dezembro 26, 2005

AÇÃO AFIRMATIVA

Para quem não sabe, ação afirmativa é uma medida legal temporária, utilizada com vistas a valorizar um grupo historicamente marginalizado. Em termos muito leigos, mas super visuais, a ação afirmativa é um banquinho ou escadinha, construídos pelo próprio Estado, pelas vias legais, para ser emprestado a todas as pessoas que, por motivos de nítida exclusão social, não “alcançam” as prateleiras de oportunidades de estudo e trabalho, com a mesma facilidade que outros grupos que não passaram por um processo de marginalização histórica.

Muitos acreditam que a única forma de se promover a ação afirmativa é através da reserva de cotas, como já ocorre hoje com os afro-descendentes nas universidades públicas, e com as mulheres nos sindicatos e partidos políticos. E, pior, a maioria acredita que a ação afirmativa deva ser uma medida de tempo indeterminado, de certa forma, infinita.

Já pensei muito sobre o assunto, já fiz uma monografia de final de curso sobre o assunto, já mudei de idéia com relação ao assunto. Acredito que a proposta foi deturpada e perdeu o sentido. Eu, por exemplo, até agora não entendo porque alguém que precisa do auxílio de uma cadeira de rodas para andar, tem que ter reserva de vaga em um concurso público. Afinal, se o concurso já é público, e o pré-requisito para se fazer a prova, além da inscrição, é ter um cérebro, qual seria a desvantagem que um indivíduo sofreria na condição de deficiente físico? Não estou dizendo que é fácil ter uma deficiência e, muito menos, que não deveria haver uma forma de facilitar a vivência diária dessas pessoas, MAS, se a situação se resume a fazer uma prova, aberta, pública, que não implica em indicações pessoais, nem avaliações superficiais suscetíveis ao preconceito de ninguém, para quê o banquinho???

Com a cota para estudantes afro-descendentes nas universidades públicas, o problema é outro. O modelo dessa ação afirmativa foi importado dos Estados Unidos aonde, mais do que uma questão meramente financeira, o racismo era uma questão de peso cultural meeesmo. Não estou dizendo que no Brasil não há racismo puro e descarado. Racismo ligado à raça, mesmo, e não só ao status social. PORÉM, venhamos e convenhamos que a exclusão racial no Brasil ainda se dá fortemente através da exclusão de base econômica. Quando o presidente Kennedy resolveu promover a abertura das Universidades para os afro-americanos, ele o fez não só porque a falta de estudos e dinheiro da população negra americana os impedia de entrar na Universidade, mas porque as próprias universidades, com o apoio maciço da população “branca” simplesmente recusavam todos os estudantes de descendência africana. Deu para sacar a diferença? No Brasil, ninguém é impedido de fazer um vestibular. As pessoas estão é em desvantagem – umas com relação a outras – no sentido de não possuírem a mesma oportunidade de aprender o que será cobrado na prova e, às vezes, nem mesmo de assumir o custo de uma inscrição.

Outro problema grave com relação a este tipo ação afirmativa está no fato de que no Brasil é dificílimo definir a descendência de seus habitantes. Um cabelo encaracolado pode muito bem ser uma característica européia, aonde, em vários lugares como França, Itália, Espanha e Portugal – aonde há mais influência latina – e não necessariamente africana. Assim, o feitio de um nariz, a cor dos olhos e a textura dos cabelos não são critérios adequados para se avaliar quem está em desvantagem na corrida pelo acesso à educação superior.

A reserva de cotas para mulheres, por sua vez, por ser praticada apenas em grupos ou categorias como sindicatos e partidos políticos – reforçando que isso já é uma medida aplicada no Brasil – a situação já é mais compreensível, pois, com boas condições financeiras ou não, a exclusão promovida por esses grupos se dá com base nos conceitos mais antigos de inferioridade de gênero.

Se as cotas para afro-descendentes fossem impostas em empresas privadas, ou se, as cotas nas universidades fossem reservadas para aqueles que não têm fácil acesso à educação por conta de uma restrição financeira (que enseja uma restrição de tempo de dedicação aos estudos, de acesso a material didático, e aí por diante), teríamos os efeitos benéficos da ação afirmativa, pois estaríamos assumindo que esses grupos são, de fato, MARGINALIZADOS, e não INCOMPETENTES.

Incentivo fiscal a empresas com grande contratação de pessoas de variadas religiões, de classes mais baixas, de afro-descendentes, de mulheres, etc, seria uma medida justa de ação afirmativa. Em vários países europeus, a ação afirmativa para mulheres é feita através do incentivo fiscal, que é garantido às empresas que possuem, por exemplo, creches para os filhos de funcionárias. Essa medida diminui problemas como ausência ou falta de pontualidade, que recaem sobre mães sem condições de pagar um profissional ou com horário de trabalho diverso do horário de escola de seus filhos.

No Brasil, se a chamada ação afirmativa, ou discriminação positiva, continuar a ser aplicada da forma que é hoje, vou juntar um grupo de pessoas e exigir pós-gradução e emprego para todos aqueles que já levaram um fora, para quem não sabe cozinhar, para quem já perdeu um amigo, para quem já acordou se achando horroroso, para quem gosta de viajar, para quem toma sorvete, para quem fuma, para quem era sacaneado na escola, para quem não gosta de fazer faxina...

novembro 18, 2005

ESPERANÇA: FALTA DE REALISMO OU PURA INGENUIDADE?

Num mundo onde é melhor ser drogado, alcoólatra, prostituído e anoréxico do que aparentar carência e fraqueza – no sentido mais amplo e deturpado da palavra –, a esperança terminou por ser considerada uma das características mais inúteis.

Já vimos de tudo: ditaduras, mortes, lutas vãs, mentiras, mudanças de costumes, depredação de princípios e do meio-ambiente, queda de instituições e sabe-se lá o que mais. Talvez por isso mesmo, ter esperança em mudanças ou melhoras passou a ser visto como pura ingenuidade. Um sinal típico de fraqueza. “Para quê ajudar esta pessoa, se são tantas as outras com a mesma necessidade?” , “você acha mesmo que você vai fazer alguma diferença?”.

Acredito que realmente exista algo de ingênuo na esperança exacerbada. Talvez um grande sinal de maturidade e inteligência seja saber reconhecer a hora de “puxar o carro”, “dar o vazari”, “abandonar o ringue” e “zunir a bola”. Mas talvez, apenas talvez, tenhamos levado este conceito longe demais. Se você parar para analisar, você já viu namoros que deixaram de começar por conta de problemas óbvios e de ordem prática. “Ah, ele mora longe!”, “ah, ela tem uma religião e eu não!”, “ah, ele é muito mais novo”. Tudo bem. Temos que admitir que praticidade salva muito do nosso tempo. Mas o que quero saber é que salvamos esse tempo para gastá-lo mais tarde com o quê?

Será que essa falta de esperança e excesso de praticidade não está fazendo com que nos tornemos...covardes? É. Covardes mesmo. “Não vou namorar porque vai acabar mesmo”, “não vou estudar isso porque não vai dar dinheiro no futuro mesmo”, “não vou concorrer porque fulana vai ganhar mesmo”, “não vou tentar parar de fumar, porque não vou conseguir mesmo”. Todo mundo já falou algo do gênero. Putz! Quando foi que abandonamos tão definitivamente o “ah, vamos tentar, às vezes pode dar certo”? Quando foi que decidimos virar senhores do tempo e passamos a adivinhar os resultados ao invés de apostarmos neles??

E afinal, será que resultados negativos são tão inúteis assim? Dolorosos, sim, são. Mas, e aí? Desde quando essa dor que o ser humano sente desde que começou a sentir qualquer coisa, passou a ser pesada demais para nós? Por que ficamos tão frágeis, fracotes?

Por isso, começo a achar que a esperança não é para os fracos e inocentes, como prega a cultura atual do blasé e do cool, mas, sim, para os fortes que, independentemente das dores pelas quais já passaram e dos resultados negativos que já presenciaram, continuam apostando suas fichas na vida. Pois, afinal, o que é a vida além dessa aposta? Desde quando um momento só vale se tiver um final perfeito? Um casamento que termina deixa de existir na história pessoal dos envolvidos? Um filho que morre deixa de fazer parte da mãe? Uma amizade que esfria leva junto suas lembranças?

Acho que paramos de fazer nossas apostas só porque a idéia de que “a casa sempre ganha” se prevaleceu. Mas é nossa aposta, nossa esperança e nossa coragem que fazem com que a “casa”, de vez em quando, perca. E é desse espacinho de tempo, batalhado e sofrido, que levamos um pouco do que há de bom e também é dele que sai tudo o que realmente interessa na vida: lutar pela “fotografia” que jamais se quer jogar fora. Isto é esperança.

outubro 27, 2005

ÀS VEZES

Às vezes só se quer deitar um pouco
E fechar os olhos um pouco
E dormir por um tempo, mas sem sonhar
Sonhos cansam, e seu fim, mais ainda
Às vezes só se quer morrer um pouco
E sumir um pouco
E flutuar um pouco sem sentir nada de ruim
Nem de bom, pois um não existe sem o outro
Às vezes só se quer um pouco de frio
E um pouco de folga
Às vezes só se quer silêncio
Apesar do amor pela música
Às vezes só se quer um consolo
Ou um colo
Às vezes só se quer não ser tão forte
Para poder ser fraco, às vezes
E para, às vezes, poder chorar
Poder doer, sem ninguém pertubar
Às vezes só se quer manter
Sem saber se deve ser mantido
Às vezes só se quer o direito de, às vezes, mudar
E pedir para que, às vezes, tudo de mal possa passar

outubro 06, 2005

A CRISE DOS VINTE E TANTOS (Quando os trinta te esperam na esquina)

Acho que nunca pensei tanto e com tanta naturalidade a respeito do envelhecimento. Talvez seja porque utilizemos a questão da idade de forma deveras leviana. Eu, por exemplo, dramatizei tudo o que pude quando fiz 18 e me chamei de velha coroca quando fiz 20. Tenho uma tia que passou seus 43 anos rezando desesperadamente porque havia afirmado, aos vinte e poucos, que preferia morrer naquela idade a ficar dando trabalho aos outros. Agora que tenho 26 e falta menos uma mão inteira de anos para os 30, prefiro ficar de boca calada.

