outubro 19, 2016

A DIFÍCIL ARTE DE CRESCER: se defendendo das pessoas amadas



Nenhum esporte radical jamais será tão difícil quanto amadurecer. Não estou falando de envelhecer. Isso é fácil, pois não se tem escolha, não importa a quantidade de botox e plástica. Envelhecer não é um processo voluntário. Amadurecer é.

Exatamente por ser um ato que requer dedicação, esforço pessoal e voluntariedade, quase ninguém, ultimamente, parece querer amadurecer de verdade. E, eu juro, eu totalmente entendo.
Por que alguém se prestaria a fazer anos de análise, questionaria suas próprias escolhas de vida e ponderaria suas decisões se, na nossa sociedade, o que mais se admira é gente com síndrome de Gabriela Cravo-e-Canela (Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo sim; vou ser sempre assim, Gabrieeeeela)?


Todo mundo ama gente que não muda de opinião política, que não muda o jeito de trabalhar. Gente que demonstra qual é a sua personalidade de maneiras visíveis, para que, assim, ninguém precise perder tempo conhecendo um ao outro diariamente, durante toda a vida.
Pra quê? Se eu tiver tatuagens, coleção de bonecos de Star Wars, carros vintage e uma gama de outras idiossincrasias, pronto. Já é suficiente para saber do que se trata a minha personalidade, certo? Se eu colocar tudo no instagram, então, melhor ainda.




Amadurecer demanda que você investigue porque insiste em fazer algumas coisas de alguns modos que nem sempre lhe parecem saudáveis ou positivos. E quando você sai da casa da sua mãe ou de um casamento, decide que o melhor é investigar até onde foi sua responsabilidade nessas ‘quebras’ e nas coisas que, aparentemente, ‘deram errado’, para que você não viva apenas culpando o outro e assuma responsabilidade pelas suas escolhas de vida.

E você ainda questiona se as coisas que ‘deram errado’ realmente deram errado, porque se abre para a ideia de que aquilo que dói não é, necessariamente, ruim. 

Pelo contrário, no processo de amadurecimento, você percebe que pelo menos aquilo que ruiu ou quebrou ou descaradamente lhe fez mal, é mais fácil de superar do que certos atos de pessoas ‘boas’, que te amam, e que, mesmo assim, te fazem um mal do caralho. Pessoas que acostumaram tanto com sua falta de autoestima que se sentem no direito de não te deixarem se amar porque, assim, você vai deixar ‘de ser quem você era’ e eles não têm obrigação nenhuma de lidar com isso.

Que história é essa de não querer mais pessoas tóxicas ao seu redor? Quem sempre usou seu ouvido de pinico vai fazer o quê? Pagar terapeuta por conta própria?? E que papo é esse de não deixar mais jogarem na sua cara informações obtidas através de confissões íntimas que você pensou estar fazendo com um amigo, com alguém que sentia lealdade por você? Na-na-ni-na-nãããão. Vai mudar sua personalidade para deixar de ser capacho, para não ser mais subserviente, para não ser mais a boazinha?? Que insolência.

Amadurecer significa enxergar que a vida adulta é repleta de gente que não quer ver sua felicidade. De gente que vai espernear e choramingar a cada vez que você disser ‘não’, mesmo que você diga, não para magoar o outro, mas para não SE magoar. Porque a cada vez que a gente faz uma concessão, não porque está a fim, mas para ser amado e reconhecido, um pedacinho nosso deixa de amar a si próprio. E aí, já viu. Quando você vira um adulto, foram tantos pedacinhos seus que você machucou para proteger um pedacinho do outro, que você se encontra dilacerado, quebradinho num mosaico nada bonito da falta de amor próprio.


Amadurecer é aceitar se perdoar por ter feito isso e tentar juntar os pedacinhos todos de novo. Mas quando a gente faz isso, a galera do status quo mencionada lá em cima, fica chateada com você. Se você enchia a cara e não quer mais, você virou careta. Se você fazia de tudo e um pouco mais pelo marido, até pelo ex, e não quer mais fazer, você virou uma escrota. Quando a gente não entrega nossos pedacinhos machucados para os outros, eles estranham e reclamam muito.
Eu já tive muito medo disso. Mas o bom de amadurecer é que você vê que o choro do outro é mais fácil de suportar quando todos os seus pedacinhos estão inteiros, em você, se amando e entendendo que não é possível ser feliz estando preocupado em ser amado por todo mundo. Amém.

julho 25, 2016

Relações Tóxicas

Quando a gente diz "relação tóxica" hoje em dia, imediatamente pensa na Jout Jout e no vídeo do batom vermelho. De fato, diante de tantos abusos maritais e de namorados, acabamos pensando que só um cônjuge ou parceiro abusivo é que contribui para a toxicidade nas nossas vidas.





Mas, infelizmente, o buraco é bem mais embaixo. Afinal, nós nos relacionamos com um monte de gente: família, amigos, colegas de trabalho, chefias, filhos e seres humanos em geral (ainda não conheci ninguém com uma relação abusiva com seu bicho de estimação, mas certeza que deve rolar).

