janeiro 20, 2005

A opinião, o casal

O difícil de ser uma pessoa que tem uma opinião sobre tudo, mesmo que uma opinião quase inconsciente, é que, vira e mexe, estamos "pagando por nossas línguas". Quem nunca afirmou categoricamente que NUNCA faria algo ou que SEMPRE agiria de tal forma em tal situação e acabou com vergonha de si mesmo quando tomou uma atitude completamente diferente do que havia proposto para si!

Eu, como uma dessas pessoas de opinião, já fui capaz de fazer afirmações que foram parar em Netuno depois de perceber que "falar é fácil", mas agir, nem sempre ou quase nunca, é. É como aquelas pessoas que pregam que jamais aceitariam ser chifradas e, quando acontece, perdoam o(a) parceiro(a) mais rápido do que imaginavam. Minhas afirmações categóricas muitas vezes se dirigiram para o campo amoroso. E isso é o mais ridículo de tudo pois essa área da vida é puro sentimento, e como alguém prevê uma atitude frente a uma situação sem ter a menor idéia de que tipo de sentimento surgirá de tal circunstância!

Como uma boa adolescente gorducha, no segundo grau criei para mim certos tipos de regras, estruturadas, bem formuladas, típicas de quem nunca era chamada para sair, muito menos pedida em namoro. "Eu SEMPRE isso", "eu NUNCA aquilo", ". E toda vez que SENTIA de forma diferente do que PENSAVA, quebrava a cara. Pelo menos, nunca tive problemas em admitir que havia quebrado a cara e pago um preço alto por minha língua.

Já na faculdade, as decepções amorosas foram tantas que as regras mudaram. Continuaram a existir, pois nesse nosso mundinho estabelecer regras é sinal de racionalidade, e racionalidade é competência, e quem quer parecer incompetente num mundo tão competitivo! Além disso, todo mundo na faculdade fica com essa onda de transformar qualquer assunto em doutrina acadêmica. Até cor de batom se transforma em teoria antropológica!! Por isso, as regras estavam lá, mais idiotas do que nunca, mas com um vocabulário de fazer inveja...

Em uma dessas conversas super produtivas na lanchonete da faculdade, cheguei a afirmar que JAMAIS sairia da casa da minha mãe se não fosse para morar sozinha antes de morar com amigos ou, e principalmente, com um namorado. Aliás, afirmava que essa idéia de casamento não me agradava muito não: "que idéia ultrapassada", "instituição falida", "não suporto a idéia de ter que dividir um banheiro com um namorado]marido" e quando me falaram que certos casais chegam a compartilhar, em caso necessidade, obviamente, a mesma escova de dente, falei que preferia MORRER, afinal, "que coisa anti-higiênica!!!!!".

Nossa, já afirmei tanta coisa: que não aceitaria excesso de intimidade, como peidar, cagar ou mijar na frente do parceiro, que quem sente atração por outro(a) é necessariamente porque está infeliz no relacionamento ou porque simplesmente não gosta de verdade, que só me casaria se fosse rica o suficiente para ter dois banheiros, que o relacionamento só dá certo se o casal se conhecer já há algum tempo, e blá, blá, blá...

Aonde estão essas afirmações hoje! Lá em Netuno mesmo. Já senti atração física enquanto amava outro, "casei" depois de um mês de namoro, antes de morar só e de ter dinheiro para dois banheiros (fala sério, às vezes falta dinheiro para o aluguel!!), já usei a escova de dente do meu marido e, o mais humilhante de tudo, descobri que durante o sono não mantemos controle absoluto do esfíncter, algo que meu dito cujo fez questão de me contar!!! Já tive que abrir a porta do banheiro, sentada na privada depois de mijar, para pegar o papel higiênico e já tive dor de barriga, algo dificííílimo de esconder quando se mora junto!

Ainda assim, toda quebrada de cara me trouxe algo de maravilhoso: mais maturidade, mais realismo, mais vivência, mais confiança, mais intimidade. É uma pena que o mundo a dois não seja nada cor de rosa e nem preto-e-branco. É uma mistureba de cores inexplicável. Um dia se age de um jeito, no outro dia, de outro. O sentimento muda, a atitude muda. Mas uma coisa sempre continua: para nos sentirmos racionais, competentes, sob controle e poderosos, continuamos criando nossas regrinhas...bobas que só elas!!