Dirigindo para o trabalho, numa hora de almoço nublada como há muito não se via, pela primeira vez na vida, SENTI – o que é muito diferente de SABER – que a vida é realmente muito curta. Senti, de verdade, que não tenho mais 18, nem 20, nem 22, nem mesmo 24. Eu tenho 26 anos. E isso faz toda a diferença.

Nunca fui de achar que a idade deve, necessariamente, implicar em abdicações. E sempre desconfiei das noções de amadurecimento que se confundiam demais com o empobrecimento de espírito e a falta de diversão. Mas agora entendo que o amadurecimento implica, sim, em concessões. Concessões que se faz, não para os outros, mas para si mesmo. Essa é a grande diferença. Você não quer parar de comer porcaria só porque sua mãe mandou. Você percebe que seu corpo, a cada exame de sangue, se enfraquece mais com a falta de alimentação regrada. Você não quer começar a malhar porque tem espírito de marombeira e quer usar um biquíni micro na praia. É que você percebe que até aquela gordurinha da qual você reclamava, faz falta, pois fica-se flácida, fraca. Você não quer passar num ótimo concurso para impressionar os pais e amigos, mas porque você sabe que este tipo de estabilidade financeira viabiliza vários outros prazeres na vida.

A diferença é tão nítida que percebi que quando se é bem novo, na adolescência e depois até o início dos vinte, tem-se uma tendência para o drama. Tudo é difícil, gritado, arduamente conquistado e anunciado na mesma proporção. Namoro fácil não é namoro válido, discussão sem grito não é discussão, fim de ano sem recuperação nem choro não é ano letivo que se valha, aniversário sem anúncio para todos de que você está ficando “velhééérrima” não é aniversário de uma velha que se preze.

Quando ficamos mais velhos percebemos que de dureza e drama, a vida já nos basta. As coisas deixam de ser tão leves, tão singelas. Não botamos nossos pescoços na guilhotina por nada que não valha muuuuito a pena. E aí, percebemos que relacionamentos são difíceis por si sós; que ter um emprego não é o mesmo de ter satisfação profissional; que um amasso muito bom não é o mesmo que um orgasmo; que uma briga com os pais pode não terminar bem; que morar sozinho não o mesmo que ter independência financeira e emocional; e, principalmente, que seus aniversários passam muito, muito rápido mesmo.

Assim, começamos a nos proteger, a procurar estabilidade e segurança, mais do que qualquer outra coisa. Sei que 26 anos não é idade para se falar em abdicação de paixão em troca de conforto, mas já é idade suficiente para sentir que este dia pode chegar. Um dia em que o cansaço de uma vida vivida, sem parar, vai bater, e você vai procurar conforto e constância.

É dificílimo aceitar isso. Aceitar que se fica, sim, velho demais para ter o cabelo azul, piercing na língua, para se passar a noite inteirinha bebendo cerveja, fumando cigarros e conversando a respeito de nada além de suas bandas preferidas e de quem são os artistas bonitos e quem são os charmosos.

É dificílimo aceitar que não se consegue enxergar a graça que se enxergava em tantas coisas aos vinte. Deixa-se o príncipe encantado e começa-se a procurar aquele companheiro. Deixa-se o sonho de viver de ideologias, só viajando pelo mundo e começa-se a aceitar que um emprego fixo seria maravilhoso. Muitos consideram isso pura acomodação. O que, até certo ponto, é verdade. Mas eu agora sinto que, mais do que acomodação, o que se faz é concessão. Aquela concessão da qual eu falei acima. Concessão que se faz para viver bem, tranqüilo, seguro e, espera-se, feliz.

Infelizmente, eu me encontro bem no limbo. Naquele meio termo infernal entre a loucura e a falsa liberdade dos vinte e poucos, e a sanidade e a contenção consciente e libertária dos trinta. Assim, continuo tentando proteger a criança, a adolescente e a mulher de vinte e poucos que já fui, e, ao mesmo tempo, abrindo caminho para a trintona que serei.



setembro 15, 2005

HUM...MELHOR LER PARA SABER


HOJE EU VOU APELAR. NUNCA FIZ ALGO TÃO OUSADO. TAMPOUCO TÃO RIDÍCULO. MAS ME DEU VONTADE. ENTÃO, POR FAVOR, AGÜENTEM.
SÓ PARA ME JUSTIFICAR, EXPLICO QUE PAREI PARA PENSAR A RESPEITO DE MULHERES QUE ADMITEM ESTAR DESESPERADAS PARA ARRANJAR UM NAMORADO. AQUELA COISA BEM ESTILO SEX AND THE CITY MESMO.
APESAR DE NÃO TER TIDO TANTOS NAMORADOS NA VIDA, PERCEBI QUE CERTAS CARACTERÍSTICAS SEMPRE FACILITAM ESTE PROCESSO. CLARO QUE JÁ PASSEI POR FASES DE DESESPERO E, POR ISSO, AGORA, SÓ VOU FAZER UMA BRINCADEIRA E DAR 5 GRANDES DICAS PARA SE ARRUMAR UM NAMORADO. AMIGAS CASADAS, DESCULPEM-ME, MAS ESSA É PARA AS...

SOLTEIRAS E DESESPERADAS

Muitas mulheres acreditam que o fato de não conseguirem arrumar um namorado tem sua máxima culpa na celulite, na gordurinha, no cabelo crespo. Mentira. Já fui muito solitária sendo magra e bem mais paquerada sendo gordinha. O problema mesmo é falta de auto-estima, de auto-conhecimento, de equilíbrio emocional. Então, aqui vai a regra nº 01:

ESTEJA BEM. Essa foi a frase mais abrangente em que consegui pensar. De fácil, “estar bem” não tem nada. Afinal, não estou falando de estar magra, rica, de escova, só passeando. Todo mundo se sente bem estando com essa vida. Estou falando de um investimento pessoal e muito profundo. Ter uma auto-estima é o primeiríssimo passo para se encontrar um companheiro. A falta desta característica tão importante gera insegurança, que gera excesso de ciúmes, brigas inúteis, comportamento infantil e joguinhos de poder. Isso nunca agrada ninguém. Pelo menos, ninguém que eu considere válido para um namoro. Por isso, para se estar bem, deve-se gostar verdadeiramente de si mesma, ainda que pobre, gordinha, ainda que cometendo erros. Outro aspecto importantíssimo da auto-estima se refere aos erros. Quando as coisas dão errado, incluindo relacionamentos, pode apostar que a “culpa” é basicamente das más escolhas. Todo mundo toma uma decisão errada aqui e ali, mas quem não tem auto-estima, não confia nas próprias escolhas, aí abre mais margem para escolher errado, e, pior, acaba nunca assumindo a responsabilidade que deveria assumir quando as coisas dão errado. Ame-se e suas escolhas virão mais facilmente. Para isso, vale investir em terapia, auto-análise, momentos de isolamento e exercícios diários de amor por si mesma.

Todo mundo pode dizer “UFA!”! Mas relaxem. Essa é realmente a regra mais difícil e, com certeza, a mais demorada para se alcançar. Não precisa achar que só vai arranjar alguém depois de 6 anos de terapia, não. Só de se estar procurando um equilíbrio próprio, você já estará mais próxima de alguém. Só que esse alguém nem sempre é o alguém que nós achamos que deveria ser. Por isso, aí vai a regra nº 02:

ABRA OS OLHOS. Outra frase beeeem resumida para poder soar como dica de auto-ajuda, viu? Abrir os olhos significa esquecer o homem que existe na sua cabeça. Mate-o. Falando sério. Pare e olhe ao seu redor. Não seja preconceituosa. Gordinhos, nerds, tímidos, desastrados e quebrados também amam, também podem ser bons de cama, também podem te fazer muito, muito feliz. Não estou falando de abaixar os padrões e agarrar o primeiro baixinho, gordinho e careca que passar na frente. Eles também podem ser escrotos e péssimos namorados. O que estou dizendo é para você parar de PROCURAR UM HOMEM e começar a CONHECER PESSOAS. Sentar, conversar, ouvir sobre a vida do outro, tudo isso é muito válido. Se não terminar em namoro, pode muito bem terminar numa amizade, o que é maravilhoso. É dando essa chance àqueles que não cabem no seu padrão que você se surpreeende. O cara que não tem o mesmo estilo que você em aparência, pode ter intensas afinidades com você num nível emocional, espiritual ou sei lá. Então, aprenda: o homem dos seus sonhos não é necessariamente o homem da sua vida. E a vida é sempre mais interessante.

Essa regrinha nos faz pular para uma muito importante. A regra nº 03:

TENHA UMA VIDA SOCIAL. As exceções são muitas. Eu mesma conheci meu dito cujo bebendo cerveja às 3 da manhã numa padaria 24 horas. Conheço casais que se conheceram em boates ou bares. Mas, no geral, o namorado em potencial não é um estranho no boteco, mas o amigo, do amigo da sua amiga, que você conheceu na festa da prima do seu cunhado. Pode saber, existem festinhas íntimas que nem são tão loucas, nem constituem uma balada, mas é lá que pode estar aquela conversa que dura a noite toda. Mantenha-se em companhia de grupos diferentes. Aceite aquele convite meio educado demais para uma reuniãozinha de um quase estranho. Pode ser um pouco cara-de-pau. A gente vai te entender. Além disso, quando você investe numa vida social, você está investindo em novas amizades e em grandes distrações. E é impressionante o que pode acontecer quando você está curtindo sua vida distraidamente...

