maio 17, 2005

A hospitalidade, a revolta.

Brasília se transformou na grande anfitriã. É a cidade hostess. Todo mundo, aparentemente, quer vir pra cá. E todos que querem vir para cá estão sendo devidamente incentivados a fazê-lo, e devidamente recompensados também.

Os árabes, por exemplo. Tiveram uma mega-estrutura à sua disposição. Os melhores hotéis, as melhores refeições, os melhores tradutores. Fala sério, até o exército se prontificou a servir nossos colegas árabes. As garotas de programa também! Enfim, todos queriam servir bem os priminhos de Osama.

O engraçado é que esses primos de segundo ou terceiro grau da Al Quaeda não estavam se sentindo tão seguros com relação à Brasília. Pois é, ELES têm os parentes terroristas, mas NÓS é que temos que prover a segurança deles! Ninguém quer saber se criancinhas brasileiras estão andando nas ruas ao lado do arame farpado e dos fuzis do exército. O importante é: assegurar a integridade física, a pontualidade, a alimentação e o repouso dos visitantes árabes para que eles possam fazer vários acordos lucrativos com a porra dos visitantes...ARGENTINOS!!!!

E foda-se se eu não consigo chegar ao trabalho porque o Eixo Monumental está fechado ou porque simplesmente os horários dos ônibus estão uma bagunça!! O meu dever é dar um jeito de chegar ao trabalho, para que, assim, eu possa ganhar um salário tão baixo que vigiar carro vira atividade com maior lucro mensal.

Só que parte deste salário serve a um oooooutro propósito. Claro, parte do MEU dinheiro se destina a receber os próximos visitantes desta cidade tãããão hospitaleira! Os visitantes? Aqueles simpáticos Sem-Terra!!! Tão bonzinhos, vítimas da má-distribuição de terras. Eu não. Tive a sorte de crescer numa cidade onde tem espaço para toooodo mundo. Aliás, lote aqui é o que não falta, né?! Mas, pensando bem, acho que vários assentamentos de sem-terra já foram regularizados, né? E também acabaram concedendo áreas inteiras para eles, né de novo? Ah, tá. Então, o que está acontecendo?

...crrri...crrri...pausa para análise...crri...crri

Já sei! O movimento dos Sem-Terra não é mais um movimento criado para exercer pressão política e, conseqüentemente, viabilizar as devidas divisão e exploração da terra pelo homem do campo!! ÉÉÉÉÉ! Sem-Terra agora é categoria pro-fis-sio-naaal!! É o mais novo e crescente mercado de trabalho!! Direito, REL e Medicina são cursos universitários do passado!!! Afinal, o governo tem dado a esses profissionais da manifestação inútil todo o dinheiro que recusou aos servidores públicos!!!!

E Brasília cumpre seu papel para incentivar essa nova profissão! É verba federal, hospedagem, água, comida...tudo para viabilizar aqueeela sentada no banquinho! A esticada daqueeeela lona preta. A montagem daqueeeeela cara de coitado! E eu, de novo, levo duas horas para chegar ao trabalho porque as ruas estão travadas pelos manifestantes e eles, é claro, não andam de ônibus como eu!!!
Ai, ai. Quem me mandou escolher a profissão errada?!

maio 03, 2005

Nós, os desastrados.

Este fim de semana parei para pensar nos desastrados.
Eu, que sou membro deste grupo desde que me entendo por gente, acabei me acostumando com os acidentes diários. Mas, parando para analisar essa bizarra e dolorida recorrência de pequenos acidentes, penso, agora, se não existe algo de mais profundo e sinistro em nossos desastres.

Quando eu era criança, eu caía tanto, mas tanto, que minha mãe cogitou fortemente a possibilidade de me fazer usar aquelas botas ortopédicas, horrorosas, oitentistas, parecidíssimas com aquelas usadas pelo molequinho da propaganda da vacina contra poliomelite. Eu, claro, recusei até a morte. Preferia ter os pés decepados. Resultado desta infância de corrida e piques pega, bandeira, cola e esconde: o joelho de "mocinha" mais fodido que eu já vi. Todo arranhado, cheio de cicatrizes.

Passada a fase de brincar na rua, veio a adolescência depressiva. Acho que tentei - inconscientemente, é claro - me matar umas três vezes. Num ataque de raiva, dei um tapa na porta do meu quarto. Até aí, nada de mais. Não fosse, obviamente, o prego inútil enfiado na bendita porta. Dói muito enfiar a ponta de um prego na mão? Ah é, meu filho? Então tenta enfiar a cabeça, nem um pouco anatômica, do prego no fim da palma da sua mão. Sim, a centímetros míseros do seu pulso. O sangue esguinchou de um jeito que comecei a achar que os filmes de terror classe Z não estavam exagerando quando aquele jato de catchup saía.