Perceber-se numa relação tóxica não é nada fácil. Para quem, como eu, lutou a vida inteira com inseguranças e problemas de autoestima, o processo é ainda mais árduo, porque levamos muito tempo para sequer entender o que é que, naquela relação, pode se constituir um abuso.


Pode-se passar anos achando que as brigas familiares são motivadas apenas pelo temperamento "esquentado" dos parentes; ou que ser o saco de pancadas emocional da sua mãe é o que toda boa filha faz.

Pode-se ficar décadas em uma amizade com pessoas que só te ligam quando precisam de algo ou que te fazem sentir constantemente interpretando um "papel",  porque sua personalidade verdadeira talvez não caiba na vida do outro tão perfeitamente bem.

Quem nunca sentiu que, a qualquer palavra mal escolhida, um chefe, um vizinho, um amigo ou um parente teriam um ataque de fúria? enfim.

Em qualquer contexto, sair do ciclo tóxico não é simples, mas a falta de autoestima traz algo ainda pior para esse cenário: culpa. 

Para quem não se ama, querer dar um 'chega pra lá' nos abusos da mãe pode significar que você é ingrata e fria. Para quem não se respeita, chamar a atenção do amigo para seus abusos pode significar que você "está pedindo para não ter amigo nenhum". Para quem não se valoriza, terminar com um marido que te faz infeliz pode parecer uma decisão definitiva rumo à solidão eterna.

Mas viva a busca pelo autoconhecimento e pela evolução emocional. Seja pela terapia (que funciona melhor para mim), seja pelo coaching, pela religião (desde que realmente voltada para o desenvolvimento pessoal e não só o cumprimento de dogmas) ou mesmo pela autoanálise e observação de si próprio.

Ao buscarmos a maturidade emocional e o amor próprio, a gente percebe que a solidão mais cruel e verdadeira ocorre justamente quando nos cercamos de pessoas que não nos fazem bem. Quando aceitamos calados os abusos do outro. Quando não nos tratamos como seres únicos e maravilhosos que merecem ser bem tratados. Viver na relação tóxica é que é realmente solitário, dolorido, penoso.

É para sair xingando o amigo que te pediu carona? Nããão. É para cortar relações com a família por causa de uma discussão política? Nãããão. Como tudo o que diz respeito a relações humanas, nenhuma análise se torna uma regra, uma fórmula absoluta e definitiva de vida.


Mas se você se sente muito para baixo nas suas relações ou constantemente ansioso ou constantemente sem liberdade para falar o que pensa, bom, pare e pense um pouquinho. Quem sabe os outros à sua volta não estão copiando o jeito como você mesmo se trata: sem amor próprio, sem perdão e sem autoestima?

Porque, no final das contas, é só isso que acontece: os outros nos tratam como nós nos tratamos. Essa é a lição. Nos respeitar para termos respeito, nos amarmos para saber quando alguém nos ama, nos levarmos a sério para sermos levados a sério, e brincarmos sobre nossas falhas para que não pensemos também que qualquer brincadeira é um ataque. 

Então, vamos lá. Rumo à evolução emocional. :-)




dezembro 28, 2015

A cruel arte de pedir desculpas por existir

Alguns hábitos ou traços de personalidade são construídos e/ou cultivados durante tanto tempo, que ao constatarmos sua existência e quão negativa ela pode ser, fica difícil visualizar uma situação diferente daquela.

Me explico.
Por mais que eu deteste admitir e por mais que a maioria das pessoas ao meu redor jamais desconfie disso pelo meu jeito meio desaforado e superficialmente seguro, sou uma pessoa que vive pedindo desculpas por existir. Como se o fato de estar no mundo fosse algo tão errado, que nascer e viver seria uma sorte pela qual teria que me desculpar para todo o sempre.
Parece ridículo, eu sei. Mas é uma coisa muito forte e, ao mesmo tempo sutil. E já tão enraizada dentro de mim, que não consigo nem imaginar o que seria eu sem essa sensação. Eu com a noção de que "mereço tudo que há de bom na vida e não tenho que me martirizar por aquilo que não sei ou não fiz" é um quadro que minha mente já não consegue pintar.

Para se entender a gravidade desse tipo de auto percepção, pense nisso: Hitler provavelmente foi capaz de não se ver como um peso para o mundo. E eu, pamonha, sim.

É claro que isso não ocorre de maneira simples e óbvia. É uma construção paulatina que me levou a, sem querer, sentir que minhas fortunas não são legítimas ou merecidas, e que minhas qualidades não passam de características positivas que todo mundo possui. O que é meu, só meu, são os defeitos, as falhas, as limitações. 



Não raro, desse tipo de percepção vem outra condição péssima e cada vez mais comum: a síndrome do impostor. A pessoa tem tanta certeza que não vale nada que, se constrói algo de bom na vida, acha que ganhou pela sorte de ter convencido a todos de que valia algo. Mas a culpa vem junto. A culpa de saber que, no fundo, você não merece o que tem de bom. E um dia, verão isso tão claramente quanto eu.