Vida social não enseja em abdicação da vida individual. É nela que se concentra a regra nº 04:

FAÇA O QUE TE FAZ FELIZ. Essa regra está em direta relação com a nº 01. É também um investimento pessoal e profundo. Eu sei que quase ninguém pode se dar ao luxo de trabalhar com aquilo que ama. Mas sempre procure fazer coisas que você realmente gosta. É naquele curso de poesia, na aula de pintura, no curso de francês, na escalada de fim de semana, que você vai encontrar alguém com, no mínimo, um ponto de afinidade com você. Quando você está fazendo o que gosta, você fica feliz, e quando você fica, você pára de procurar a felicidade em outra pessoa. E eu não preciso dizer que quando você finalmente sente que um bom relacionamento seria maravilhoso, mas não a salvação da sua vida, BUM!. Sempre pinta alguém. Porque ninguém quer um infeliz que já chega na rua com aquela cara de “salvem-me!”. É responsabilidade demais para alguém que nem te conheceu ainda, tentar te carregar para o mundo. É por isso que eu digo: Conquiste o seu mundo, da forma que for melhor para você. Depois disso, um amor se torna um bônus, um extra na sua vida maravilhosa e aí...é tudo de bom!!!

Tudo muito lindo, muito fofo. Mas nem tudo são flores. Tá pensando que a vida é bolinho?? Por isso a última regra é meio forte. Mas eu considero bem verdade. Regra nº 05:

CUIDADO COM O QUE VOCÊ DESEJA. Como todas essas regrinhas mostram, muitas vezes o que queremos não é um namorado, mas um pilar, uma segurança, um incentivo, um estímulo, um salvador. Quanto mais você investe em você, mais fácil fica de se escolher alguém. E isso é bem melhor do que ficar sempre esperando ser escolhida. Se pergunte se o que você quer é amar e se entregar para uma pessoa, ou se, na verdade, você tá meio afim de uma massagem no ego. Se você tiver certeza de que quer um amor, saiba que é fooooooooda!!!! Relacionamento sério não é para qualquer um, não. Envolve concessão, compromisso, lidar com surpresas e, principalmente, constante renovação. Arrumar um namorado é infinitamente mais fácil do que manter um. E não estou falando, é claro, de manter a qualquer custo. Hellooooo! Estou falando de manter-se feliz ao lado de alguém. Lutar pela sua individualidade ao mesmo tempo em que se quer estar junto. Parece complexo demais? Tô meio viajando, talvez. Mas pare e pense. Se chegar à conclusão de que realmente quer, amiga, boa sorte e vai com tudo!!!

setembro 01, 2005

AS MULHERES E SUAS IMPLICÂNCIAS

Devido à destruição neurológica provocada pela comemoração do meu aniversário neste fim de semana, não me recordo ao certo por quê comecei a pensar nas mulheres e seu jeito implicante. De qualquer forma, a afirmação que martelou meus ébrios ouvidos foi a de que “as mulheres implicam com os homens, porque se importam com eles.”

Na verdade, pouca gente tem noção que essa implicância advém do poder feminino de observar detalhes. As próprias mulheres têm medo deste poder em outras mulheres, pois elas sabem que são capazes de ver tudo: as estrias da modelo na revista, a etiqueta que não foi retirada do sapato novo, a marca de calcinha numa calça justa, a tarracha dourada do brinco prateado, os cravos, as espinhas, o blush mal aplicado, a unha roída, o esmalte de puta, o batom cintilante, o celular na cintura, a calça “saint-tropeito”, a axila não depilada, a raiz preta no cabelo loiro, a roupa de marca fantasma, o que se compra, o que se pede, o que se come, o que se bebe, o que fala e o que se deseja. É quase uma obsessão, NADA NOS ESCAPA!

É claro que para certas pessoas – entenda-se, homens - essa característica tão feminina tem duas nomenclaturas dependendo da situação:

1) Se a implicância for com eles, chama-se TPM;
2) Se for com outras mulheres, chama-se INVEJA.

Esta segunda nomenclatura é resultado de uma visão deveras limitada! Não condiz muito com a realidade. Afinal, a “Brit” é mesmo uma baixinha, a “Angel” tem silicone na boca, sim senhor, a revista “P.B” usa PhotoShop e a “Gi” tem um IMC (Índice de Massa Corporal) de uma somaliana desnutrida!

Tá bom, tá bom. Acho que TALVEZ essa segunda nomenclatura, que as mulheres modernas e independentes deste mundo não poderiam nem pronunciar por ser tão politicamente incorreta, tenha seu espaço nas sessões de implicância com a vida alheia. Mas que tentamos disfarçar, tentamos. Somos capazes de falar num tom de duquesa britânica que “claro que fulana é bonita, é rica e famosa, mas só estou dizendo que ela tem um gosto terrível e dá pra ver que ela é cheia de celulite!”.

Uma frase dessas está sutilmente disfarçada pela diplomacia, mas muitas vezes o que se passa em nossas cabeças é que “essa J.Lo tem jeito de garota de programa, fica tirando onda de latina, mas é de Nova Iorque, tem um corpo que me faz chorar sangue a cada vez que é esfregado na minha cara pela televisão e pode, mesmo que seja pra criar o conjunto mais brega do universo, comprar todas as marcas que provavelmente nunca poderei ter!”

Satisfeitos? Acabo de admitir que, às vezes, nossa diplomacia esconde, sim, uma invejinha. Mas ela é bem pequena. Uma invejinha inocente de nada, tá? Eu sou mais eu, mesmo. Fiquei sabendo que a Cleo Pires é comunzinha e hiper “rodada”. Acho que a inveja é um sentimento que não devemos incentivar. Você já viu a Avril Lavingne sem maquiagem? É o cão! Acho que a base de uma boa auto-estima é se contentar com aquilo que temos. E a Cameron Diaz?! Como alguém acha aquela lombriga bonita??! Dessa forma, procuro sempre evitar comentários maldosos, estimulando minha consciência a respeito deste sentimento tão prejudicial.

Agora, com relação à implicância feminina com o comportamento masculino, a dinâmica, a meu ver, toma contornos e formas completamente diferentes.

As mulheres não dão a mínima para os detalhes de um sujeito se ele não é, nem de longe, objeto de seu desejo. Se ele come de boca aberta, se dirige mal, se usa roupas feias, isso tudo será irrelevante na mesma proporção em que o rapaz é irrelevante na sua vida.

É claro que a falta de intimidade também impede comentários mais específicos. Se você não é ficante, nem amiga do rapaz, fica mais difícil avisar para ele que Miami Vice e seus ternos com ombreiras de 2 metros de largura e cores néon deveriam ficar para sempre presos na década de 80.

Só que quando já se está numa relação...ih, meu amigo, a coisa toda muda. Elas vão se meter no seu guarda-roupa, nos seus hábitos alimentares, no seu livro de etiquetas (ou na falta dele!), no seu círculo de amizades e no familiar, também. Assim: quanto mais relevante o rapaz, mais relevantes os seus detalhes. Afinal, são estes que os levam à perfeição, não é mesmo?

O único problema é que dois resultados desastrosos para este tipo de atitude têm se apresentado: o primeiro é quando a mulher começa a namorar um Shrek, o transforma num príncipe e ele a larga para ficar uma mulher “mais adequada ao seu novo “eu””.

Não há nada mais triste e revoltante do que isso. São aquelas mulheres que incentivaram o marido a arranjar um emprego, seguraram a barra até ele crescer profissionalmente, cuidaram dele, ensinaram aquilo que sabiam e “poliram” sua imagem estética com presentes de aniversário certeiros. Tudo muito lindo, muito companheiro. Só que depois de tantos anos e tanto trabalho, a mulher pode já estar cansada, gordinha, abatida pela idade, e é nessa hora que ele – entenda-se, o imbecil mal agradecido – sente necessidade de procurar alguém 20 anos mais nova, 07 tons mais loura, 250ml mais peituda.

O outro resultado desagradável é quase a situação inversa e também tenho visto bastante. Acontece quando a mulher, na sua busca pela perfeição, muda tudo no cara, suas roupas, seus amigos, seu estilo de vida, enfim, molda tanto o namorado que acaba criando um novo ser. Aí larga o bichinho na rua da amargura dizendo que ele não é mais a pessoa por quem ela se apaixonou.

Esses dois exemplos são de pessoas que perdem a chance de curtir os defeitinhos do outro. E, gente, defeitos também são legais. Muitas vezes a tacada final para você se apaixonar é um cabelo desgrenhado, um pijama engraçado, uma risada menos convencional. Enfim, algo que você descobre que é tão especial e tão único daquela pessoa.

Tudo muito complexo, não é mesmo?

Por isso, como em todos os assuntos complexos sobre os quais eu já escrevi, a chave é equilibrium. Não é necessário criticar ferrenhamente a característica feminina da implicância porque ela representa também coisas boas: um olhar apurado, capacidade de prestar atenção a detalhes, vontade de tornar as coisas mais belas e melhores.

Mas também podemos nos conter um pouco na hora de fuzilar nossas “concorrentes” e, principalmente, na hora de tentarmos anular tudo o que há de original e genuíno em nossos sapos para que eles se tornem príncipes, muitas vezes, chatos.

Se isso não for motivo suficiente para você controlar sua implicância com seu ditos cujo, lembre-se que os homens já aprenderam a respeito de manicure, depilação e escova progressiva. Para eles aprenderem a implicar com sua celulite e suas olheiras, pode ser um pulo...

agosto 17, 2005

JOGUINHOS DE SEDUÇÃO

Em um de meus devaneios a respeito do comportamento feminino, me deparei com uma constatação deveras chocante. Praticamente todas as mulheres que conheci na vida, fossem elas feias ou lindas, arrumadas ou relaxadas, econômicas ou esbanjadoras, yuppies ou hippies, já rejeitaram alguém por ter sido “disponível demais”.