Em outro ataque, na hora de dormir - e aqui vale explicar que eu, na época, sofria de uma insônia terrível e precisava que o quarto estivesse no mais absoluto breu - o vizinho me acende um holofote virado bem para minha janela. Se eu já não estava muito bem humorada e nem um pouco descansada, aquilo foi a micro gota d'água, mais do que suficiente, para que eu transbordasse. Fui até a sala de estar e, de frente para a porta de quadradinhos de vidro, eu bradei "- Apaga essa luz, filho da p***!!!" e bati, com as mãos fechadas em punho, na porta...DE VIDRO!! Uma das mãos atravessou um dos quadradinhos e quando eu a puxei de volta vi aquele cortezinho, desta vez, cirurgicamente localizado no pulso começando a vazar sangue. Minha raiva, meu susto e meu ceticismo foram tão absurdos que consegui, ainda, num tom horrivelmente cínico dizer "- Ótimo, e agora, ainda por cima, eu vou morrer! Mas que droga!".

O terceiro acidente que não foi sob um ataque de raiva. Muito pelo contrário. Foi dançando, como uma doente mental. Lá vai o rock... Lá vou eu...dançando pulando...tropeçando...e atravessando uma janela. Não sofri nem um corte, mas o choro foi inevitável. Descontrolado. Parecia mesmo que eu estava tentando me machucar. Quem se odeia tanto a ponto de se machucar fisicamente daquele jeito?

Eu não sei se é um retardamento ou só falta de coordenação, mas o desastrado não pode seguir os outros. Cem pessoas podem executar um mesmo movimento. O desastrado pode seguir religiosamente todos os passos. Eu te garanto, ele vai cair. Como quando eu resolvi seguir a moda das porcarias de tamanco holandês, “hippizinho”, anos 70, no segundo grau. Toda menina usava aquilo. Mas aposto que só eu caí rolando na escada da Villa Lobos na frente de quase mil, sim, MIL pessoas.

Mas se o desastrado segura sua onda...lá vem os outros!!! Sabe quando pessoas que têm medo de insetos são as primeiras a serem perseguidas por eles? Pois é. As pessoas na rua escolhem a mais desastrada para darem um esbarrãozinho que se transformará num tombo catastrófico. Foi isso que me fez pensar sobre minhas quedas. Pois num estacionamento bem grande, dois amigos resolvem brincar de pular, um no colo do outro, na direção das minhas costas. E lá fui eu!!!!! De quatro. No asfalto. Sem um dos sapatos.
Bom, não sei o que leva alguém a se tornar ou nascer um desastrado. Mas pelo menos a gente tem mais história pra contar...

O tédio, o relevante


Já perceberam que quando se está entediado, ao mesmo tempo em que se quer fazer alguma coisa, nada parece te apetecer?
Assim, sentir-se entediado em nada tem a ver com a falta do que fazer. Coisa para fazer, sempre tem. Mas elas sempre parecem irrelevantes, para não dizer chatas. Acho que isso acontece porque o tédio está relacionado com a ausência de motivação, não de atividades. Para acabar com o tédio não adianta começar a organizar a papelada do trabalho. Aliás, isso dá um sono...
Para se acabar com o tédio, só uma injeção de...como chama? A balinha dos depressivos? SEROTONINA!!! É isso. Estou entediada, tenho coisas para fazer, mas o que eu preciso é de uma dose de serotonina, de relevância, diversão, descontração, motivação, riso bobo, papo furado, cerveja a pampa, um pote de brigadeiro, mau-mau, show do placebo, dormir em rede, nadar no mar, ver o pôr-do-sol, tomar banho de chuva, chorar no cinema, dançar de calcinha, gritar de susto, ouvir Billy Holliday, Nina Simone e Sarah Vaughn, comprar roupa, brincar com crianças, conversar com vó, fazer strogonoff, catar amora, jogar atari (!), entrar numa banda, "cair dentro" de um livro, conversar com estranhos, aprender a jogar sinuca, tomar capuccino, fumar um cigarro, párar de fumar, tomar banho de cachoeira, ir ao Trem Fantasma, zanzar sem rumo na UnB, pintar uma parede de rosa shock, tomar vaca preta, ver Sex and the City, transar no carro, pular corda, andar de bicicleta, sentar em calçada, ir trabalhar de chinelo, mandar alguém (que mereça!) se foder, pegar um caminho novo, dirigir sem engarrafamento, usar mini-saia, ser paparicada no salão, receber massagem no pé, reencontrar amigo das antigas, bisbilhotar no orkut, ver fotos de viagens, tirar fotos de besteiras, botar molho barbecue em tudo, brincar de gato mia, tomar coca light em rodízio de pizza, conversar ao pé do ouvido, guerra de travesseiro, brincar com cachorro, adotar um filhote, chamar mãe de amiga de "tia", reclamar de velhice aos 25, ir em festa underground, fazer o inesperado, aceitar o imprevisível e viver....