Alguns resultados só foram percebidos por mim recentemente e para o meu completo e absoluto estarrecimento, como minha fobia descontrolada de viajar de avião. Amo viajar. Queria muito. Mas passei anos entrando em pânico e, consequentemente, boicotando sutilmente cada oportunidade e tentativa de viajar.

De repente, na terapia, é claro, tive um estalo. Meu medo (que existe, sim, num nível também inconsciente) extrapola os limites das expectativas reais de um acidente simplesmente porque eu acho que não mereço curtir a vida e viajar. E se eu não mereço, é claro que o avião vai cair. É a punição perfeita para alguém que ousou aproveitar a vida sem merecer.

Qualquer um tem direito de rolar os olhos pensando "de onde essa louca tirou isso?". Mas é assim. Triste, eu sei.

Eu não defendi a criança e a adolescente que eu era, por acreditar que, se eu fosse contra meus pais ou se eu os decepcionasse fazendo escolhas que desaprovariam, eu não poderia permanecer vivendo e muito menos sendo feliz. Fiz o curso que provava que eu era séria e não viciada em moda e televisão. Assumi uma personalidade que se encaixou direitinho na rotina familiar depois do divórcio dos meus pais, pois, para manter meu lugar no mundo eu tinha que ser prestativa, né?

Eu fui amiga de pessoas que não tinham nada a ver comigo, porque, afinal de contas, que honra era ter pessoas que cogitaram serem minhas amigas?  E é claro que eu gostei de todo cara que gostou de mim, porque como uma pessoa desprezível como eu não vai retribuir um sentimento desse? Que sorte! Tudo veio só com sorte! Não teve nada a ver com eu falar inglês fluentemente por pura dedicação, desde a adolescência. Nem com meu português bastante proficiente num mundo onde mataram as crases. Não tem a ver com o fato de ter começado a trabalhar cedo e ser uma pessoa que absorve informações como uma esponja através da prática. Nem nada a ver como o fato de ser uma pessoa que quer ver os amigos felizes, e que faz questão de estar disponível quando alguém precisa conversar. Não tem a ver com minha preocupação com o mundo e com as pessoas, o que me faz ponderar minhas ações e querer ser solícita e cordial com a maioria das pessoas.

Enfim. Isso tem acabado. Vai acabar ainda mais e isso traz consequências. Tem gente que ama a gente, mas que acostumou tanto com nossa prontidão e pedidos de desculpas que fica chateada quando a gente decide que não vai mais fazer isso. É duro. Se defender e se amar é uma arte difícil de aprender depois de velha. Mas tamos aí. Até porque quero que minhas filhas saibam que eu as amo profundamente, e que tenho, sim, mais maturidade e experiência para fazer certos julgamentos. Mas quando elas sentirem, em seu âmago, que estão certas e precisam fazer algo que vai contra minha determinação, prefiro que elas amorosamente me mandem tomar no cú.

dezembro 10, 2015

UM ADEUS POSITIVO A 2015



O ano de 2015 talvez tenha sido dos mais irônicos da minha vida.

Eu tomei a decisão de me separar depois de 11 anos de relacionamento, por sentir que estar sozinha junto era pior que estar sozinha de fato. Também quis me separar por ter a estranha noção de que, assim, salvaria a amizade, o respeito e até o amor que sentíamos um pelo outro. Até agora, parece ter sido tudo confirmado.

Eu tive um surto depressivo, rápido, porém, intenso, que me fez aceitar o fato de que eu queria morrer. Por mais horrível que seja essa sensação, aceitá-la me forçou a parar, a rever prioridades, a entender o que era que meu âmago – que, em verdade, nem queria mesmo morrer – queria que eu visse. Meu desejo de morte foi o impulso de vida mais forte que já senti.
Eu me arrisquei a diminuir minha carga horária e minha dedicação na área pública para investir em uma nova carreira na área privada, no andar cavalar de uma crise econômica. Mas foi assim que descobri uma atividade que gosto, foi assim que melhorei meu padrão de vida e foi assim que ajudei alguns amigos, que já sentiam o gostinho da tal crise, e que vieram contribuir comigo.



Com o novo trabalho e uma rotina insana, eu me virei como pude para estar com minhas filhas, valorizando cada momento. E também, para não estar com elas, numa época em que faltaram babás e secretárias de confiança, o que me fez recorrer a parentes e amigos. 

Algumas vezes, não vi minhas filhas por conta do trabalho. Outras, por conta de acreditar que, como indivíduo, mereço, sim, “sacrificá-las” para fazer ‘besteiras’, como ver amigas, sair pra dançar e beber vinho ou para ficar em casa, sozinha, respirando a quase inexistente solidão produtiva que se perde ao ter filhos.

Eu me reaproximei de relações familiares que, apesar de intensas, já eram tratadas por mim como diplomáticas, e quando finalmente passei da diplomacia para a sinceridade do “ser eu mesma”, fui acusada de estar diferente. E a causa? Sempre, como sempre, por uma suposta influência que os outros exercem sobre mim. Me dá raiva só de ouvir isso. Sempre foi um dos jeitos mais fáceis de me ofender. Mas isso me fez pensar sobre como, de fato, dou importância às opiniões de pessoas que gosto. Às vezes, até das que não gosto. Eu gosto de saber o que os outros sabem de mim. Feio, eu sei. Mas o pior foi descobrir que elas ADORAM o fato de eu querer saber o que elas querem para mim.