Até eu, euzinha, na época de adolescente gorducha e depressiva, no aaauge da solteríce – para não dizer solidão – já mandei pastar um cara porque ele me ligava demais, e ficava no meu pé demaais, e grudava demaaais.

Mas, parando para analisar, percebi que, ao mesmo tempo, nós – mulheres – quando já dentro de um relacionamento gostamos dessa disponibilidade excessiva, dessa compreensão infinita. É estranhérrimo: depois que o namoro começa, queremos os telefonemas, o grude, a pegada no pé! Mas até lá, o cara precisa fazer um jogo, se mostrar interessado e depois indiferente, encantado e depois acostumado. Eu até li um artigo de um psicólogo que afirmou que intermitência é a qualidade que mais dá durabilidade aos relacionamentos!!!

Então, garotinhos e garotinhas, a palavra do dia é: IN-TER-MI-TÊN-CIA. Dá um pouquinho, tira um pouquinho. Aparece um pouquinho, some um pouquinho. Mima um pouquinho, gela um pouquinho. E o pior, gente, o pioor, é que as mulheres parecem adorar isso no estágio da paquera! Elas – leiam pausadamente para dar o efeito das etapas - esbarram em alguém na night (pausa), gostam da aparência física dele (pausa), trocam algumas idéias com ele (pausa), dão seus números de te-le-fo-ne (pausa), MAAAAAAS, AIIINDA ASSIIIM (pausa como se olhasse meio de lado para um público masculino atônito), “broxam” quando o cara liga logo no dia seguinte, quando eles ligam mais de uma vez ao dia, se eles demonstram interesse em namorar cedo demais, se eles acham normal conhecer seus pais depois de apenas uma semana de “rolo”, “ficada”, “pegação”.

Em um resumo bem didático: as mulheres, no estágio de sedução, querem um Dom Juan, alguém cobiçado, mulherengo até. Alguém que as faça sentir como se estivessem “arrancando” um produto valioso do mercado da paquera, a contra gosto das outras concorrentes. MAS, no minuto em que a paquera se fortalece e demonstra possibilidades de se tornar algo mais sério, elas passam a ESPERAR que aquele mesmo Dom Juan, o mesmo cobiçado, o mesmo galinha, aquele produto desejado pelas outras mulheres, se transforme MAGICAMENTE num rapaz tranqüilo, apaixonado, casadoiro, com cara de futuro papai, que queira conhecer a sogrinha, ir ao cinema todo domingo, largar o futebol de quarta com os amigos, parar de olhar para bundas na rua, enfim, pronto para amá-la e ser feliz ao seu lado para sempre.

Sacou, agora, porque é que tem tanta mulher solteira reclamando dos homens?

Eu entendo que tem homem demaaais indo para o outro lado da Força, ou seja, interessado num espadão a laser. Eu também entendo que tem homem demaaais que de tão chatos, tão burros e tão nojentos não possam ser considerados parte relevante do mercado da paquera. E, finalmente, eu entendo que o fato de a quantidade de mulheres exceder a quantidade de homens não é, nem há quilômetros de distância, um fator de motivação.

Mas eu acredito que se as mulheres dedicassem a sua atenção àqueles homens meio tímidos, meio fora do padrão estético (mas não tãão fora, é claro! Ninguém quer namorar alguém que foi a placenta e não o feto na barriga da mãe!), que andam meio escondidos por aí, elas veriam que existem homens que querem conhecer alguém de verdade, se apaixonar de verdade e namorar de verdade. Basta se abrir um pouco mais àquelas possibilidades que, com base em um critério na maioria das vezes fútil, você descartaria sem pensar uma segunda vez.

Então, mais uma vez, é isso. Não sei como cheguei a essa conclusão. Só sei que foi assim...

AH! Só para concluir, vamos lembrar que eu não estou vendendo nenhuma fórmula para namoro, viu? Não vai pegar um cara qualquer só porque ele senta no fundo da sala, não fala com ninguém e tem aparência estranha achando que ele pode ser seu futuro namorado! Às vezes o que o rapaz esconde não é seu lado casadoiro e, sim, o psicótico!

agosto 03, 2005

O assassinato dos pais

Crianças, afastem-se da jaula deste texto! Muito cuidado nessa hora, pois, para vocês, os pais ainda são criaturas infalíveis e incapazes de lhe desejarem o mal! Eles ainda não se tornaram aqueles meros adultos que, como você, fazem merda o tempo inteiro, erram pra caramba e, sim, podem não ser tão bons para os próprios filhos...


Todo mundo, independente do nível de intimidade com os pais, deve, em algum ponto da vida, cometer um homicídio. É o homicídio emocional dos nossos pais.

Sabidamente, quando alguém termina com você e a sua impressão geral do mundo é a de que nada tem cor - tudo é péssimo, horrível, você quer chorar o dia inteiro, tomar um pote de sorvete de chocolate com amêndoas da La Basque e assistir a filmes de romance por 72 horas seguidas - a melhor forma de superar essa fase horrorosa é matarmos aquela pessoa na nossa cabeça. Pensamos nos defeitos, reprisamos os momentos ruins na cabeça, falamos mal, criticamos a roupa, os modos, até termos a sensação – depois de bastante tempo, é claro – de que “Caracas, no que é que eu estava pensando quando fiquei chorando por aquilo?!”.

Com os pais, a coisa é parecida. Para virarmos verdadeiros hominhos e muiezinhas precisamos assassinar nossos pais mentalmente, para que a opinião deles sempre passe por nosso julgamento, nossa crítica, nosso crivo.

É claro que este tipo de homicídio emocional é saudável e pode ser feito, muitas vezes, com a ajuda das vítimas!! Sim!! Os pais que sabem da importância da independência emocional, como fundamento de uma vida plena e de uma auto-estima consolidada, existem! Eles estimulam os seus descendentes a construírem uma vida própria, fazendo com que seus conselhos sirvam como uma ajuda e não como obrigações a serem seguidas ou cumpridas.

Mas, infelizmente (ou felizmente?), existem milhares de categorias, classes, filos e subdivisões de pais! Os liberais, os conservadores, os religiosos, os bonzinhos, os escrotos, os fanáticos, os solitários, os agrupadores, os malandros, os de primeira viagem e os que nem sabem mais os nomes de todos os filhos, tendo em vista ser impossível decorar 79.6 nomes diferentes.

E em meio a essas categorias bio-psicodélicas, existem os pais que não querem a independência dos filhos. Não!! Eles querem, para sempre, uma muleta emocional para eles. Eles querem poder controlar alguém através da dependência financeira. Eles querem poder dar conselhos infinitamente, sem que esses conselhos sejam barrados pelo bom senso de ninguém, muito menos da CRIA deles.

É aquela mãe que só considera filho aquele não foge da trilha que ela trilhou, que não a abandona jamais por um namorado ou namorada e, muito menos, por um marido ou esposa!! “Como assim ser trocada(o) por um (a) babaca qualquer?!”, “Fui eu quem criei, amamentei, sustentei, agüentei, e agora vai deixar de fazer o que EU quero para ter uma vida própria? De jeito nenhum!!!”. Sim, senhoras e senhores, há mães assim, há pais assim.

São os pais que não têm pudor em mentir, fofocar, maltratar, prejudicar. É triste, muito triste essa possibilidade. Mas ela existe. Basta entrar no orkut, e ler os depoimentos nas comunidades “Eu odeio a minha mãe”, “Mãe boa é mãe morta”, “Minha mãe é uma escrota”, “Minha mãe é neurótica”, “Odete Roitman é minha mãe”, “Vontade de bater na minha mãe”, “Minha mãe só quer me fuder”, entre outras (com certeza existem equivalentes masculinos).

Tá bom, tenho certeza de que quem acabou de ler isso deu uma risadinha. Afinal, esses nomes esdrúxulos seriam cômicos se não fossem trágicos. Por isso, façamos uma pausa e exorcizemos o lado cômico da coisa: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! ODETE ROITMAN É MINHA MÃE????!!! HAHAHAHAHAHAHAHAH!!
(tentando recuperar o fôlego)
Hehe.
(recuperando mais)
Ai, ai.
(fôlego recuperado)
Ok, voltando ao assunto. Acabou a história de achar que pais são melhores simplesmente porque são pais. É saudável parar e analisar se as decisões deles para a SUA vida são realmente as mais acertadas. Vale, também, apesar desta noção ser cruel, analisar se eles realmente só querem o SEU bem ou o bem DELES.

Então, analise, e, se possível, converse. Cresça, confie nas suas decisões também, aprenda com seus erros, e receba a ajuda de seus pais quando for apropriado. Receba seus conselhos quando for conveniente.


Mas, POR FAVOR, não vai levar esse texto pro lado concreto da coisa e dar uma de Suzanne Richthofen, viu? Do jeito que a coisa anda no mundo, podem me fazer de cúmplice...

julho 04, 2005

NATURALMENTE FREUD

Não me pergunte por quê. Eu não saberia responder. Não me pergunte como. É um processo natural.
Eu acho que devem ser esses traços obsessivos e compulsivos que, supostamente, todo mundo tem um pouco. Acho apenas que meus traços passaram um pouco da conta.

Ninguém tá entendendo o que eu estou falando? Estou falando de uma característica que atormenta tanto a quem a possui quanto a quem não a possui, mas convive com ela: a mania de analisar tudo.

Meu nome é L. e, sim, eu analiso tuuuuuuudo. Comecei aos quatro anos de idade perguntando “pôquê?”. De repente, nada é aquilo que parece ser. Cada frase tem uma mensagem escondida que faço questão de decifrar. Não me venha com “não quis dizer nada com isso” porque EU SEI que você quis dizer alguma coisa específica. Mesmo que VOCÊ ainda não saiba disso.

