maio 03, 2005

Nós, os desastrados.

Este fim de semana parei para pensar nos desastrados.
Eu, que sou membro deste grupo desde que me entendo por gente, acabei me acostumando com os acidentes diários. Mas, parando para analisar essa bizarra e dolorida recorrência de pequenos acidentes, penso, agora, se não existe algo de mais profundo e sinistro em nossos desastres.

Quando eu era criança, eu caía tanto, mas tanto, que minha mãe cogitou fortemente a possibilidade de me fazer usar aquelas botas ortopédicas, horrorosas, oitentistas, parecidíssimas com aquelas usadas pelo molequinho da propaganda da vacina contra poliomelite. Eu, claro, recusei até a morte. Preferia ter os pés decepados. Resultado desta infância de corrida e piques pega, bandeira, cola e esconde: o joelho de "mocinha" mais fodido que eu já vi. Todo arranhado, cheio de cicatrizes.

Passada a fase de brincar na rua, veio a adolescência depressiva. Acho que tentei - inconscientemente, é claro - me matar umas três vezes. Num ataque de raiva, dei um tapa na porta do meu quarto. Até aí, nada de mais. Não fosse, obviamente, o prego inútil enfiado na bendita porta. Dói muito enfiar a ponta de um prego na mão? Ah é, meu filho? Então tenta enfiar a cabeça, nem um pouco anatômica, do prego no fim da palma da sua mão. Sim, a centímetros míseros do seu pulso. O sangue esguinchou de um jeito que comecei a achar que os filmes de terror classe Z não estavam exagerando quando aquele jato de catchup saía.

Em outro ataque, na hora de dormir - e aqui vale explicar que eu, na época, sofria de uma insônia terrível e precisava que o quarto estivesse no mais absoluto breu - o vizinho me acende um holofote virado bem para minha janela. Se eu já não estava muito bem humorada e nem um pouco descansada, aquilo foi a micro gota d'água, mais do que suficiente, para que eu transbordasse. Fui até a sala de estar e, de frente para a porta de quadradinhos de vidro, eu bradei "- Apaga essa luz, filho da p***!!!" e bati, com as mãos fechadas em punho, na porta...DE VIDRO!! Uma das mãos atravessou um dos quadradinhos e quando eu a puxei de volta vi aquele cortezinho, desta vez, cirurgicamente localizado no pulso começando a vazar sangue. Minha raiva, meu susto e meu ceticismo foram tão absurdos que consegui, ainda, num tom horrivelmente cínico dizer "- Ótimo, e agora, ainda por cima, eu vou morrer! Mas que droga!".

O terceiro acidente que não foi sob um ataque de raiva. Muito pelo contrário. Foi dançando, como uma doente mental. Lá vai o rock... Lá vou eu...dançando pulando...tropeçando...e atravessando uma janela. Não sofri nem um corte, mas o choro foi inevitável. Descontrolado. Parecia mesmo que eu estava tentando me machucar. Quem se odeia tanto a ponto de se machucar fisicamente daquele jeito?

Eu não sei se é um retardamento ou só falta de coordenação, mas o desastrado não pode seguir os outros. Cem pessoas podem executar um mesmo movimento. O desastrado pode seguir religiosamente todos os passos. Eu te garanto, ele vai cair. Como quando eu resolvi seguir a moda das porcarias de tamanco holandês, “hippizinho”, anos 70, no segundo grau. Toda menina usava aquilo. Mas aposto que só eu caí rolando na escada da Villa Lobos na frente de quase mil, sim, MIL pessoas.

Mas se o desastrado segura sua onda...lá vem os outros!!! Sabe quando pessoas que têm medo de insetos são as primeiras a serem perseguidas por eles? Pois é. As pessoas na rua escolhem a mais desastrada para darem um esbarrãozinho que se transformará num tombo catastrófico. Foi isso que me fez pensar sobre minhas quedas. Pois num estacionamento bem grande, dois amigos resolvem brincar de pular, um no colo do outro, na direção das minhas costas. E lá fui eu!!!!! De quatro. No asfalto. Sem um dos sapatos.
Bom, não sei o que leva alguém a se tornar ou nascer um desastrado. Mas pelo menos a gente tem mais história pra contar...

3 comentários:

Caligus disse...

Entendo completamente vc Luisa apesar de não ser um desastrado. Mais saiba que ainda dentre os desastrados existem duas grandes subdivisões os desastrados como vc e os dark side como meu amigo tragédia que dentre muitas outras coisas acidentalmente quebrou o nariz da namorada dele. Não é a toa que o apelido da figura é Targédia.

bjs

*****LULUPETERS***** disse...

HAHAHAHAHAHAHA CARACAS!!!

Gabi disse...

Lulu, a gente ñ pode mais dividir o mesmo espaço, senão a gente vai colocar o lugar abaixo... Só pra vc ter noção, de um dos meus últimos tombos (pq é praticamente um tombo por dia... se eu der sorte de ser só um), eu tive de atravessar o Pontão descalça, pois claro, que eu arrebentei minha sandália... então, como se o mico do tombo já ñ fosse suficiente, lá vai a Gabi atravessar o Pontão (que por acaso estava lotado) descalça e c/a sandália na mão...
beeeeeeeeeeeeeeeeejos luuuuuuuuuuu