março 01, 2005

AS PESSOAS, OS NÚMEROS.

Recentemente esbarrei várias vezes na expressão “restrição cadastral” – nome politicamente correto, e absolutamente irritante, para “te-pegaram-dando-calote-e-agora-seu-CPF-vale-porra”. Em qualquer lugar que se vá, alguém quer saber se você possui “restrições cadastrais”.

Por que isso? Porque, infelizmente, não existe Serviço de Proteção ao Caráter, à Personalidade, à Experiência de vida e à Generosidade, só existe proteção ao Crédito. A grande verdade é que não existem mais seres humanos. Existem números. Você não é você. Você não é alguém que já se apaixonou, que já chorou, que já perdeu e ganhou. Você não é sua vida, vivida. Você é o R.G 1254789 SSP/DF e, mais importante ainda, você é o CPF nº 456.987.526-89.

Não interessa se, na escola, você deu o primeiro beijo, reprovou em matemática e, assim, descobriu uma aptidão para a redação, se apaixonou pelo professor de educação física ou fez planos para assassinar pessoas que te sacaneavam. Você era looser ou nerd na escola? Não interessa. Você era o aluno matrícula nº12.658. Aquele, da 6ª B, 2º andar, sala 218.

Sua casa. Quem quer saber se a sua casa foi o primeiro lugar onde você andou pela primeira vez? Ou se foi lá que você aprendeu a nadar, onde morreu seu cachorro de anos, onde você bateu a cabeça e teve que levar pontos, onde você brincava de Goonies, de Barbie? Aquilo, para os outros, não é o local onde você passou sua vida. Lá é o CEP 71.635-350. É a casa de nº17, é o conjunto nº 15, é a Quadra Interna nº 07.

Quando afirmei, aos 09 anos, que odiava matemática mais do que odiava jujuba – e eu ODEIO jujuba – nunca imaginei que esse assunto tão ameaçador fosse se tornar ainda mais assustador. Os números não apenas confundem minha cabecinha. Eles agora querem dominar o mundo E roubar nossa humanidade! Caracas, que roteiro de filme de terror!

Mas pensem: até o dinheiro que circula nas “Pochetes de (sem) Valores” no mundo, não é dinheiro. O que é aquilo, então? Uma chance para acertar. Isso aí: NÚMEROS. Virtuais ainda por cima. Um bando de “zeros” e um bando de “uns” e se você não tem a quantidade certa de “uns” e “zeros”, você passa a ser o “zero”, à esquerda, óbvio.

E é isso. Infelizmente – e para variar – não tenho soluções para minhas reclamações. Só sei que eu, do ano 1979, 25 anos, morando na 712, com carro 1.8, tomando cerveja (quando dá) a 2,50, a 1.000 metros acima do mar, estou me esforçando para não me tornar “matematizada” ao ponto que esquecer que eu que nasci, que já vivi certa quantidade de tempo, morando nesse mundão, me locomovendo do jeito que dá, tomando aquilo que for líquido e me der prazer, com a cabeça muito acima das nuvens, não tenho, a meu ver, nenhuma restrição cadastral.