Aí, depois que ouço suas opiniões, e as carrego para o fundo do meu coração e da minha cabeça, decido se vou ou não cumpri-las. E quando eu decido que não, rapaz, é um surto. Quem meteu o bedelho e não foi obedecido, fica com raiva de mim, me joga coisas na cara, pois, um dos jeitos mais fáceis de me quebrar, até então, era me fazer sentir culpada. Culpa é algo eu já sentia 95% do tempo, ao longo da minha vida. Agora, quero que todo mundo se foda antes de mim e das minhas filhas. Sinto muito se achei o seu conselho uma merda. Agradeço, mas declino.

O problema com as orientações e os conselhos dos outros é que, toda vez que os segui cegamente, me vi sozinha, de uma forma ou de outra. Desamparada, de um lado, por não ter feito que eu queria. Desamparada, por outro, porque quem me orientou ou nunca ficou satisfeito ou acabou assistindo tudo cair por terra, sem nem cogitar assumir uma corresponsabilidade. A vida é sua. O problema é seu.  E estão certos, mas agora, antes de enfrentar o problema, eu só sigo orientação que eu acreditar que vale. Foi mal aê.

Crescer é uma merda. Sentir que só se está crescendo aos 36, puta merda, mais doloroso ainda. Me ver absorvendo lições que minhas filhas também estão absorvendo aos 6 e 5 anos pode ser humilhante. Acabo passando pra elas uma opinião de criança, da criança que eu fui e que não respondeu aos baques. Se minha filha me diz que sofreu bullying na escola, meu primeiro impulso é falar para ela socar a cara da guria. Depois respiro, e digo que ela pode se sentir segura para dar uma resposta, porque ela tem pessoas que a amam e sabem o tanto que ela é especial e que, por isso, ela nunca precisa ter medo. Mas que, se ela não quiser responder, tudo bem também, desde que não carregue a mágoa dentro dela. E se tudo falhar, a gente soca a cara da guria.

Enfim, depois de anos alimentando o péssimo hábito de reclamar, este ano eu diminuí drasticamente meus lamentos, mas já era tarde demais. Vi gente querida tentando me ‘salvar’ justamente na fase que mais me senti fortalecida. O excesso de trabalho e o fato de viver num país que não facilita a maternidade em nada são difíceis? Sem dúvida. Mas é justamente ser feliz e guerreira nesse contexto que me faz sentir forte e capaz de superar tudo que jogarem pra cima de mim.

 

Assim, agradeço a todas as amizades, a todos os elogios e palavras de conforto, pois teve gente que fez toda a diferença na minha vida. Mas também agradeço a quem, mesmo sem querer, me fez sentir mal, me fez questionar minhas escolhas nem que fosse com o intuito de defendê-las. Pois eu as defendo. Não existiria caminho diverso sem tirar desse cenário as minhas filhas, por exemplo. Não existiria um sucesso profissional sem o sacrifício de amizades e de experiências de vida que me fizeram justamente essa guerreira que sinto ser hoje. E apesar de fraquejar e chorar de cansaço direto, eu vejo 2015 como um ano de pura vitória. Parabéns pra mim. Finalmente, eu sinto que mereço. Valeu, 2015.

novembro 20, 2015

Parceiro de Poker x parceiro de dança

Recentemente, uma das minhas amigas mais evoluídas emocional e espiritualmente (na minha opinião, ela iria discordar) me apresentou uma analogia fantástica sobre a qual tinha pensado enquanto tentava decifrar os códigos e mensagens de um peguete.

Ao começar a ouvir, já pensei: é isso. Total, é isso.

Ela, que é uma excelente dançarina, e pratica de fato a dança de salão, estava ficando com um jogador profissional de poker. E, pensando a respeito da ética existente nesses dois universos, chegou a conclusões que, eu acredito, são de absurda valia.

Contou ela que, na dança, há uma ética de parceria muito intensa, pois, a ideia é que os dois envolvidos consigam fazer os passos juntos, desenvolver a coreografia juntos e se divertirem juntos. Há uma busca pelo equilíbrio no estilo e no ritmo dos envolvidos. Isso, é claro, não quer dizer que tudo saia sempre certo. A verdade é que, assim como na vida, ninguém é obrigado a permanecer dançando com a mesma pessoas por várias e várias músicas. Porém, quando um convite é feito por um e aceito pelo outro, se estabelece ali um compromisso tácito pelo período de uma dança, ou uma música. Enquanto esse momento estiver acontecendo, a dupla deve permanecer em colaboração e atenção até que a música termine. 

