junho 22, 2005

FALTA DE RESPEITO: má-criação irreparável ou lapso inevitável?

Com toooodos esses anos de vida que carrego nas costas e nas rugas, consegui perceber, já há algum tempo, que a perda do respeito num relacionamento, e quero dizer em QUALQUER relacionamento, seja ele amoroso, fraternal, parental ou amigável, não depende de má-educação ou de uma tendência inata ao desrespeito em geral. Quero dizer, até mesmo quando se é uma pessoa boa, até mesmo quando se ama, pode-se perder a noção do respeito pelo outro. Eu acho.

A maior prova disso são as brigas que se têm com os pais. Sei que muitas pessoas – provavelmente a maioria – não foram criadas por pais hippies, como eu, que, traumatizados com a opressão militar da ditadura, abriram as comportas da dinâmica “pais-e-filhos” e puseram abaixo a hierarquia existente nesta relação há tantos séculos. Ainda assim, acho que muita gente, uma vez ou outra, já berrou atrocidades ofensivas aos pais, num momento de raiva descontrolada. Na adolescência, então, quando os hormônios fazem você ficar meio louco, acredito que é mais fácil ainda perder o respeito pelos pais, mesmo que momentaneamente.

E essa é a evidência número 1 a ser juntada aos autos, senhores jurados: pode-se amar os pais, saber que eles são bons pra você, mas, ainda assim, mandá-los às putas-que-os-pariram. Tá vendo? De lambuja, foi-se aí até o respeito pelas avós!

Os amigos também não escapam. Aliás, principalmente aqueles(as) amigos(as) mais antigos, com quem já se criou um tipo de vínculo que pula, com a maior facilidade, da intimidade para o abuso. Quem aqui nunca ficou meio agoniado com aquele(a) amigo(a) que já nem te pede carona, mas simplesmente presume que se você vai a algum lugar, vai, certamente, levá-lo(a) também?

Ou então, o(a) amigo(a) “financeiramente aleijado(a)” - como eu fui durante tantos anos - que se acostuma com as coisas sendo pagas pelos outros? Aquele(a) que fala as coisas pra você sem pensar direito, aquele(a) que não percebe quando a situação está te incomodando, aquele(a) que não entende que certos comportamentos não são apropriados numa festinha de aniversário familiar, como colocar Iron Maiden na maior altura sem reparar que sua avó tá tendo um derrame por causa do som.

Tudo isso, de certa forma, é falta de respeito. E é o tipo de falta de respeito que só pode ser cometida por quem está muito próximo de você, ou seja, é o “fogo amigo” no âmbito social (OBS: não quero ofender a inteligência de ninguém, pois eu mesma não sabia o significado da expressão “fogo amigo”, mas, pra não ficarem dúvidas pairando na sua cabeça até você terminar o texto, aqui vai uma explicaçãozinha: quando em meio à confusão de uma guerra um soldado é morto, acidentalmente, por um colega, isso é chamado de fogo amigo, equivalente, agora, graças a mim, à falta de respeito por parte de uma pessoa muito próxima).

Essa é a evidência número 2, meus caros membros do júri: você pode ter uma amizade de anos, confiar plenamente em alguém e, ainda assim, abusar ou sentir que abusaram da intimidade existente entre vocês.

Evidência número três. Essa é das mais complicadas, porque os relacionamentos amorosos, normalmente, são os mais complicados.

Quem nunca abusou da paciência ou da dedicação ou da disponibilidade de um(a) namorado(a)? Se você respondeu que “nunca”, é porque não só faltou o respeito como um pouco de “semancol” (anos 80 discontrol!!!) nessa sua cabeça!!! Todos nós já falamos e agimos de forma abusiva e desrespeitosa com quem amamos. E vice-versa também, é claro.

Assim, a prova de número 3, senhores(as), se resume da seguinte forma: pode-se estar apaixonado e pode-se estar muito bem no namoro, aberto ou fechado, ou no casamento, aberto ou fechado, ou na ficada, prolongada ou de uma noite só, ou no rolo, extensivo ou the flash, ou no “acho que o mundo moderno abriu um leque extenso demais para definir os relacionamentos”, E, AINDA ASSIM, esquecer de dar uma satisfação por não ter ligado, deixar de apresentar para os amigos, passar em branco uma comemoração, levantar a voz sem necessidade, não agradecer um sacrifício, não reparar uma roupa nova, não consolar um choro, não agüentar uma TPM, não enfrentar um inimigo, não falar, não fazer, não qualquer coisa.

Com certeza tem alguém pensando: que exagero, isso tudo aí não é falta de respeito (não sei porque quando imagino esses comentários que considero impetulantes ouço num sotaque carioca!). Mas, covenhamos, se fosse com você, do que você chamaria?




2 comentários:

Anônimo disse...

Adoro esse jeito que você escreve! Dou gargalhadas com algumas colocações (o único detalhe é que pensam que sou louca aqui no trabalho, rindo sozinha, do nada).
Beijos,
Nina

Caligus disse...

Eu provavelmente chamaria de falta de um sonoro FODA-SE. Volta e meia intimidade e abuso se confundem facilmente....Facilmente demais até.

bjs