Uma mudança no jeito de andar, de comer, de conversar, de respirar...tudo quer dizer alguma coisa. O que estou querendo dizer com isso? Nada...

Sem querer excluir nossos amados obsessivos-compulsivos do gênero masculino (conheço vários), mas as mulheres são especialistas em análise obsessiva-compulsiva. E nossos maiores exercícios são nossos re-la-cio-na-men-tos.

Eu tenho a nítida impressão de que, quando éramos crianças, foi sutilmente incluído em nossos currículos escolares a matéria “como enlouquecer seu parceiro e você mesma, fazendo perguntas que provavelmente jamais serão respondidas satisfatoriamente”. Talvez com um título deste, esta matéria não passasse tão despercebidamente, mas AINDA ASSIM, alguém deve ter nos ensinado a analisar tudo incessantemente.

Afinal, como é que mesmo as meninas mais inexperientes, sabem, de forma aparentemente instintiva, sair questionando cada atitude, andada, comentário e espirro de seu objeto de desejo? Como é que acabamos nos tornando “naturalmente freuds”?

Pode tirar deste cenário o bom e velho divã, ele foi substituído pelo bom e velho boteco. Sim, as emancipadas, modernas, independentes, beberronas e fumantes também ficam obcecadas com as mensagens subliminares que estão em todos os lugares e, principalmente, nas palavras masculinas, e elas se encontram para sessões terapêuticas obsessivas no boteco.

As vozes não param. “Analisando todos os fatos que eu apresentei, o que vocês ACHAM que ele QUIS dizer?”, “Estou sentindo que o comportamento dele mudou, ACHO que ele está estranho, deve ser uma dificuldade de se relacionar!”, “Tô ACHANDO que ele quer terminar, sempre ACHEI que ele tinha relacionamentos mal resolvidos!”, “está MAIS OU MENOS CLARO que ele tá me chifrando, pois eu tenho certeza QUASE absoluta de que ele tem um leve distúrbio de personalidade!”.

E viva o álcool, pois se as mulheres de uma mesa desta não desmaiam por conta da bebedeira, esta conversa só termina quando elas tiverem certeza de tudo. Ou seja, NUNCA.

Não pensem que estas análises são fúteis só porque se referem a homens e relacionamentos. Primeiro, porque é uma ilusão achar que este assunto não compõe uma parte enooorrrrme de nossas vidas. Segundo, porque elas são - em vários casos, pois, sim, existem as questionadoras fúteis disfarçadas - apenas um reflexo do poder de questionamento obsessivo. Questões sobre morte, vida, destino, razão, sentimento, fim do mundo, esperança, também estão incluídas no rol de perguntas intermináveis das questionadoras.

E a compulsão nessa história? Aonde fica? Fica no fato de não conseguirmos parar!! Ela está lá quando não conseguimos dar de ombros a um comentário que julgamos ser mais agressivo que o normal. Está ao seu lado quando você não consegue dormir pensando nas ramificações e conseqüências de alguma briga.

Em resumo: É FODA.

E assim, nós, obsessivas-compulsivas-analíticas, seguimos nossos caminhos rumo à resposta que nunca virá. Você não concorda? Não? Por que? Exatamente o quê na sua história de vida faz você acreditar que estou errada? Ah, você não disse que eu estou errada? Mas com certeza quase absoluta você achou que isso foi só bobagem, né? Você tem algum transtorno de personalidade? Você se dá bem com sua mãe?

junho 22, 2005

FALTA DE RESPEITO: má-criação irreparável ou lapso inevitável?

Com toooodos esses anos de vida que carrego nas costas e nas rugas, consegui perceber, já há algum tempo, que a perda do respeito num relacionamento, e quero dizer em QUALQUER relacionamento, seja ele amoroso, fraternal, parental ou amigável, não depende de má-educação ou de uma tendência inata ao desrespeito em geral. Quero dizer, até mesmo quando se é uma pessoa boa, até mesmo quando se ama, pode-se perder a noção do respeito pelo outro. Eu acho.

A maior prova disso são as brigas que se têm com os pais. Sei que muitas pessoas – provavelmente a maioria – não foram criadas por pais hippies, como eu, que, traumatizados com a opressão militar da ditadura, abriram as comportas da dinâmica “pais-e-filhos” e puseram abaixo a hierarquia existente nesta relação há tantos séculos. Ainda assim, acho que muita gente, uma vez ou outra, já berrou atrocidades ofensivas aos pais, num momento de raiva descontrolada. Na adolescência, então, quando os hormônios fazem você ficar meio louco, acredito que é mais fácil ainda perder o respeito pelos pais, mesmo que momentaneamente.

E essa é a evidência número 1 a ser juntada aos autos, senhores jurados: pode-se amar os pais, saber que eles são bons pra você, mas, ainda assim, mandá-los às putas-que-os-pariram. Tá vendo? De lambuja, foi-se aí até o respeito pelas avós!

Os amigos também não escapam. Aliás, principalmente aqueles(as) amigos(as) mais antigos, com quem já se criou um tipo de vínculo que pula, com a maior facilidade, da intimidade para o abuso. Quem aqui nunca ficou meio agoniado com aquele(a) amigo(a) que já nem te pede carona, mas simplesmente presume que se você vai a algum lugar, vai, certamente, levá-lo(a) também?

Ou então, o(a) amigo(a) “financeiramente aleijado(a)” - como eu fui durante tantos anos - que se acostuma com as coisas sendo pagas pelos outros? Aquele(a) que fala as coisas pra você sem pensar direito, aquele(a) que não percebe quando a situação está te incomodando, aquele(a) que não entende que certos comportamentos não são apropriados numa festinha de aniversário familiar, como colocar Iron Maiden na maior altura sem reparar que sua avó tá tendo um derrame por causa do som.

Tudo isso, de certa forma, é falta de respeito. E é o tipo de falta de respeito que só pode ser cometida por quem está muito próximo de você, ou seja, é o “fogo amigo” no âmbito social (OBS: não quero ofender a inteligência de ninguém, pois eu mesma não sabia o significado da expressão “fogo amigo”, mas, pra não ficarem dúvidas pairando na sua cabeça até você terminar o texto, aqui vai uma explicaçãozinha: quando em meio à confusão de uma guerra um soldado é morto, acidentalmente, por um colega, isso é chamado de fogo amigo, equivalente, agora, graças a mim, à falta de respeito por parte de uma pessoa muito próxima).

Essa é a evidência número 2, meus caros membros do júri: você pode ter uma amizade de anos, confiar plenamente em alguém e, ainda assim, abusar ou sentir que abusaram da intimidade existente entre vocês.

Evidência número três. Essa é das mais complicadas, porque os relacionamentos amorosos, normalmente, são os mais complicados.

Quem nunca abusou da paciência ou da dedicação ou da disponibilidade de um(a) namorado(a)? Se você respondeu que “nunca”, é porque não só faltou o respeito como um pouco de “semancol” (anos 80 discontrol!!!) nessa sua cabeça!!! Todos nós já falamos e agimos de forma abusiva e desrespeitosa com quem amamos. E vice-versa também, é claro.

Assim, a prova de número 3, senhores(as), se resume da seguinte forma: pode-se estar apaixonado e pode-se estar muito bem no namoro, aberto ou fechado, ou no casamento, aberto ou fechado, ou na ficada, prolongada ou de uma noite só, ou no rolo, extensivo ou the flash, ou no “acho que o mundo moderno abriu um leque extenso demais para definir os relacionamentos”, E, AINDA ASSIM, esquecer de dar uma satisfação por não ter ligado, deixar de apresentar para os amigos, passar em branco uma comemoração, levantar a voz sem necessidade, não agradecer um sacrifício, não reparar uma roupa nova, não consolar um choro, não agüentar uma TPM, não enfrentar um inimigo, não falar, não fazer, não qualquer coisa.

Com certeza tem alguém pensando: que exagero, isso tudo aí não é falta de respeito (não sei porque quando imagino esses comentários que considero impetulantes ouço num sotaque carioca!). Mas, covenhamos, se fosse com você, do que você chamaria?




junho 03, 2005

INSEGURANÇA FEMININA, TERRITÓRIO MASCULINO.


Obs1: Este texto contém uma infinidade de palavras chulas. Se você se ofende facilmente, não leia.
Obs2: Este texto é meio longo. Se você tem preguiça de ler, vai adquirir um pouco de cultura, caralho!!!!


Se pararmos para analisar, toda mulher - até a mais poderosa, arrogante, confiante e linda – já se sentiu ameaçada por outra.

O engraçado é que a maioria das mulheres que já se sentiu como uma garotinha boba e sem reação frente a uma outra mulher que deu em cima, ou agiu de forma excessivamente cordial com seu namorado, marido ou parceiro, tende a acreditar que é a única boboca do mundo. E pior. A maioria acredita que suas amigas ou conhecidas que sejam altas, magras, loiras, trabalhadoras, independentes e bem cuidadas JAMAIS se prestariam ao papel de namoradinha jogada pra escanteio. Mas vai por mim: todas já fizeram isso.
Um dia qualquer, uma amiga que considero linda e inteligente e que namora um cara maravilhoso, por quem tenho uma paixão literalmente fraternal, chorou por ele ter passado sei lá quantos minutos conversando com uma menininha qualquer sem apresentá-la. Essas meninhas são foda. Elas não fazem a menor questão de perguntar quem é a pessoa que está ali, na área de escanteio, obviamente só esperando a conversa acabar, ou ser incluída na mesma. Sabendo que ele jamais faria isso de propósito ou por maldade, eu enxerguei ali uma nova variedade do espécime masculino.