Comparativamente, a ética do jogo e, particularmente a do poker, envolvia preceitos e conceitos opostos. Não se joga em parceria, se joga em combate. Blefe, manipulação, acaso e sorte são mais do que bem vindos, encorajados e elogiados. Quanto mais dissimulado o jogador, mais valorizado ele é. A ideia é fazer com que os outros se sintam inseguros, que percam a confiança em suas cartas. E o pior, a covardia é de fato bem aceita, pois, se você não está mais a fim de jogar ou acha que suas cartas não são boas, basta 'passar', 'fold', abandonar o jogo no meio, sem nenhuma preocupação com o envolvimento dos outros. E não é sequer necessário explicar o porquê. É um belo e mimado "não tô mais a fim, e não digo porquê".

Depois de 11 anos casada e recém separada, sinto que, em vários momentos da minha relação,  tive um parceiro de poker. E dos poucos homens com quem tenho conversado, sinto uma vibe de jogo também.

Como tenho uma rotina muito puxada, que deixa pouquíssimo espaço para uma vida social, confesso que não tenho mais paciência para o poker. Na verdade, nunca fui de jogar baralho, justamente por nunca ter sido boa em manipular os outros.

Ainda nem sonho com uma nova relação, mas uma coisa eu já sei: Quero um parceiro de dança.

abril 02, 2013

AGORA A CULPA É NOSSA??


Hoje vi mais uma notícia a respeito do estrangulamento de uma professora de 37 anos, mãe de dois filhos, ocorrido há alguns dias. Ela foi, supostamente, coagida dentro do estacionamento privado de um shopping super movimentado, de onde foi levada até o Parque da Cidade e encontrada morta dentro do veículo.

Depois da reportagem filmaram um monte de gente que, em plena luz do dia, estava dentro do carro ouvindo música, retirando a bolsa (em velocidade ‘normal’, que não é lenta, mas não é na rapidez da luz), falando ao celular próximo ao veículo e até lendo jornal sentado fora do carro. O tom da reportagem, entretanto, era jocoso e depreciativo, como se aquelas pessoas fossem loucas de ousar – às onze da manhã, meio-dia ou às duas da tarde – não se verem, naquele momento, como vítimas potenciais de um sequestro relâmpago e posterior assassinato.

Eu confesso que fiquei meio embasbacada. O Estado não pode assumir responsabilidade pela violência urbana, mas, agora, o cidadão é que tem viver na paranoia de que é um alvo vivo, constante e ambulante, aonde quer que esteja, aonde quer que vá e em qualquer horário?

Tudo bem que há pessoas sem nenhum tipo de consciência, aquelas que vão namorar dentro do carro no escuro e em locais desertos, gente que sai contando o dinheiro fora do banco, mulheres que estacionam e passam batom antes de saírem do carro. Mas as pessoas filmadas não eram desse tipo. Eram, basicamente, proprietários de veículos automotivos não sendo tomadas pelo medo absurdo de serem abordadas em plena luz do dia, no meio da cidade.

Se basta ser dono de um carro para ser culpado dos crimes ocorridos com a própria pessoa, o governo federal poderia, pelo menos, parar de empurrar esses pátios entupidos de veículos, através de redução tributária e propaganda subliminar, que visam assegurar o ‘crescimento econômico’ à custa de uma ferramenta cada vez menos útil ao cidadão.

Os carros de preço acessível não são confortáveis, e sequer são ‘acessíveis’ assim quando comparados aos preços praticados em outros países. Os engarrafamentos são resultado direto do excesso de carros; a falta de cortesia, a poluição, os acidentes e as violações de trânsito, também – agravados ainda mais pela população muito mal instruída e mal educada do Brasil. E, agora, se você tem carro, está imediatamente sujeito a ser sequestrado, pois a Secretaria de Segurança Pública e o governo de uma maneira geral não têm nada a ver com isso, aparentemente.

Acrescente-se a isso as situações em que é inviável agir com a rapidez e a atenção necessárias, como, por exemplo, quando coloco minhas duas filhas, cada uma em sua respectiva cadeirinha – exigidas pelo Detran sob pena de multa – e afivelo os cintos de segurança de cada uma delas, momentos em que estou 100% sujeita a ser uma vítima de sequestro. Como também não posso portar armas de fogo – só os sequestradores estão autorizados a isso – devo escolher entre jogar minhas filhas no banco de trás e rezar para elas não baterem a cabeça numa freada e para não pegar uma blitz que resultará, certamente, numa multa que não posso pagar; ou ousar parar para acomodá-las no carro assumindo a responsabilidade de ser, eu mesma, nosso próprio algoz ao me tornar um alvo de sequestro relâmpago.

Enquanto isso, bicicleta não é tratada como meio de transporte, o metrô tem apenas um trecho de ida e volta, ônibus é menos constante e menos seguro que uma carroça, e dá-lhe incentivo para se comprar um carro.

Ao que me parece, todos os bandidos trabalham com o mesmo cúmplice: a negligência do Estado.

fevereiro 28, 2013

Quando não temos mais nada a ver com nossas amigas

Dizer tchau é sempre chato. Pode ser menos ou mais chato a depender do contexto e da ocasião, mas ainda assim é chato.

