os artistas bonitos e quem são os charmosos.

É dificílimo aceitar que não se consegue enxergar a graça que se enxergava em tantas coisas aos vinte. Deixa-se o príncipe encantado e começa-se a procurar aquele companheiro. Deixa-se o sonho de viver de ideologias, só viajando pelo mundo e começa-se a aceitar que um emprego fixo seria maravilhoso. Muitos consideram isso pura acomodação. O que, até certo ponto, é verdade. Mas eu agora sinto que, mais do que acomodação, o que se faz é concessão. Aquela concessão da qual eu falei acima. Concessão que se faz para viver bem, tranqüilo, seguro e, espera-se, feliz.

Infelizmente, eu me encontro bem no limbo. Naquele meio termo infernal entre a loucura e a falsa liberdade dos vinte e poucos, e a sanidade e a contenção consciente e libertária dos trinta. Assim, continuo tentando proteger a criança, a adolescente e a mulher de vinte e poucos que já fui, e, ao mesmo tempo, abrindo caminho para a trintona que serei.