Dentre os homens – uma categoria na maioria das vezes tão unida e uniforme, verdade seja dita – há uma infinidade de caráteres, índoles e comportamentos. É claro que os machos escrotos serão sempre submetidos a nossos julgamentos mais ferozes: Fela De uma Puta, traidor, galinha, sacana...pra dizer o mínimo. Mas muitas vezes acusamos de forma implacável o homem que erra - sem querer ou perceber - na hora de agir em conformidade com o desejo de uma mulher. Deixem-me esclarecer: até o homem fiel é tapado o suficiente para te fazer acreditar que é um escroto.

Ah, tá. Não podemos esquecer os sonsos. Uma sub-categoria do escroto que na verdade só sabe fingir melhor que “não percebeu o que estava fazendo”. Mas vamos nos concentrar naquele homem tido como uma raridade na humanidade atualmente: o fiel-genuina-e-levemente-tapado.
Outra verdade seja dita: esse tipo de homem consegue ser, às vezes, mais irritante do que o escroto. Mas por quê?

Para tentar chegar a uma conclusão, só posso, como sempre, fazer uso das minhas experiências pessoais.

Há algum tempo estávamos eu, meu dito cujo e mais uma galera sentados em uma mesa de boteco, fazendo o que se normalmente faz em boteco, ou seja, bebendo e falando merda, quando senta-se à nossa mesa um daqueles tipinhos infelizes de mulher, que fazem de nós uma categoria tão desunida e desconfiada. Era daquelas feias, mas, ainda assim, com ar arrogante, sabe como é? Sentou-se convidada por uma terceira pessoa que eu mal conhecia.

De qualquer forma, meu dito cujo já tinha ficado com a vagabunda-dita-cuja e ainda possui amigos(as) em comum, e - espero eu - tentando ser cordial, perguntou à coisa-intrometida-vagabunda-dita-cuja como ia sua vidinha, INCLUINDO, seu filho e SEU MARIDO. Aí vieram as respostas e comentários padrão: “aaaah, tá tudo beeeem! Eles também vão beeem! Nooossa, tá tudo beeeem” (e o cuzinho, vai bem também, vaca??).

Até aí, tudo tranqüilo. Afinal toda mulher ciumenta já treinou o suficiente para fingir que não se importa quando QUALQUER mulher, seja amiga, colega, ex, freira, prima ou Margareth Tatcher vem dizer um mísero “oi” ao objeto de sua paixão. Acontece que a nojenta-coisa-intrometida-vagabunda-dita-cuja resolveu perguntar ao MEU NAMORADO o porquê dele haver “sumido”. A resposta, bem educadinha, padrão, treinada pela namorada, foi: “eu não sumi, não. Tô sempre por aí. Ah, inclusive, eu casei”.

PAUSA PARA EXPLICAÇÃO. Treinar seu namorado/marido para incluir no meio do nada a frase “ah, eu casei” ou “ah, tô namorando” e todas as variações possíveis, é muito importante no mundo atual, pois não é necessariamente de praxe as pessoas se apresentarem hoje em dia. Nem quando trazem para a mesa dos outros uma blergh-nojenta-coisa-intrometida-vagabunda-dita-cuja.

CONTINUANDO. A puta-blergh-nojenta-coisa-intrometida-vagabunda-dita-cuja ignorou por completo a informação recém-fornecida, nem virou o rosto para tomar conhecimento da minha existência, e ainda soltou – acreditem se puderem: “Nããão, sumiu da MINHA vida.”

Alguém já sentiu o próprio sangue ferver a 700ºC? Pois foi isso o que aconteceu com meu sangue na hora. Tudo que eu fiz foi olhar, de forma obviamente fuzilante, psicótica, assassina, para meu dito-cujo e esperar dele uma reação. Cri, cri, cri...ah, que novidade!!! GRILINHOS, ORA BOLAS!!!!!!!!! O cara ficou vermelho, sem graça, mas não falou NADA. NAAAAADAAAAAAAA!
Só uma mulher conseguiria me entender neste momento. Dá vontade de cortar o pau de todo ser do gênero masculino na face da terra. Dá vontade de chorar e de cometer homicídio múltiplo, qualificado. Ou melhor, genocídio. Éééé, é bem mais de acordo. Dá vontade de tomar um pote de sorvete sozinha. E o pior: dá vontade de ver a escrotidão-em-pessoa-puta-blergh-nojenta-coisa-intrometida-vagabunda-dita-cuja agonizando no meio da rua, se contorcendo por conta de uma dor que acometerá todas do tipinho dela que ousarem invadir o MEU TERRITÓRIO! Nossa, dava até para incluir uma risada satânica.
Mas sabe o que uma mulher de mente tão perversa faz na hora? Fica esperando ELE ter uma reação. Mas o tapado não terá uma reação. Então, a gente briga, acaba com a noite dos dois, pois as explicações dele jamais amenizarão o ódio criado pela situação, e chora. Chora como uma menininha, porque ELE não fez o que a gente queria que ELE fizesse.
Foi aí que resolvi levar em consideração uma "dica" dada pelo meu dito cujo, no meio da gritaria. A dica veio em forma de pergunta: "por que você está brigando comigo, se a atitude escrota foi dela"? Segunda pergunta: "por que você não se dirigiu a ela e falou alguma coisa"?
Este foi o momento exato em que percebi que defender território não é privilégio dos machos. Nós, mulheres, também achamos necessário aquele círculo de xixi para espantar os indesejados daquilo que consideramos ser campo nosso, área exclusiva. O único problema é que as mulheres aprenderam que quem tem que fazer isto por nós, são ELES. Nós esperamos que eles tomem as rédeas e resolvam a questão. Enfim, o território é nosso, mas esperamos que o comando seja deles.
Não estou dizendo que nunca devemos esperar uma reação em nossa defesa por parte de outra pessoa, mas se eu tivesse virado para a menina tão xingada anteriormente e dissesse algo como "ele sumiu da SUA vida, porque agora ele está na MINHA, queridinha! E quem chamou você para sentar na minha mesa, mesmo?", eu estaria de alma lavada e nem teria brigado com ele. O território estaria defendido, e melhor, por mim mesma.
Então, é isso. O fiel-genuina-e-levemente-tapado irrita muito exatamente porque você sente que não houve maldade, mas eles, a nosso ver, falharam ao nos proteger. Mas também seria bom se começássemos a nos sentir mais confortáveis com a idéia de que podemos, também, marcar e defender nosso território. Tudo, é óbvio, sem exageros. Afinal, fazer um dengo e dar uma choradinha são coisas que só uma mulher de verdade sabe fazer.


maio 17, 2005

A hospitalidade, a revolta.

Brasília se transformou na grande anfitriã. É a cidade hostess. Todo mundo, aparentemente, quer vir pra cá. E todos que querem vir para cá estão sendo devidamente incentivados a fazê-lo, e devidamente recompensados também.

Os árabes, por exemplo. Tiveram uma mega-estrutura à sua disposição. Os melhores hotéis, as melhores refeições, os melhores tradutores. Fala sério, até o exército se prontificou a servir nossos colegas árabes. As garotas de programa também! Enfim, todos queriam servir bem os priminhos de Osama.

O engraçado é que esses primos de segundo ou terceiro grau da Al Quaeda não estavam se sentindo tão seguros com relação à Brasília. Pois é, ELES têm os parentes terroristas, mas NÓS é que temos que prover a segurança deles! Ninguém quer saber se criancinhas brasileiras estão andando nas ruas ao lado do arame farpado e dos fuzis do exército. O importante é: assegurar a integridade física, a pontualidade, a alimentação e o repouso dos visitantes árabes para que eles possam fazer vários acordos lucrativos com a porra dos visitantes...ARGENTINOS!!!!

E foda-se se eu não consigo chegar ao trabalho porque o Eixo Monumental está fechado ou porque simplesmente os horários dos ônibus estão uma bagunça!! O meu dever é dar um jeito de chegar ao trabalho, para que, assim, eu possa ganhar um salário tão baixo que vigiar carro vira atividade com maior lucro mensal.

Só que parte deste salário serve a um oooooutro propósito. Claro, parte do MEU dinheiro se destina a receber os próximos visitantes desta cidade tãããão hospitaleira! Os visitantes? Aqueles simpáticos Sem-Terra!!! Tão bonzinhos, vítimas da má-distribuição de terras. Eu não. Tive a sorte de crescer numa cidade onde tem espaço para toooodo mundo. Aliás, lote aqui é o que não falta, né?! Mas, pensando bem, acho que vários assentamentos de sem-terra já foram regularizados, né? E também acabaram concedendo áreas inteiras para eles, né de novo? Ah, tá. Então, o que está acontecendo?

...crrri...crrri...pausa para análise...crri...crri

Já sei! O movimento dos Sem-Terra não é mais um movimento criado para exercer pressão política e, conseqüentemente, viabilizar as devidas divisão e exploração da terra pelo homem do campo!! ÉÉÉÉÉ! Sem-Terra agora é categoria pro-fis-sio-naaal!! É o mais novo e crescente mercado de trabalho!! Direito, REL e Medicina são cursos universitários do passado!!! Afinal, o governo tem dado a esses profissionais da manifestação inútil todo o dinheiro que recusou aos servidores públicos!!!!

E Brasília cumpre seu papel para incentivar essa nova profissão! É verba federal, hospedagem, água, comida...tudo para viabilizar aqueeela sentada no banquinho! A esticada daqueeeela lona preta. A montagem daqueeeeela cara de coitado! E eu, de novo, levo duas horas para chegar ao trabalho porque as ruas estão travadas pelos manifestantes e eles, é claro, não andam de ônibus como eu!!!
Ai, ai. Quem me mandou escolher a profissão errada?!

maio 03, 2005

Nós, os desastrados.

Este fim de semana parei para pensar nos desastrados.
Eu, que sou membro deste grupo desde que me entendo por gente, acabei me acostumando com os acidentes diários. Mas, parando para analisar essa bizarra e dolorida recorrência de pequenos acidentes, penso, agora, se não existe algo de mais profundo e sinistro em nossos desastres.