Partir, quebrar, separar, todas essas ações invocam um sentimento negativo de perda. Até quando o tchau é progressivo e natural, ocasionado pela vida, pelas mudanças, pelas escolhas, ele é chato.

Ao perceber que mal tenho contato com aquelas que já foram minhas 'irmãs', minha família, meu refúgio e minha inspiração, vejo que as relações são mesmo muito frágeis. Nenhuma mágoa (ok, talvez algumas), nenhum adeus formal, nenhuma briga, só fomos cada uma para seu canto e nunca mais compartilhamos esse canto umas com as outras. Ou, pelo menos, comigo.

E ao ocasionalmente nos encontrarmos, damos cumprimentos diplomáticos, e até arriscamos uma tentativa de falar sobre coisas íntimas, tentando trazer de volta o sentimento de cumplicidade, mas falhamos solenemente, porque ele simplesmente não está mais lá. Se ver completamente diferente daquelas que um dia foram seu espelho, é triste, mas interessante.

Quem mudou primeiro? Quem mudou o quê? Será que realmente mudamos ou nunca fomos, de fato, tão semelhantes assim? O que sustenta amizades profundas? De onde vem essa oscilação das relações?

Enfim, o espaço não fica necessariamente vazio, foi preenchido por filhos, escolhas, diferenças e...novas amigas. Mesmo assim, é chato.

julho 13, 2012

CASAMENTO É DIFÍCIL MESMO

Malditos sejam todos os psicólogos que escrevem para a revista Caras. Ô, maniazinha de fazerem os outros se sentirem mal!

Ali, eu já li a respeito da importância da cerimônia de casamento, para que o homem leve a sério a relação. Sério??? Quem casou na igreja ou no civil não chifra, não sacaneia, não deixa de lavar a louça, nem joga toalha molhada na cama?? Really? Não é o que ouço de amigas casadas...

 Já li sobre a comunicação ampla e irrestrita que deve haver entre os casais. Eu quero saber quem é que consegue conversar sobre tudo o tempo todo com o parceiro. Sem nunca esconder absolutamente nada. "Gato, o sexo foi insuportável ontem, tá? Estava pensando na Avenida Brasil, de tão entendiada".  "Amor, tive uma caganeira fenomenal agora, meu cú quase explodiu". Ou então, "querida, queria te dizer que, em nome da nossa comunicação ampla e irrestrita, e a sinceridade que deve haver entre nós, que sua mãe é uma víbora excrota e espero que ela morra atacada por cães selvagens raivosos, tá, xuxu?". Qualé!

E, a melhor de todas: "é importante manter acesa a paixão".

Agora me digam, quem é que, em sã consciência, com trabalho e responsabilidades diárias, consegue viver de tesão e paixão, depois de anos juntos? E com filhos na jogada??? Quem é que aguenta ou consegue ficar um dia inteiro deitado juntos, transando, pedindo comida chinesa para não sair de casa e transando de novo, sentindo saudade porque o outro foi ao banheiro? Aliás, foi ao banheiro só escovar o dente, porque na paixão ninguém peida, caga ou mija.

Isso é coisa para início de namoro, minha gente! Paixão só é paixão porque é efêmera! Senão, ninguém trabalha, estuda ou cria os filhos.

No final das contas, eu cansei de me sentir mal por causa desses artigos, pois, a grande verdade, é que só a gente sabe da própria relação. E olhe lá, pois, vira e mexe, temos períodos de 'levar com a barriga' porque é o que dá para fazer naquele momento! Portanto, e digo isso principalmente para as mulheres, que são realmente muito suscetíveis a receitas mágicas para consertar a relação - até quando ela não está quebrada - muita atenção com as manias de 'resolver' tudo através de condutas 'ideais'. Mulher tem mania, por exemplo, de dizer que não perdoa chifre. Aí, o cara dá uma escorregada - e antes que me chamem de machista um psicólogo da Caras disse que as mulheres chifram mais e com menos culpa. rá! - a mina termina para não fazer feio perante as amigas, e ainda fica sofrendo porque gosta do ex apesar de tudo.

Vamos abandonar as fórmulas mágicas e aceitar que casamento é difícil mesmo? Também não é para ser um massacre. Uma coisa é ter consciência dos altos e baixos, outra, é estar miserável o tempo inteiro na relação. Mas dá para gente amadurecer e tentar encarar as relações com um pouquinho de tolerância e racionalidade, né?

Ok, agora me deem licença que vou brigar com o dito cujo porque a gente só é 'juntado', não conversamos sobre cada detalhe de nossas vidas, e não mantemos a paixão acesa, porque perdemos nosso tempo criando duas filhas e pagando contas. ;-)


junho 21, 2012

DOS ZUMBIS E OUTROS APOCALIPSES

Desafiada a escrever uma 'coluna' semanal - para o caso de, um dia, algum jornal receber currículos para isso. rá - decidi começar escrevendo sobre uma ideia bizarra que já ocupou boas horas da minha vida mais recente e vários pesadelos aos longo dos anos. 

Falar sobre apocalipses e, particularmente, sobre a possibilidade de um apocalipse zumbi, hoje em dia, nem é assim tão incomum. De alguns meses para cá, temos sido bombardeados com uma série de filmes sobre o assunto, que exploram desde a veia dramática até a tragicômica; temos notícias de arquitetos que construíram casas à prova de zumbi; temos acesso a jogos sobre comunidades sobreviventes e até 'flores contra zumbis' (sem brincadeira); podemos participar das chamadas 'zombie walks' - quando várias pessoas simplesmente se vestem como corpos decrépitos e passeiam pelas ruas, ao que, neste momento, aproveito para agradecer o fato de nunca ter encontrado esse pessoal, sob risco de, das duas uma, ter um infarto ou acertar a cabeça de um deles com a primeira 'arma' que encontrasse -  além de outras várias manifestações, hoje consideradas 'culturais', sobre a temática dos mortos-vivos.

Ainda que o assunto esteja permeando cada vez mais as rede sociais, a internet de maneira geral e o cinema - especialmente com a proximidade da data supostamente profetizada como o fim do mundo, pelo calendário Maia, e agora que pessoas já começaram a comer a cara das outras, como ocorreu na Flórida recentemente - não vou dizer que as pessoas não estranham ouvir de uma trintona, mãe de duas, que ela tem uma estratégia de fuga da cidade para o dia que esse apocalipse acontecer. Acrescente-se que, modéstia totalmente à parte, também não sou uma pessoa de capacidades intelectuais tão questionáveis a ponto de receber dos outros uma reação do tipo 'acho que deve ser normal acreditar em zumbis quando se é, assim, meio lesinha'. 

Exatamente por isso, passei a ter que satisfazer a curiosidade alheia no que tange minha motivação racional - se é que é possível falar em medo de zumbis e racionalidade na mesma frase - para cultivar esse pensamento sobre uma possibilidade de que o mundo entre em um colapso tão intenso que aqueles que buscarem a sobrevivência estarão sujeitos a abandonar entes queridos para trás, talvez até 'matá-los',  viver sob o risco de um ataque fatal, manter-se em movimento pelas estradas e áreas isoladas, aprender a usar armas,  a conviver com a morte iminente, a buscar alimentos, água e combustível, além de várias outras medidas que, supostamente, passarão a fazer parte do cotidiano de um sobrevivente.

Para responder a esses questionamentos, fui obrigada a, de fato, avaliar o que alimenta tão fortemente esse medo quase desejo de que esse apocalipse se profetize. Comecei a pensar sobre o porquê desse cenário tão desolador - que colocaria em risco a vida das minhas filhas, do meu companheiro, da minha cachorrinha, que são os que moram comigo, pois, para uma estratégia realista, já aceitei que não terei condições de salvar irmãos e mãe - me trazia, paradoxalmente, certo conforto, certa calma?

E aí consegui, na medida do possível, atingir duas possíveis explicações vantajosas, sendo que, para o propósito desta coluna, só aprofundarei em uma. A primeira é a questão daquilo que passarei a denominar de 'imediato tangível'. Super chique. Tem total aura filosófica, não? O imediato tangível, para mim, representa justamente o oposto daquilo que grande parte da minha geração aprendeu a cultivar, sabe-se lá por que: o futuro incerto. Pensamos sempre à frente. O que faremos amanhã, o que seremos no futuro, o que teremos muito em breve. Tudo é baseado em uma corrida de longuíssimo prazo, apesar da consciência a respeito da fragilidade e efemeridade da vida. Isso cansa. Pensar sempre só em parâmetros futuros, desde a hora que conseguiremos chegar ao trabalho até o dia em que seremos felizes, cansa mesmo.

Porém, face à perspectiva do colapso mundial, tudo se torna imediato. Não há como pensar em carreira, resultado e futuro quando se está tentando sobreviver agora, a cada parada, a cada ataque. Há conforto no agora. Há conforto na ideia de que frente ao fim, tudo o que é relevante será, de fato, relevante. O por do Sol que pode ser o último, o contato com a família, a comida rara, as lembranças de infância. Tudo passa a ter importância agora e tudo que tem importância no futuro, deixa de ser prioridade. Tá aí, minha primeira racionalização.

A segunda é justamente a sensação do controle. Mas, esperem aí! Acabei de falar sobres vantagens é o abandono da ideia de controle do futuro, não é mesmo? Sim, mas esse mundo de hoje, em que pese ser livre de zumbis, é repleto de inconstâncias, inseguranças e violência cada vez mais gratuita. As pessoas já se matam de maneiras crueis e, pior, sem a 'justificativa' de que não têm compreensão do que estão fazendo. As pessoas roubam, batem, machucam. Os governos roubam, matam e machucam. Com uma prestação estatal falha como a nossa, que não consegue nos garantir punibilidade e justiça, a impotência passa a ser um sentimento constante e particularmente negativo. Para aqueles que têm filhos, então, a possibilidade da violência iminente chega a ser dolorida, massacrante. O outro tem sempre uma arma, eu, não. Mas no apocalipse zumbi o Estado deixa de fingir que existe, e a anarquia faz com que cada um responda por suas ações e reações. Se alguém me ameaça, minha reação de matá-lo é justificada pelo impulso da sobrevivência.