Quando eu era criança, eu caía tanto, mas tanto, que minha mãe cogitou fortemente a possibilidade de me fazer usar aquelas botas ortopédicas, horrorosas, oitentistas, parecidíssimas com aquelas usadas pelo molequinho da propaganda da vacina contra poliomelite. Eu, claro, recusei até a morte. Preferia ter os pés decepados. Resultado desta infância de corrida e piques pega, bandeira, cola e esconde: o joelho de "mocinha" mais fodido que eu já vi. Todo arranhado, cheio de cicatrizes.

Passada a fase de brincar na rua, veio a adolescência depressiva. Acho que tentei - inconscientemente, é claro - me matar umas três vezes. Num ataque de raiva, dei um tapa na porta do meu quarto. Até aí, nada de mais. Não fosse, obviamente, o prego inútil enfiado na bendita porta. Dói muito enfiar a ponta de um prego na mão? Ah é, meu filho? Então tenta enfiar a cabeça, nem um pouco anatômica, do prego no fim da palma da sua mão. Sim, a centímetros míseros do seu pulso. O sangue esguinchou de um jeito que comecei a achar que os filmes de terror classe Z não estavam exagerando quando aquele jato de catchup saía.

Em outro ataque, na hora de dormir - e aqui vale explicar que eu, na época, sofria de uma insônia terrível e precisava que o quarto estivesse no mais absoluto breu - o vizinho me acende um holofote virado bem para minha janela. Se eu já não estava muito bem humorada e nem um pouco descansada, aquilo foi a micro gota d'água, mais do que suficiente, para que eu transbordasse. Fui até a sala de estar e, de frente para a porta de quadradinhos de vidro, eu bradei "- Apaga essa luz, filho da p***!!!" e bati, com as mãos fechadas em punho, na porta...DE VIDRO!! Uma das mãos atravessou um dos quadradinhos e quando eu a puxei de volta vi aquele cortezinho, desta vez, cirurgicamente localizado no pulso começando a vazar sangue. Minha raiva, meu susto e meu ceticismo foram tão absurdos que consegui, ainda, num tom horrivelmente cínico dizer "- Ótimo, e agora, ainda por cima, eu vou morrer! Mas que droga!".

O terceiro acidente que não foi sob um ataque de raiva. Muito pelo contrário. Foi dançando, como uma doente mental. Lá vai o rock... Lá vou eu...dançando pulando...tropeçando...e atravessando uma janela. Não sofri nem um corte, mas o choro foi inevitável. Descontrolado. Parecia mesmo que eu estava tentando me machucar. Quem se odeia tanto a ponto de se machucar fisicamente daquele jeito?

Eu não sei se é um retardamento ou só falta de coordenação, mas o desastrado não pode seguir os outros. Cem pessoas podem executar um mesmo movimento. O desastrado pode seguir religiosamente todos os passos. Eu te garanto, ele vai cair. Como quando eu resolvi seguir a moda das porcarias de tamanco holandês, “hippizinho”, anos 70, no segundo grau. Toda menina usava aquilo. Mas aposto que só eu caí rolando na escada da Villa Lobos na frente de quase mil, sim, MIL pessoas.

Mas se o desastrado segura sua onda...lá vem os outros!!! Sabe quando pessoas que têm medo de insetos são as primeiras a serem perseguidas por eles? Pois é. As pessoas na rua escolhem a mais desastrada para darem um esbarrãozinho que se transformará num tombo catastrófico. Foi isso que me fez pensar sobre minhas quedas. Pois num estacionamento bem grande, dois amigos resolvem brincar de pular, um no colo do outro, na direção das minhas costas. E lá fui eu!!!!! De quatro. No asfalto. Sem um dos sapatos.
Bom, não sei o que leva alguém a se tornar ou nascer um desastrado. Mas pelo menos a gente tem mais história pra contar...

O tédio, o relevante


Já perceberam que quando se está entediado, ao mesmo tempo em que se quer fazer alguma coisa, nada parece te apetecer?
Assim, sentir-se entediado em nada tem a ver com a falta do que fazer. Coisa para fazer, sempre tem. Mas elas sempre parecem irrelevantes, para não dizer chatas. Acho que isso acontece porque o tédio está relacionado com a ausência de motivação, não de atividades. Para acabar com o tédio não adianta começar a organizar a papelada do trabalho. Aliás, isso dá um sono...
Para se acabar com o tédio, só uma injeção de...como chama? A balinha dos depressivos? SEROTONINA!!! É isso. Estou entediada, tenho coisas para fazer, mas o que eu preciso é de uma dose de serotonina, de relevância, diversão, descontração, motivação, riso bobo, papo furado, cerveja a pampa, um pote de brigadeiro, mau-mau, show do placebo, dormir em rede, nadar no mar, ver o pôr-do-sol, tomar banho de chuva, chorar no cinema, dançar de calcinha, gritar de susto, ouvir Billy Holliday, Nina Simone e Sarah Vaughn, comprar roupa, brincar com crianças, conversar com vó, fazer strogonoff, catar amora, jogar atari (!), entrar numa banda, "cair dentro" de um livro, conversar com estranhos, aprender a jogar sinuca, tomar capuccino, fumar um cigarro, párar de fumar, tomar banho de cachoeira, ir ao Trem Fantasma, zanzar sem rumo na UnB, pintar uma parede de rosa shock, tomar vaca preta, ver Sex and the City, transar no carro, pular corda, andar de bicicleta, sentar em calçada, ir trabalhar de chinelo, mandar alguém (que mereça!) se foder, pegar um caminho novo, dirigir sem engarrafamento, usar mini-saia, ser paparicada no salão, receber massagem no pé, reencontrar amigo das antigas, bisbilhotar no orkut, ver fotos de viagens, tirar fotos de besteiras, botar molho barbecue em tudo, brincar de gato mia, tomar coca light em rodízio de pizza, conversar ao pé do ouvido, guerra de travesseiro, brincar com cachorro, adotar um filhote, chamar mãe de amiga de "tia", reclamar de velhice aos 25, ir em festa underground, fazer o inesperado, aceitar o imprevisível e viver....

abril 07, 2005

Escritos antigos...O fim do amor

O textinho a seguir eu encontrei num caderninho de reflexões antigo e gostei. Para variar é meio tristinho mas, alerto que, em nada, tem a ver com minha situação amorosa atual...

O fim do amor é como o fim de tudo.
É a quebra do vínculo mais importante e raro do mundo.
É dizer adeus ao que há de ruim,
e ter que ver a partida forçada do há ou houve de bom.
O fim do amor é a separação dos lábios sem direito à despedida.
É o fim do aconchego e da segurança.
O fim do amor é desapegar-se de tudo que foi criado a partir dele.
É separar-se das pessoas, dos lugares e das lembranças.
É despedir-se do futuro imaginado,
e mudar o rosto do amor sonhado.
É ter que carregar outro fardo...só.

abril 06, 2005

Aqueles dias, aquele choro

Hoje é um daqueles dias. Dias de choro, de desespero.
Se você está pensando em TPM, se enganou. Não é aquele choro bobo, sem hora. É um choro de decepção, de desilusão e de raiva também. É o choro proveniente daquelas temerosas e tenebrosas constatações súbitas e negativas.
Minha constatação: não se deve esperar NADA de NINGUÉM.
Com certeza algum sabidinho vai pensar "dããã, agora que você percebeu??". Mas a verdade é que esse tipo de programação mental - o mundo é mau, não confie em ninguém - ocorre por conta do caos no mundo, não por um sentimento genuíno. SABER que as pessoas não dão a mínima a não ser pra elas mesmas, é uma coisa. Outra coisa é SENTIR que as pessoas não dão a mínima para você. Isso dói e muito.
A coisa mais importante, valiosa e escrota que aprendi com anos de terapia é que tudo é resultado de nós mesmos. De nossas atitudes. A CULPA É NOSSA. Não adianta dizer que fulano a iludiu, cicrana a decepcionou. Tudo acontece com base nas suas expectativas, nos seus parâmetros. Isso é que o pior: Ninguém te enganou. Se você parar para pensar nas suas relações ao longo da vida, você vai perceber que quase ninguém MENTIU para você. Foi você que não ouviu. Foi você que ignorou fatos reais para se apegar a uma imagem das pessoas que é ilusória, bonitinha demais.
Claro que todo mundo faz isso naturalmente, quase sem querer. O mundo já é sombrio demais para gente deixar de colocar uma corzinha por conta própria. Mas essa corzinha pode tomar proporções homéricas e o resultado é só um: DECEPÇÃO.
Hoje me sinto decepcionada. Vai passar? Claro, tudo passa. Mas que é uma merda e que não deixa de ser verdade, é. É verdade que você tem que ter restrições com as pessoas? É. É verdade que mesmo pessoas muito próximas e íntimas podem puxar o seu tapete? É. É verdade que, por nenhum motivo aparente, as pessoas podem te tratar mal, atropelar seus sentimentos, te ignorarem, te fuderem? É. Infelizmente, é.
E o que fazer quando se constata, de verdade, quando se sente, de verdade, que se está sozinho no mundo? Adaptação é uma palavra que vem em mente. Mas adaptar-se a quê? Ao egoísmo, à maldade, à desconfiança? Não sei, não. Não quero.
Então sigo o meu caminho. Quebrando a cara? Sim. Sempre? Não. Ser bom é uma coisa, ser eternamente ingênuo, é outra. Adaptar, a gente se adapta. Não a tudo, é claro. Mas aprende-se e vive-se, e até bem.
Como eu disse, esse sentimento passa, afinal, até uva passa.

março 01, 2005

AS PESSOAS, OS NÚMEROS.