Claro que quando penso no que seria essa realidade, entro em pânico. Já pensou, tomar um tiro à toa? Aí, lembro, pessoas tomam tiros à toa. Então, é 'melhor' que haja mesmo uma situação em que você possa se defender dessa construção abstrata de um humano que não é mais humano e não tem sentimentos, nem família, nem projetos, que é o zumbi.

Então, acho que é isso. Nos vemos no fim do mundo...






março 09, 2012

VERDADEZINHAS SOBRE A MATERNIDADE

Toda vez que uma mulher me pergunta se vale a pena ser mãe, minha resposta é imediata: 'não'.

Claro que já estou até acostumada com os rostos boquiabertos ao ouvirem isso de uma mãe...de duas crianças.

Minha resposta não é uma tentativa de contribuir com o controle demográfico, e muito menos um instrumento para desencorajar aquelas que sonham, um dia, em ser mães. É uma resposta que leva em consideração alguns fatores racionais, atrelados aos emocionais, e minha estruturação mental funciona assim:

Ser mãe é provavelmente o evento mais perturbador pelo qual alguém pode passar. E não estou dizendo no sentido de 'é a coisa mais maravilhosa que poderia acontecer com alguém'. Não, a palavra é 'pertubador' mesmo.

Muita gente acredita que entende a proporção das mudanças quando falam que a maternidade 'deixa nossa vida de cabeça para baixo'. Mas a crendice popular a respeito da maternidade como um estado divino, uma experiência transcendental, alimenta a ideia que 'a vida de cabeça para baixo' faz total sentido desde que você tenha assumido o papel de mãe e ame o seu filho.

Acontece que nem todo mundo sente o apelo maternal logo a partir do nascimento. E quando você olha aquela criatura - a qual você ainda não conhece - nos primeiros meses da vida dela, e não consegue sentir o tal do amor incondicional, porque, afinal de contas, apesar de estar intensamente ligada àquela criança, você ainda consegue pensar em inúmeras atividades que preferia estar fazendo ao invés de tomar conta dela; e quando ela faz seu peito sangrar ou te acorda a noite inteira para mamar, você não consegue achar que isso é o belo da natureza e nem se empolgar com as coisas incríveis que seu corpo é capaz de fazer justamente porque você é mãe. Você se sente péssima.

E aí é que está o grande peso da maternidade, porque não importa que tipo de alienação, cansaço ou desprezo momentâneo você possa estar sentido a respeito da sua condição de mãe, ele sempre virá acompanhado da enorme culpa social, brotada em nós e encorajada pela sociedade, pelo simples fato de que, se você não ama ser mãe o tempo todo, boa mãe você não é.

Dessa forma, o fardo da maternidade é sempre duplo: o sentimento negativo + a culpa = uma situação normal piorada exponencialmente.

TODA mãe já quis que seus filhos - por mais fofinhos e amáveis que fossem - calassem a boca por uma p$%¨& de um minuto, para que pudesse pensar em algo, ou, ainda melhor, pensar em absolutamente nada. Toda mãe, por mais que tenha orgulho de ter organizado aquela festinha de aniversário, pensou se não teria como ir para um boteco com as amigas logo em seguida, para desanuviar da correria inerente aos eventos infantis. Toda mãe já quis sumir ou que o filho sumisse. Toda mãe já quis, em algum microcentésimo de segundo que seja, voltar no tempo e não ter tido filhos.

E o mais impressionante, é que isso não tem nada a ver com o amor que somos capazes de sentir por eles. Esse é justamente o sentimento que não dá para descrever, pois ele muda o tempo todo. À medida que os filhos vão crescendo, vai crescendo nosso apego e amor por eles. São o cuidado, as horas dedicadas e até as dificuldades passadas juntos que fazem com que o amor que sentimos comece a parecer incondicional. Nós conhecemos nossos filhos aos poucos e, o duro, é nos conhecer de volta, através deles. Mas essa é a experiência que vale.

Por isso, quando uma mulher que não tem filhos me pergunta se deveria tê-los, eu digo 'não'. Porque o lado ruim da maternidade - principalmente em um país que tem ZERO políticas públicas voltadas para viabilizar uma maternidade plena, com garantia de exercício profissional pela mãe, com garantia de educação infantil integral e pública, com segurança pública, com ferramentas que permitam a essas mães, muitas vezes solteiras e únicas chefes de família, contribuírem com uma sociedade melhor através da criação eficiente de seus rebentos - é infinitamente listável, e o lado bom, impossível de se descrever.

Tão impossível, que acabamos criando frases idiotas na tentativa de explicar o sentimento. 'Por que eu amo minha filha?', 'Porque é minha filha'.

Todos são capazes de empatizar com o sentimento. Todos são capazes de amar. Mas o sentimento da mãe é tão complexo, crescente e mutável, que tenho que recorrer ao argumento de que a resposta para a pergunta 'vale a pena ser mãe', só poderá ser eficiente e plenamente respondida depois que você já o é. Aí, danou-se, né?