Recentemente esbarrei várias vezes na expressão “restrição cadastral” – nome politicamente correto, e absolutamente irritante, para “te-pegaram-dando-calote-e-agora-seu-CPF-vale-porra”. Em qualquer lugar que se vá, alguém quer saber se você possui “restrições cadastrais”.

Por que isso? Porque, infelizmente, não existe Serviço de Proteção ao Caráter, à Personalidade, à Experiência de vida e à Generosidade, só existe proteção ao Crédito. A grande verdade é que não existem mais seres humanos. Existem números. Você não é você. Você não é alguém que já se apaixonou, que já chorou, que já perdeu e ganhou. Você não é sua vida, vivida. Você é o R.G 1254789 SSP/DF e, mais importante ainda, você é o CPF nº 456.987.526-89.

Não interessa se, na escola, você deu o primeiro beijo, reprovou em matemática e, assim, descobriu uma aptidão para a redação, se apaixonou pelo professor de educação física ou fez planos para assassinar pessoas que te sacaneavam. Você era looser ou nerd na escola? Não interessa. Você era o aluno matrícula nº12.658. Aquele, da 6ª B, 2º andar, sala 218.

Sua casa. Quem quer saber se a sua casa foi o primeiro lugar onde você andou pela primeira vez? Ou se foi lá que você aprendeu a nadar, onde morreu seu cachorro de anos, onde você bateu a cabeça e teve que levar pontos, onde você brincava de Goonies, de Barbie? Aquilo, para os outros, não é o local onde você passou sua vida. Lá é o CEP 71.635-350. É a casa de nº17, é o conjunto nº 15, é a Quadra Interna nº 07.

Quando afirmei, aos 09 anos, que odiava matemática mais do que odiava jujuba – e eu ODEIO jujuba – nunca imaginei que esse assunto tão ameaçador fosse se tornar ainda mais assustador. Os números não apenas confundem minha cabecinha. Eles agora querem dominar o mundo E roubar nossa humanidade! Caracas, que roteiro de filme de terror!

Mas pensem: até o dinheiro que circula nas “Pochetes de (sem) Valores” no mundo, não é dinheiro. O que é aquilo, então? Uma chance para acertar. Isso aí: NÚMEROS. Virtuais ainda por cima. Um bando de “zeros” e um bando de “uns” e se você não tem a quantidade certa de “uns” e “zeros”, você passa a ser o “zero”, à esquerda, óbvio.

E é isso. Infelizmente – e para variar – não tenho soluções para minhas reclamações. Só sei que eu, do ano 1979, 25 anos, morando na 712, com carro 1.8, tomando cerveja (quando dá) a 2,50, a 1.000 metros acima do mar, estou me esforçando para não me tornar “matematizada” ao ponto que esquecer que eu que nasci, que já vivi certa quantidade de tempo, morando nesse mundão, me locomovendo do jeito que dá, tomando aquilo que for líquido e me der prazer, com a cabeça muito acima das nuvens, não tenho, a meu ver, nenhuma restrição cadastral.

fevereiro 01, 2005

Os abertos, os fechados

Eu realmente não suporto mais pessoas fechadas.

Me dá a impressão de que elas pensam que nós, que queremos ouvir a respeito de seus sentimentos, preocupações, ou seja lá o quê, somos, na verdade, seres inferiores e não merecedores do compartilhamento de emoções.

Se você nota que uma pessoa querida está abalada, alterada, muito calada ou raivosa, o que você faz? Pode me chamar de louca, mas eu pergunto o que está acontecendo e como posso ajudar. Uma pessoa que vira e fala "ah, desculpe, mas não quero falar sobre isso" ou "não há nada que você possa fazer, mas obrigado", é uma coisa. Outra coisa é quando alguém passa a reproduzir todas as palavras como se fossem monossilábicas, como "não”, que é realmente uma monossílaba, eu sei, ou "nada", dissílaba que, utilizada de forma diferente, soa como "nad" (aha, monossílaba) ou, pior, "nad não", ou ainda, abandonando todas as opções de nossa gramática, solta um "nhumfnk", que os fechados acreditam ser, realmente, uma resposta satisfatória.

Já ouvi de uma dessas pessoas monossilábicas quando em crise, que isto é apenas uma forma de poupar o outro. Ou seja, os fechados não compartilham seus medos ou problemas simplesmente por não quererem sobrecarregar seus amiguinhos ou parceirinhos com um peso nos ombros que não lhes pertence.

O que eu acho disso? BULLSHIT!!!!! Será que os fechados não percebem que nós, abertos-de-bom-senso-e-não-necessariamente-escancarados, os amamos? Será que eles não percebem que quando batem aquela porta emocional em nossas caras estão nos fazendo (ou, pelo menos, a mim) sentir pequenos, não merecedores, sem credibilidade...irrelevantes! É, é assim que me sinto quando pessoas que eu amo me fecham do lado de fora de seus problemas: irrelevante.

O mais complicado é aprender a entender que os fechados nem sempre são arrogantes bastardos que nos querem fora de suas vidas. Eles, na maioria das vezes (pelo menos é no que prefiro acreditar), simplesmente não sabem como agir de forma diferente. Pode ser que tenha sido uma dificuldade gerada pelos pais, por traumas infantis ou situações constrangedoras na adolescência, mas não importa. Essa barreira, às vezes, e em certas pessoas, não é quebrada jamais. Mas acho que do mesmo jeito que há amor entre negros e brancos e índios e orientais, há amor entre os trabalhadores e os preguiçosos, os chiques e os bregas, os bonitos e os feios, os que comem sushi e os que preferem morrer a comer peixe cru, os punks- street-oy e as patricinhas e, é claro, entre os abertos e os fechados.

janeiro 20, 2005

A opinião, o casal

O difícil de ser uma pessoa que tem uma opinião sobre tudo, mesmo que uma opinião quase inconsciente, é que, vira e mexe, estamos "pagando por nossas línguas". Quem nunca afirmou categoricamente que NUNCA faria algo ou que SEMPRE agiria de tal forma em tal situação e acabou com vergonha de si mesmo quando tomou uma atitude completamente diferente do que havia proposto para si!

Eu, como uma dessas pessoas de opinião, já fui capaz de fazer afirmações que foram parar em Netuno depois de perceber que "falar é fácil", mas agir, nem sempre ou quase nunca, é. É como aquelas pessoas que pregam que jamais aceitariam ser chifradas e, quando acontece, perdoam o(a) parceiro(a) mais rápido do que imaginavam. Minhas afirmações categóricas muitas vezes se dirigiram para o campo amoroso. E isso é o mais ridículo de tudo pois essa área da vida é puro sentimento, e como alguém prevê uma atitude frente a uma situação sem ter a menor idéia de que tipo de sentimento surgirá de tal circunstância!

Como uma boa adolescente gorducha, no segundo grau criei para mim certos tipos de regras, estruturadas, bem formuladas, típicas de quem nunca era chamada para sair, muito menos pedida em namoro. "Eu SEMPRE isso", "eu NUNCA aquilo", ". E toda vez que SENTIA de forma diferente do que PENSAVA, quebrava a cara. Pelo menos, nunca tive problemas em admitir que havia quebrado a cara e pago um preço alto por minha língua.

Já na faculdade, as decepções amorosas foram tantas que as regras mudaram. Continuaram a existir, pois nesse nosso mundinho estabelecer regras é sinal de racionalidade, e racionalidade é competência, e quem quer parecer incompetente num mundo tão competitivo! Além disso, todo mundo na faculdade fica com essa onda de transformar qualquer assunto em doutrina acadêmica. Até cor de batom se transforma em teoria antropológica!! Por isso, as regras estavam lá, mais idiotas do que nunca, mas com um vocabulário de fazer inveja...

Em uma dessas conversas super produtivas na lanchonete da faculdade, cheguei a afirmar que JAMAIS sairia da casa da minha mãe se não fosse para morar sozinha antes de morar com amigos ou, e principalmente, com um namorado. Aliás, afirmava que essa idéia de casamento não me agradava muito não: "que idéia ultrapassada", "instituição falida", "não suporto a idéia de ter que dividir um banheiro com um namorado]marido" e quando me falaram que certos casais chegam a compartilhar, em caso necessidade, obviamente, a mesma escova de dente, falei que preferia MORRER, afinal, "que coisa anti-higiênica!!!!!".

Nossa, já afirmei tanta coisa: que não aceitaria excesso de intimidade, como peidar, cagar ou mijar na frente do parceiro, que quem sente atração por outro(a) é necessariamente porque está infeliz no relacionamento ou porque simplesmente não gosta de verdade, que só me casaria se fosse rica o suficiente para ter dois banheiros, que o relacionamento só dá certo se o casal se conhecer já há algum tempo, e blá, blá, blá...

Aonde estão essas afirmações hoje! Lá em Netuno mesmo. Já senti atração física enquanto amava outro, "casei" depois de um mês de namoro, antes de morar só e de ter dinheiro para dois banheiros (fala sério, às vezes falta dinheiro para o aluguel!!), já usei a escova de dente do meu marido e, o mais humilhante de tudo, descobri que durante o sono não mantemos controle absoluto do esfíncter, algo que meu dito cujo fez questão de me contar!!! Já tive que abrir a porta do banheiro, sentada na privada depois de mijar, para pegar o papel higiênico e já tive dor de barriga, algo dificííílimo de esconder quando se mora junto!

Ainda assim, toda quebrada de cara me trouxe algo de maravilhoso: mais maturidade, mais realismo, mais vivência, mais confiança, mais intimidade. É uma pena que o mundo a dois não seja nada cor de rosa e nem preto-e-branco. É uma mistureba de cores inexplicável. Um dia se age de um jeito, no outro dia, de outro. O sentimento muda, a atitude muda. Mas uma coisa sempre continua: para nos sentirmos racionais, competentes, sob controle e poderosos, continuamos criando nossas regrinhas...bobas que só elas!!